quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Saiu agora o livro


com as traduções em diferentes línguas do poema de Wilfred Owen, "Anthem for Doomed Youth". Owen morreu em 1918, aos 25 anos, uma semana antes do armistício.
A edição, esteticamente muito bonita, coube a Damian Grant.
A editora é da Universidade de Lille 3.
Aqui fica de novo a minha tradução (que encerra o livro), juntamente com o poema na sua versão original:


"Hino para uma juventude condenada"

Que sinos tocam por estes que morrem como gado?
Apenas a raiva monstruosa das armas;
Apenas o soluçar rápido das espingardas
Acompanha as suas preces apressadas.
Não ouvem fingimentos; nem orações, nem sinos,
Nem vozes enlutadas, excepto os coros -
Os estridentes, dementes coros do pranto das balas,
E dos cornetins que os chamam em tristes condados.

Que velas se erguerão em seu louvor?
Não nas mãos de jovens, mas sim nos seus olhos
Cintilarão as piedosas luzes das despedidas;
A pálida tez das raparigas será a sua mortalha;
Suas flores, a ternura de resignadas memórias,
E cada lento crepúsculo, uma persiana que se fecha.

Eis o texto original:


"Anthem for Doomed Youth"


What passing-bells for these who die as cattle?
Only the monstrous anger of the guns;
Only the stuttering rifles' rapid rattle
Can patter out their hasty orisons.
No mockeries now for them; no prayers nor bells,
Nor any voice of mourning save the choirs—
The shrill, demented choirs of wailing shells,
And bugles calling for them from sad shires.

What candles may be held to speed them all?
Not in the hands of boys, but in their eyes
Shall shine the holy glimmers of goodbyes;
The pallor of girls' brows shall be their pall;
Their flowers the tenderness of patient minds,
And each slow dusk a drawing-down of blinds.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Votos de Feliz Natal, para quem por aqui passe



per chi beve di notte
e di notte muore e di notte legge
e cade sul suo ultimo metro,
per gli amici che vanno e ritornano indietro
e hanno perduto l'anima e le ali.

Per chi vive all'incrocio dei venti
ed è bruciato vivo,
per le persone facili che non hanno dubbi mai,
per la nostra corona di stelle e di spine,
per la nostra paura del buio e della fantasia.

Autobiografia de Deus, segundoJosé Tolentino Mendonça


"Somos a autobiografia de Deus"

Quando despontarem as primeiras luzes do Seu cortejo
ainda nos faltará tudo:
o azeite na almotolia,
um alfabeto que descreva com outra firmeza o azul,
formas indivisíveis para este amor,
que só em fragmentos
e numa gramática imprecisa
conseguimos viver.

Quando despontarem as primeiras luzes
estaremos talvez longe:
à altura dos olhos continuaremos a trazer a mesma indisfarçável solidão
as mesmas mediações ilegíveis através do tempo
as mesmas demoras tatuadas.

O Seu advento encontra-nos sempre impreparados
e, contudo, este é o momento em que
por puro dom se nasce.

A Sua vinda testemunha o que não sabíamos ainda:
a nossa frágil humanidade é narração
da autobiografia de Deus.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Quando pensamos que já pouca coisa nos pode perturbar


algo de profundamente inesperado surge.
A Farsa da Rua W, de Enda Walsh, demonstrou-me exactamente isso! Naquela violência e naquele humor, naquela ternura e naquela intensa dor, é, afinal, a comédia humana que se revela.
Creio que só um irlandês poderia ter escrito um texto assim!
Com as devidas distâncias, algo me fez lembrar The Playboy of the Western World e também, claro, Beckett.
Muito, muito longe dos clichés pós-modernos.
Acima de tudo, intensamente inesperado, portanto.
A não perder!
Artistas Unidos.
Na Rua da Escola Politécnica.
Ainda e sempre a inteligência estética de Jorge de SIlva Melo.
Afinal, contra os rumores, ainda há teatro por aí... e público!
Pouco me interessa que venha de outras margens...
Bom fim de semana!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Fotografia e literatura


A propósito da exposição do fotógrafo canadiano Jeff Wall, que está em exibição em Santiago de Compostela, reproduzo a parte da entrevista concedida ao jornal Público onde o artista aborda a relação entre literatura e fotografia.
Curiosamente (por acaso?) esta entrevista surgiu no mesmo dia em que alguns de nós debatíamos estas questões. Reparem no Benjamin...

Pergunta - Esta exposição é percorrida por referências à literatura, sobretudo aquela que emerge na transição do século XIX para o século XX. Qual a razão desta preferência?

Resposta - Não tenho a certeza que a prefira; talvez seja devida às circunstâncias desta exposição. Um bom exemplo é a presença de "Nadja", de André Breton. Não sou grande seguidor de Breton; respeito-o, mas não é um autor do qual me sinta muito próximo. Contudo, "Nadja" foi muito importante para mim, devido à forma como combina uma narrativa poética, subjectiva, com a fotografia. Quando descobri o livro pela primeira vez, nos anos de 1960, ele teve um forte impacto: sente-se que as fotografias de ruas e de edifícios banais de Paris realizadas por [Jacques-André] Boiffard, estavam intimamente ligadas a essa narrativa literária, poética, fantástica.

Pergunta - "Amour Fou" é um outro livro de Breton no qual surge esse diálogo entre texto e imagens...

Resposta - O grupo surrealista manteve uma relação interessante com a fotografia: muito conhecedora, sofisticada e livre. Geralmente tenho muito apreço pela forma como esse grupo de escritores se relacionou com a fotografia. Não são, porém, os únicos pelos quais me interesso, embora goste muito das suas obras. Gosto muito de literatura, leio muito e, em criança, gostava de ler romances, poesia... Ainda gosto de me envolver, enquanto leitor, com a literatura, porque é, em si, uma experiência estética... e pode fazer-se no sofá, não se tem de sair de casa; é muito conveniente. Adoro sentar-me ao fim da tarde, relaxar-me e ler um romance. Sempre o fiz e sei que influenciou a minha sensibilidade, a minha personalidade.

Pergunta - Numa das vitrinas da exposição apresenta "Documents", uma "revista ilustrada" editada entre 1929 e 1931, que marca uma ruptura com o surrealismo e na qual também é evidente a relação entre a palavra e a imagem fotográfica...

Resposta - Esse momento, no século XX, fui uma das mais criativas, originais e sugestivas instâncias de gente sofisticada a olhar para a fotografia de forma inovadora. Podia facilmente ter colocado uma centena de outros livros na exposição, todos eles relacionados com uma experiência significativa para mim, mas não teriam directamente a ver com fotografia. Tive de escolher cuidadosamente algumas coisas às quais poderia dar um estatuto exemplar desse vínculo entre literatura e fotografia. As três novelas que se vê numa outra vitrina [livros de Ralph Ellison, Franz Kafka e Yukio Mishima], todas relacionadas com as minhas fotografias ["pictures", palavra que pode ser também traduzida por quadros], produzem outro tipo de relações: o meu envolvimento com essas novelas foi puramente acidental; nunca tive um plano para fazer uma fotografia. Estava simplesmente a ler, como faço habitualmente...

...

Pergunta - Essa noção de acidente recorda também uma outra, a de "acaso objectivo" ["hasard objectif"], central na construção de "Nadja", de Breton...

Resposta - Absolutamente. Gosto da forma como Breton se coloca num determinado estado em que permite que algo lhe aconteça. Não estava à procura, estava à espera, antecipou um acidente, mas não sabia aquilo que era e permitiu que a aventura ocorresse: é uma boa analogia para a minha própria forma de fazer as coisas.

Pergunta - O grupo associado à revista "Documents", entre os quais Georges Bataille e Carl Einstein, dava muita importância às "doutrinas, arqueologia, belas-artes e etnografia." O seu trabalho parece mais próximo de uma arqueologia do que de uma aproximação etnográfica às imagens. Na exposição está patente uma fotografia de Alfred Stieglitz, "Excavating, New York", 1911, que pode ser lida como uma bom exemplo daquilo que propõe em "The Crooked Path"...

Resposta - É uma boa interpretação, embora não me sinta próximo de nenhuma delas [nem de uma arqueologia, nem de uma etnografia]. As pessoas ligadas à "Documents" estavam sintonizadas com formas críticas de pensar acerca da cultura que estavam a inventar. [Na exposição], a revista "Documents" está aberta numa página que mostra uma povoação na British Columbia, o que é formidável: o facto de eles terem sido os primeiros a interessar-se pela arte e pela cultura daquela área. Existe, portanto, uma espécie de "Vancouver conexion" através do Museu do Homem e da "Documents": a forma alienada desse grupo olhar para as coisas era semelhante à nossa. Algures na entrevista publicada no catálogo digo, citando Walker Evans, que cada romance é, em certo sentido, um livro de fotografias - o seu livro, "American Photographs" [1938] é, de certa forma, o seu grande romance americano. Penso que ele sentiu isso intensamente. Os fotógrafos são poetas: os grandes são todos poetas. A maioria interessa-se por poesia. E sentem que existe alguma afinidade entre aquilo que fazem e aquilo que um poeta faz. Sou grande devoto de Baudelaire, por causa da forma como ele pegou na reportagem e a transformou em poesia. Os poetas franceses desse período até aos surrealistas, passando por Proust, fizeram algo de assinalável, único, e que alguém que esteja seriamente interessado em arte moderna tem de apreciar.

Pergunta - Podemos então ler as suas fotografias como poemas...

Resposta - Análogas à prosa poética, de uma forma simples. Sinto que Baudelaire, que escreveu os maiores poemas em prosa, teve a intenção de escrever uma reportagem e acabou com um poema. E penso que esse processo diz tudo acerca de como a fotografia se pode tornar artística. Começamos por nos decidir em informar acerca de alguma coisa, mas não ficamos por aí.

Pergunta - Walter Benjamin, que escreveu quer acerca da fotografia, quer sobre Baudelaire, aborda a questão da perda da aura...

Resposta - Para a minha geração, Benjamin foi uma figura central na formação da forma de pensar. Isso foi há trinta ou quarenta anos, quando se tornou uma figura tão excitante, em parte pela forma como escreveu, o seu estilo, e em parte por aquilo que se interessou. Ele estava sintonizado com muitas das coisas que temos falado... a sua amizade com Bataille. Movia-se nos mesmos círculos, embora fosse alemão. A ideia de que a tecnologia moderna iria dissolver a aura das obras de arte era fascinante, mas não era verdade. Não há perda de aura, só porque um trabalho é feito num novo media. Não interessa se ele estava certo ou errado.

Pergunta - A perda de aura chegou sobretudo através da reprodução de esculturas e pinturas através da imagem fotográfica... No seu trabalho, a aura parece emanar das próprias caixas de luz que revelam a fotografia...

resposta - E é isso que comecei a não gostar nas minhas caixas de luz. Uma das razões que me levou a fazer uma pausa nesse trabalho foi o facto de elas terem demasiada dessa luminosidade aurática. Não são suficientemente resistentes.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Uma retórica do consenso?


Este foi o título de um texto meu que saiu na passada quarta-feira no Diário de Notícias.
Aqui fica:

"Alguns aspectos formais fazem com que as eleições americanas sejam motivo de alguma perplexidade para nós, portugueses, habituados que estamos a processos particularmente lineares a este nível. Essa singularidade passa, desde logo, por um sistema eleitoral que os fundadores setecentistas consideraram dever combinar vários equilíbrios processuais que vão de metodologias indirectas a outras de democracia directa, com muitas subtilezas de permeio.
No entanto, mais do que esse “estranho” sistema, estou certo de que aquilo que, para nós, constitui maior motivo de perplexidade, ainda que não facilmente identificada, será, exactamente, a importância que assumem determinados traços indentitários em todo esse processo.
Veja-se, por exemplo, esse ritual nuclear na vida dos americanos – não só dos indivíduos mas também do colectivo, da nação – que é o Dia de Acção de Graças.
Contrariamente ao que transcrevia uma tradução - errada - do discurso do Presidente Obama num canal televisivo português, os americanos não “valorizam” esse dia. Com efeito, o que o Presidente disse foi que eles “davam graças”. De facto, o dia de Acção de Graças remonta aos primórdios coloniais, quando, após a ajuda determinante dos nativos, os membros de uma comunidade da Nova Inglaterra, deram graças a Deus, assinalando um ano de sobrevivência naquele espaço hostil.
Esta é, portanto, desde a sua origem, há precisamente quatro séculos, uma cerimónia em que esse núcleo fundamental da sociedade que é a família, se reúne para dar graças por aquilo que lhe foi concedido ao longo do ano. Indivíduo, família e comunidade interagem num ritual que, sendo obviamente secular, possui uma dimensão religiosa.
Devido a esse traço transversal do Dia de Acção de Graças na sociedade americana, os discursos políticos então proferidos são relevantes para percepcionar sintomas, não tanto de agendas partidárias concretas, mas da forma como essas sensibilidades interpretam as expectativas de um povo no âmbito de uma identidade comum.
Um pensador desta realidade, Sacvan Bercovitch, falou um dia de uma “retórica do consenso” que constituiria um solo partilhado pelos americanos, independentemente das suas sensibilidades políticas: a América como terra prometida; um povo eleito, predestinado; o espírito de missão – na defesa da democracia liberal, por exemplo; a responsabilidade individual; enfim, o sonho americano; ou seja, muitos dos traços que Max Weber, hoje contestado, identificou como a ética protestante e o espírito do capitalismo. Mas, acima de tudo, aquilo que Martin Luther King, na celebração de uma comunidade alargada, sintetizou no famoso discurso “Eu tenho um sonho.”
Democratas ou republicanos, mais ou menos radicais, partilham esse solo comum, o qual interpretam de acordo com ênfases específicas. Mais do que em ideologias, como as temos concebido na Europa, é na forma como essas ênfases se propõem agir sobre esse solo comum que se deve percepcionar o discurso político americano.
Por isso, não será de estranhar, por exemplo, que tanto o Presidente Obama como o Governador do Texas, Rick Perry – candidato a candidato republicano, tenham optado por discursos que dão relevo à acção de “normalização democrática” da América no mundo: o Presidente agradecendo às tropas americanas em missão noutros países, Perry recorrendo ao testemunho de um veterano do Afeganistão.
Há, obviamente, outros traços, mas creio que estes serão reveladores daquilo que poderá constituir um discurso político futuro, independentemente de quem seja a sua fonte; isto é, as ênfases serão distintas, o diálogo com as outras nações mais ou menos evidente, ou privilegiando eixos diferentes, mas persistirá sempre a forte crença de que a América deve ser esse “farol” da democracia e da liberdade. Afinal, “in God we trust.” "

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Os livros de Kurtz


Deixo-vos um excerto da minha intervenção, hoje, na mesa-redonda, na FLUL, sobre Coppola e Conrad, com os meus amigos Fernando Guerreiro e Mário Jorge Torres:

"A leitura que vos proponho é impulsionada por um brevíssimo fragmento, um brevíssimo plano, de Apocalypse Now. ...
Que fragmento é, então, este? Apenas à segunda ou à terceira vez que vi o filme, apercebi-me da existência de alguns livros sobre uma banqueta naquilo que, eufemisticamente, poderíamos chamar aposentos do coronel Kurtz/Marlon Brando; nos aposentos onde ele iria exclamar perto do fim: “The horror. The horror.” O plano era demasiado rápido, pelo que não consegui vislumbrar que livros eram esses. ...
São eles um estudo antropológico, The Golden Bough, de Sir James Frazer, um ensaio sobre a lenda da demanda do Santo do Graal, From Ritual to Romance, de Jessie Weston, e a Bíblia. Ora, como sabem todos os presentes que tenham estudado Literatura Inglesa, os dois primeiros livros são mencionados por Eliot como presença determinante no seu poema The Waste Land; quanto à Bíblia, a sua influência neste poema é por demais evidente.
A presença casual daqueles livros não pode, assim, ser entendida enquanto mero adorno estético ou mera coincidência, mas antes como constituindo um discurso subliminar, um diálogo subliminar, como referi, de profundidade de Coppola com Conrad, via Eliot. Com efeito, se, por um lado, Heart of Darkness fornece a tal estrutura narrativa e alguns contornos simbólicos a partir dos quais muito do filme de Coppola se estrutura, por outro, tanto a poesia de Eliot – e aqui The Waste Land, poema maior do século XX, é nuclear - como os textos que esta convoca, definem uma atmosfera determinante para o desenrolar da acção. Portanto, focalizamos um paradigma concreto da história; não o da sequência de eventos, mas sim o da atmosfera. ...

No entanto, para levar a cabo a sua empresa, Willard necessitará de conhecer a coerência daquele espaço arcaico, de utilizar as suas armas primitivas (a faca), de se adaptar ao ritual (as pinturas no rosto), de agir no momento certo: atente-se na consonância entre o assasssinato de Kurtz e o ritual da morte do animal. Comprova-se, então, quão relevante era o livro de Jessie Weston, From Ritual to Romance. Nesta continuidade antropológica, que é também um regresso, reside a chave para a solução, e não num qualquer discurso do poder político/militar/civilizacional que suscitou a viagem de Willard. Aquela que seria, à partida, uma viagem funcional, dá lugar a uma viagem iniciática ao encontro dos fantasmas que Freud abordou no seu livro antes mencionado e que Eliot diagnosticou como sintoma de um declínio. Enfim, o enviado da ordem, do discurso civilizacional, necessita de descer às origens do mito. Comprova-se assim ser relevante a presença do livro de Sir James Frazer, The Golden Bough, entre as escolhas de Kurtz. Só depois Willard se retira, transportando consigo os livros, os papéis escritos por Kurtz, a assinatura do seu saber. Neste momento evidencia-se a centralidade da escrita em Apocalypse Now: afinal Kurtz persistirá através da palavra, da sua palavra. Por isso, ao matá-lo, Willard eleva-se , torna-se um homem superior e conhecedor da alteridade. Assim se justifica que, no regresso, ouvimos o seu monólogo interior, a sua voz: “Eles não o sabiam , mas eu já não era um deles …” A atmosfera ritualística e a simbiose da natureza com o homem, experienciadas no templo que a selva é, transformaram Willard. Como ele dissera, no início, quando começara a contar a sua história, após aquela experiência deixara de ser o mesmo. E isso devia-se tanto ao facto de ter conhecido Kurtz, como à viagem que realizara. Idêntica razão é apresentada por Marlow, o narrador de Heart of Darkness, no qual Coppola se inspirou para desenvolver Willard.
Assim, a par da viagem pelo rio - metáfora também de uma viagem ao encontro do inconsciente, dos seus fantasmas (algo que tanto transforma quem a guerra viveu), emerge a viagem através da palavra: o relatório sobre Kurtz, a escrita de Kurtz, a sua própria grafia, o graffitti que saúda Willard ao alcançar o espaço de Kurtz, os livros sobre a mesa, e a leitura do poema.
Um derradeiro aspecto: a leitura, a voz. Ambas participam desse passado mítico que percorre a narrativa. Ainda no início da viagem, Willard ouve um registo, uma gravação da voz de Kurtz e fica impressionado com ela. Ao chegar ao fim da viagem, o fotógrafo relembra-lhe o poder sedutor da voz de Kurtz. Quando este lê “The Hollow Men”, Willard comprova esse poder e essa síntese entre o texto, a escrita e a sua dimensão performativa e física, a leitura e a voz. Algo de fisicamente essencial, actuando para além do texto, define esta identidade poderosa. É ainda a interacção profunda entre significante e significado que, com Kurtz, emerge num processo de síntese radical.
Expressões éticas e estéticas, também, coexistem afinal no subtexto de Apocalypse Now.
Em tempos de ritmos estéticos frenéticos, pretendi apenas chamar a vossa atenção para a importância que podem ter os pequenos detalhes, os mais banais planos ou fragmentos, e também para a subtileza hermenêutica que pode estar presente nesses diálogos subliminares entre diferentes formas de expressão artística."

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Atmosferas



"Mildred Pierce a été filmé en super 16 et transféré. Nous voulions sentir le grain, avoir un feeling des années 70, trouver le lokk rétro d'un film des années 30-40 vu depuis les années 70. Todd [Haynes, o realizador] se référait au livre plutôt qu'au film de Michael Curtiz qui contenait meurtre et flash-back. Il est reparti de la source, du combat de la mère et de la fille, et du combat de classes. Il ne voulait pas d'une esthétique du film noir avec des ombres, mais retrouver la manière dont les films des années 70 comme Klute, Jour du fléau ou Chinatown ont regardé les films noirs. Pour cela le super 16 s'imposait...
Mildred Pierce se passe durant la Dépression. Todd voulait retrouver l'époque de la Farm Security Administration, créée par Roosevelt, l'époque où les films en couleurs commençaient.
Les couleurs étaient saturées et créaient un monde abstrait. Cette fois nou voulions un regard plus naturaliste sur le monde."
Depoimento de Ed Lachman, Cahiers du Cinéma (Novembro 2011)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Apocalypse Now


será objecto de reflexão numa mesa-redonda, pelas 12h, do próximo dia 23. Será no Anfiteatro II da Faculdade de Letras de Lisboa. Os interveniente serão Fernando Guerreiro, que irá abordar a presença da mulher no filme, Mário Jorge Torres, que falará da viagem pelo rio como viagem pela História do cinema, e yours truly que irá falar dos livros de Kurtz.
Aqui fica a notícia e o convite!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Interdisciplinaridade e comparatismo


vulgarizaram-se num léxico de banalidades que qualquer gato-sapato convoca e, com a candura dos simples, crê praticar.
Estas palavras evocam, todavia, campos particularmente complexos, no seio dos quais têm surgido reflexões muito estimulantes.
Uma delas, imprescindível, a meu ver, é a de Marc Bayard, espelhada em Histoire de l'art et le comparatisme - Les horizons du détour; um livro que recomendo a quem pretenda ir mais longe nestes estudos, e que consiga ler em francês, claro...
Do capítulo sobre Mantegna, deixo estas palavras iniciais:

"... nous étudierons la manière de peindre les nuages, la terre, l'eau - trois des quatre éléments - en Flandre et en Italie du Nord au XVe siècle, dans un premier temps. Dans un second temps, nous examinerons le traitement de ces motifs au sein de l'Italie du Nord, à Padoue et à Mantoue d'une part, à Venise de l'autre.
Les remarques et les réflexions que l'on va lire ont pour pivot une personnalité: Mantegna. On confrontera l'art de Mantegna à celui des Van Eyck et à l'école flamande en général, d'un côté. On le comparera à Giovanni Bellini ainsi qu'à d'autres Vénitiens de la fin du XVe siècle et au commencement du XVIe siècle, de l'autre.
...
Ainsi se répand en Italie un type de peintures, le paysage alla fiamangha. Des artistes italiens s'inspirent de ces paysages, tout en conservant une tonalité spécifiquement italienne. Ainsi, Piero della Francesca peint dans Le Diptyque d'Urbino un vaste territoire vu depuis une hauteur ... et il multiplie les reflets sur le calme miroir de l'eau comme dans le Baptême du Christ..." (pp. 93 e 95)

Boas leituras!

Relação da Igreja com a cultura


deve ser criada na «tensão entre discursos que divergem de uma concepção cristã da vida»

Resposta minha à pergunta: O que é mais importante (criar, manter, repensar) na relação da Igreja com a Cultura?

Esta resposta foi inserida no site da Pastoral da Cultura, juntamente com muitos outros depoimentos.

Ei-la:

'Na sociedade em que vivemos é ainda pertinente e rigoroso o diagnóstico feito em 1939 por T. S. Eliot, segundo o qual “muito da vida moderna é meramente uma sanção de objectivos não cristãos” (A ideia de uma sociedade cristã). No entanto, não é menos pertinente e rigoroso o diagnóstico de Chesterton: “no mundo moderno em que vivemos, com os seus movimentos modernos, continua presente o legado católico” (É o humanismo uma religião?).

Será perante esta tensão entre discursos que divergem de (ou confrontam mesmo) uma concepção cristã da vida, e uma matriz que, sendo relevantemente cristã nos seus fundamentos, parece diluir-se nas nossas práticas quotidianas, que a Igreja deve criar, manter e repensar a sua relação com a Cultura.

Na coabitação destas três sugestões de percurso - criar, manter e repensar, reside a resposta que o presente exige à Igreja no seu todo.

A realidade decorrente do facto de o discurso católico ter deixado de ser dominante, deve ser entendida como oportunidade para nos repensarmos enquanto alteridade(s), e para assim partir ao encontro de outros outros.

Como referiu Bento XVI no encontro com o mundo da cultura no CCB, “há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade”.

Na humildade que esta postura de nós exige, deverá ainda compreender-se aquilo que ela significa de abertura para o reconhecimento de novas formas de expressão estéticas e da espiritualidade que elas porventura encerram. Penso, por exemplo, naquela que, à partida, pode parecer ser a estranha dimensão espiritual de meros espaços monocromáticos da pintura de Mark Rothko. Porque, contra os divulgados hedonismo e cepticismo, urge não abdicar da busca do Belo e da Verdade.

E dessa busca participa o inevitável exercício da razão, como demonstra D. Manuel Clemente em 1810-1910-2010. Datas e Desafios.

Por fim, exige-se de cada católico que “não tenha vergonha” de intervir na cidade, que não receie a polémica, e que não abdique de dar voz a uma postura ética, que é também estética, de estar no mundo; uma forma ética que foi determinante na construção da matriz cultural que é a nossa - algo que importa não deixar de recordar, analisar e compreender.

Mas isso compete, também, a cada um de nós.'

Bom fim de semana!

Poemas com cinema



é o título de uma antologia da qual dei notícia neste espaço aquando da sua edição.
Dela retirei este poema sobre Ingmar Bergman, da autoria de Luís Quintais.
Escolhi-o devido a conversas recentes sobre a atmosfera no cinema, e sua dimensão ontológica.
Ei-lo:

"Virás trazer-me a luz ou a derrota?
Dobras-te sobre a tua velhice, isto é, dobras o tempo
e persegues o temível desígnio
que te espera em diante.

Verifico hoje o vazio,
a caixa intransparente
que se tomou o corpo e a memória
calma e docemente."

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Herba Santa"


era o título do terceiro poema. Nada de equívocos! Melville utilizou esta expressão para designar o tabaco.
Esta poema revisita o meu "ano de todos os perigos", 1985.
Ei-lo:

"Associo melodias às estações,
a instantes mais ou
menos vagos ne memória. O
Verão de oitenta e cinco, por exemplo.

Regressara nesse tempo da pátria
dos heróis. Os dias fluíam entre
a viagem de um amor vindo
de longe e um almoço fora de horas
num qualquer snack em Lisboa, cracking.

Com liberdade, livros, flores e
a lua, quem não pode ser feliz?

Sim, havia ainda os livros e
a música, o frágil encanto de
Suzanne Vega."

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

"O conflito de convicções"


era o título do segundo poema de Cidades de Refúgio. Uma nota apenas, todos os títulos dos poemas deste livro foram colhidos em instantes da obra de um velho amigo, Herman Melville.
Eis o poema, substancialmente mais pequeno do que o anterior:

"Talvez não sinta o derradeiro Juízo;
talvez tenha perdido o sentido dos mitos;
e deus se revele apenas no luar,
como um dia alguém nos lembrou."

Um dia, já há muito, em finais dos anos 80, ainda antes de este poema ter sido escrito, eu e a Ana Paula cruzámo-nos num café com uma amiga que morreu recentemente, a Guida Horta. Quando lhe dissemos que o nosso filho, nascido em 87, se chamava Raúl, ela exclamou: "Raúl? Luar!" Uma narrativa tão longa para tão poucos versos...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Porque este livro está há muito esgotado



deixo hoje aqui o poema que o abria. O livro tem por título Cidades de Refúgio, e foi publicado em 1991. Na capa está uma reprodução de Baptism in Kansas, um quadro de John Stewart Curry. A sua escolha foi do Fernando Guerreiro. Na abertura do livro havia duas epígrafes: uma era, apenas, Nostalgia, Andrei Tarkovski [os meus alunos da altura recordarão esta idiossincrasia], outro era este excerto de Os pescadores, de Raúl Brandão: "Tocam o sino para a novena. Ouço um momento os passos dos vivos e dos mortos... Em todas as aldeias que conheço..., o que idealiza o monte bruto e espesso, a vida rude e o sítio agreste, é sempre a igreja, a torre e a cruz."
Quanto ao poema, este tem por título "Miragens".


I fall, more and more,
Into my own silences.

Theodore Roethke

Os sessenta iam ainda
no início, sem memória
de guerras, revoluções
ou de fluxos migratórios.
A terra aguardava em
silêncio a chegada
das betoneiras, dos patos
bravos. Outras migrações...
Um dia de manhã,
em Maio, saímos a
explorar lugares ocultos,
pequenas grutas e antas,
mais tardes ameaçadas
pelas aves de arribação.
Os tais patos... bravos, claro.
Olhámos o vale. O
meu pai segurava-me a
mão. À nossa frente o
sítio onde se ergueria,
dez anos depois, a casa.
Casa feita, pêga morte.
Um ditado apenas e
para mim um medo a pairar,
dia após dia, como
se alguma oculta verdade
ali se insinuasse.
Como se o povo tivesse
razão. Enfim, zombarias
do destino. Ou do acaso?
Lá para o fim da manhã,
descobri junto à anta
um minúsculo esqueleto
de plástico. Curiosa
ironia vinda de outras
brincadeiras, porventura
mais inocentes, das crianças
dos bairros de lata. O
esqueleto ainda o vi,
há alguns meses, no sótão,
entre molduras partidas,
velhas cartas sem destino
ou memória, e as
sempre inevitáveis teias
de aranha. Um pequeno
sinal como outros, uma
pedra um nome um sinal só
desses dias; um vestígio
da rua das oliveiras,
no tempo em que somente
elas e o casal de
velhos loucos ali viviam.

Sharp distance,


how can the wind with its arms all around me?
Sharp distance, how can the wind with so many around me?
I feel lost in the city!
Lost in their eyes as you hurry by.
Counting the broken ties they decide
Dream on, on to the heart of the sunrise.
Lost on the way you're dreaming.
Dream on to the heart of the sunrise.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

John Martin exposto em Londres



fez-me recordar uma referência de passagem num texto de João Miguel Fernandes Jorge que li há muitos anos. Mencionei Martin, um artista algo desconhecido entre nós, frequentemente ligado a Turner. Referi-o a propósito da tradução de Paradise Lost, num ensaio que escrevi para a Revista Babilónia há algum tempo.
Deixo-vos o início desse ensaio, com os votos de uma boa semana:

Em tempos de reiterada balcanização ou mesmo rasura de um discurso religioso cristão, perguntar-se-á que espaço persiste para um longo poema (10564 versos) dedicado à narração dos momentos iniciais do Génesis, a criação de Adão e Eva, a sua expulsão do Éden, en passant pela transformação do anjo caído, Lúcifer, em Satanás, e da sua acção bem sucedida junto do par primordial? Acresce o desconhecimento generalizado quer do discurso e da ética protestantes, e puritanos, em particular, quer dos debates teológicos que constituem o cenário histórico no qual o poema se inscreve e do qual participa: diferentemente de Dante, em Milton o solo teológico é instável e ecoa nos temas contemporâeos em debate.

Johnson dizia que se lia Paradise Lost como “dever”. Ora, apesar das diferenças históricas, talvez esse “dever pedagógico” possa hoje ser encontrado naquilo que essa leitura permite em termos de reactivação de um determinado tipo de reflexão (teológica, cultural, textual), de preenchimento de lacunas, relevantes para o entendimento do mundo actual (pense-se no exemplo americano), da descoberta de uma das figuras mais polémicas da poesia inglesa, do desvendar de um diálogo estético entre poema e artes visuais.

Comecemos por este último aspecto. Quem em 2006 visitou o Museo de Bellas Artes de Bilbao pôde contemplar uma impressionante exposição de gravuras do romântico inglês John Martin (1789-1854). Célebre pelas suas obras de cariz clássico e bíblico, seria, porém, através das gravuras (1824-5) para uma edição de Paradise Lost que Martin afirmaria a sua singularidade na cena artística inglesa das primeiras décadas do século XIX, sobrepondo-se até a Turner, e disputando com Blake a primazia na representação de Milton. Em detrimento de uma focalização explícita das personagens de Paraíso Perdido e dos eventuais conflitos interiores por elas vividos, Martin optou por realizar uma leitura dramática dos espaços miltonianos nos quais investiu um sublime romântico. A intensidade dramática dos planos panorâmicos, confinados ao reduzido espaço da gravura, foi por ele acentuada através da exploração monocromática; aí se indicia o dualismo nuclear de Paradise Lost (veja-se o contraste visual entre luz e obscuridade: “Pandemonium” vs “Rios da bem-aventurança”).

De tal modo a opção estética de Martin foi bem sucedida, que a percepção visual desse mesmo sublime ficaria, desde então, ligada a esta sua obra, determinando figurações ulteriores, como as de Thomas Lupton, Francis Danby e William West. O sublime é representado de uma forma mais intensa em “Satanás observa a ascensão aos Céus” através das linhas que diagonalmente afirmam dois espaços e um percurso de luz. Apesar desse excesso de espaço, também na contemplação, na postura, na expressão do rosto, na intensidade de luz com que o corpo de Satanás é revelado, se indicia uma solidão, uma absorção, uma intimidade, uma tensão interior, que de algum modo enviam para o confessionalismo do famoso solilóquio dos versos 32 a 113 do Livro IV.


Não se pense, porém que a dimensão visual de Paradise Lost foi uma descoberta de Martin; veja-se, por exemplo, a sua reiterada inserção no âmbito de uma estética barroca (posteriormente confirmada pela convocação de Milton por parte de Eisenstein). De acordo com a leitura disfórica de Camille Paglia (Sexual Personae), Milton não se liberta nem de Spenser nem dos constrangimentos da sensibilidade barroca; o que a conduz à sua asserção radical de que Paradise Lost é “um Laocoön barroco”.

Segundo Wylie Sypher (Four Stages of Renaissance Style), Paradise Lost constitui uma expressão literária superior desta estética que só encontraria análogo na arquitectura de Bernini. Com efeito, os cenários do épico miltoniano participam ostensivamente do discurso barroco. No seu seio inscrevem-se as figuras recorrentemente colocadas em acção e eventual oposição: o conflito entre Satanás e Cristo no Céu; o diálogo entre Rafael e Adão no Jardim do Paraíso; o passeio de Adão e Eva; o encontro de Satanás com o Arcanjo ; o exílio de Adão e Eva. No plano estritamente visual constata-se que estas figuras podem, ainda, ser reveladas numa escala aumentada no seio de uma multidão, como Satanás no Concílio onde pre-domina sobre os outros seres infernais (citei, acima, a figuração do “Pandemonium”), ou quando confronta o Pecado e a Morte: a massa surge em tensão e equilíbrio perante a massa. Recorde-se a concepção visionária suprema do Inferno em “A ponte sobre o Caos”, de Martin, que, na sua génese, ecoa os versos de Coleridge em Kubla Khan; neste caso acentua-se uma tensão entre a densidade material e o carácter etéreo do espaço. Destaca-se, porém, a exuberância sensorial na convocação dos corpos (Adão e Eva) e do espaço (IV. 689-743); à semelhança da personagem por si delineada - Adão, Milton cede perante a intensidade da imagem física de Eva.

Afinal, o barroco parece ensaiar o alcance do espírito através dos sentidos. Trata-se de um irónico paradoxo, já que a ética de moderação puritana, subscrita por Milton, era aversa à veneração de imagens (numa resposta ao concílio de Trento). Contudo, em Paradise Lost venera-se a mulher e o homem na sua condição humana; venera-se o corpo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Os Yes, Clara Rowland e Guilherme d'Oliveira Martins





O que têm todos eles em comum?
Nada, à partida!
Et pourtant...
Quando, aos dezassete anos, esguio como os cavalheiros em anexo (C. Squire, Jon Anderson e Steve Howe), e com cabelos de idêntica extensão [embora os meus fossem mais volumosos!], comprei e ouvi Tales from Topographic Oceans, dos Yes, despertei para os misticismos orientais e li tudo o que descobri na biblioteca paterna sobre o assunto.
Já nessa altura estas coisas do transcendente eram estruturantes para mim, embora os caminhos fossem perfeitamente acidentais.
Mas foi assim, graças a este álbum, que descobri muitos textos e autores [que redescobri George Harrison], e que, chegado à Faculdade, de imediato compreendi a geração beat, por exemplo.
Ora, ainda há umas semanas, numa óptima conferência feita no âmbito do ciclo sobre o ensino das Humanidades, promovido pelo Clube Unesco e pelo Centro Nacional de Cultura, Clara Rowland [jovem e brilhante professora da Faculdade de Letras de Lisboa], contra um certo discurso céptico, quiçá dominante, abordou a imensa riqueza que os jovens trazem consigo hoje para as universidades, embora, nem sempre (eufemismo!), os professores se apercebam disso.
Como ela muito bem referiu, basta saber pegar nesses saberes "desestruturados" para lhes abrir novos horizontes.
Ou seja, para que eles, como eu há 35 anos, descubram algo de mais fascinante; algo que lhes desvende novos percursos, novos olhares, novas percepções do real, de si próprios.
Enfim, esse ciclo (que eu iniciei há uns meses com uma palestra intitulada "o escritor no atelier do artista") chega hoje ao fim, com duas conferências: uma de Luis Filipe Barreto e outra de Guilherme d'Oliveira Martins.
Fica assim esclarecido o mistério do que têm em comum os Yes, a Clara Rowland e o Guilherme d'Oliveira Martins.
É no CNC, no Chiado, às 18.30h.
Até mais logo!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Um bom amigo!


Morreu há alguns anos com um linfoma. Era o Mikey! Um Retriever do Labrador. Quando veio para nossa casa, com alguns meses, fixou-se em mim, e pronto! Super meigo e super medroso! Fazíamos três passeios diários à rua. Foi assim durante sete anos! Depois veio a quimioterapia, algumas melhoras e a morte repentina, e dolorosa! Para todos!
Gosto desta fotografia... Faz-me lembrar o olhar dele. Era de uma entrega absoluta! Andava sempre colado a mim. Eu sentava-me a trabalhar e ele deitava-se ao meu lado. Eu levantava-me, dava dois passos para ir buscar um livro, e ele levantava-se e percorria esse metro e meio comigo. Depois voltava, voltávamos ao ponto de partida.
Há quem diga que os cães e os donos se assemelham fisicamente.
Gosto de pensar que, no nosso caso, também era verdade.
Continuação de boa semana!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Estive ontem na maior concentração de carecas,





grisalhos, falsas loiras, falsas ruivas, falsas morenas, que Lisboa assistiu nos últimos tempos. E foi bom, para além do mais, para constatar quão afortunada foi a minha geração por ter crescido ao som de artistas como estes. Sim, claro, estou a falar dos Yes!
Para espanto meu, também eles estão mais velhos.
Porque será?
E carecas...
E grisalhos...
Mas continuam a tocar como noutros tempos! Nos tempos do vinil....
Já não está lá o Rick Wakeman nem o Jon Anderson...
Mas o jovem Benoit David [nasceu em 1966, imaginem!] tem uma voz lindíssima que nos evoca o Mestre!
E o Geoffrey Downes [um rapaz mais próximo de nós em termos de idades - nasceu em 1952] soube aprender com o Wakeman...
Lucky us!
Que para além destes fulanos, crescemos a ouvir os Beatles, os Rolling Stones, os Led Zeppelin, os Deep Purple, os Creedence Clearwater Revival, os Procol Harum, os Pink Floyd, os The Byrds, os The Doors, Black Sabbath, os King Crimson, o Dylan, a Baez, o Bowie, o George Harrison, os... meu Deus, tantos e tão bons que eles eram!
Mas há esperança!
Ao meu lado estava uma adolescente que pulou o tempo todo e cantou de cor Yours is no disgrace!
Que rica noite a deste cinquentão grisalho!
Não sei porquê, mas quando o concerto estava para começar, veio-me à mente a voz do António Sérgio a proclamar "Long Live the Doors!", no Rock Rendez-Vous aquando de uma noite de homenagem a estes amigos...
E se agora "nous sommes du soleil" não é muito adequado, pelo menos... fica a alegria de termos sido!
Bom fim de semana!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

É disto mesmo que falamos, ao dizer “educação”.


É disto mesmo que falamos, ao dizer “educação”. Como a cultura, também ela é dinâmica e activadora, em relação a si próprio e – no caso familiar e escolar – muito especialmente em relação aos outros, por isso mesmo educandos.

A palavra significa também “extracção” (e-ducere), para extrair dos outros o melhor deles mesmos, que só assim realizam as potencialidades que detêm, em benefício próprio e alheio. Não exagerando as coisas, lembro um antigo professor de filosofia, que dizia não sobrepor, antes extrair dos alunos o que já lá tinham; como os escultores que entrevêem na pedra a imagem que pretendem, “limitando-se” depois a tirar com o escopro o que sobeja da ideia…

Será isto o essencial, pois insiste no aspecto personalista da educação. Mas inclui necessariamente todo o conteúdo teórico e prático entretanto conseguido e absorvido, área por área. Bom educador será quem “extraia” do educando tudo o que ele possa realmente dar; mas só o fará se transmitir todo o conhecimento que lhe desperte a capacidade de aderir, aprofundar e criar por sua vez. É neste sentido que a erudição enriquece a cultura e o bom educador surpreenderá os educandos - e ainda mais se surpreenderá com eles.


Passo da intervenção de D. Manuel Clemente no Congresso do Ensino Superior

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Deserto Branco


no Vimeo!
Os clássicos "Relógio Biológico" e "A Festa Vai Começar", juntamente com o mais recente "Rei do pa-pa-pa".

E se naquele tempo já houvesse o êduquês?



Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado
sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem.

Ele preparava-os para serem os educadores capazes de transmitir a Boa Nova a todos os homens.

Tomando a palavra, disse-lhes:
- Em verdade, em verdade vos digo:

- Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
- Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
- Felizes os misericordiosos, porque eles...?

Pedro interrompeu-o:
- Mestre, vamos ter que saber isso de cor?

André perguntou:
- É para copiar?

Filipe lamentou-se:
- Esqueci-me do meu papiro!

Bartolomeu quis saber:
- Vai sair no teste?

João levantou a mão:
- Posso ir à casa de banho?

Judas Iscariotes resmungou:
- O que é que a gente vai ganhar com isso?

Judas Tadeu defendeu-se:
- Foi o outro Judas que perguntou!

Tomé questionou:
- Tem uma fórmula para provar que isso está certo?

Tiago Maior indagou:
- Vai contar para a nota?

Tiago Menor reclamou:
- Não ouvi nada com esse grandalhão à minha frente!

Simão Zelote gritou, nervoso:
- Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?

Mateus queixou-se:
- Eu não percebi nada, ninguém percebeu nada!

Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:
- Isso que está a fazer é uma aula?
- Onde está a sua planificação e a avaliação diagnóstica?
- Quais são os objectivos gerais e específicos?
- Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?

Caifás emendou:
- Fez uma planificação que inclua os temas transversais e as actividades integradoras com outras disciplinas?
- E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais?
- Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?

Pilatos, sentado lá no fundo, disse a Jesus:
- Quero ver as avaliações da primeira, segunda e terceira etapas e reservo-me o direito de, no final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade.
- Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projecto.
- E veja lá se não vai reprovar alguém!

E foi nesse momento que Jesus disse: "Senhor, por que me abandonaste..."

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"Dan Brown for dummies"


Foi este o comentário do meu filho Mário quando lhe resumi um dos momentos mais hilariantes de O Último Segredo, de José Rodrigues dos Santos. Qual reactualização de Parque Jurássico, agora é Ele que está prestes a ser clonado!
Deixo-vos as primeiras linhas do texto que escrevi para a Pastoral da Cultura e que poderão ler na íntegra nesse site, caso estejam interessados:

"Quando há cerca de trinta anos comecei a trabalhar na Faculdade de Letras de Lisboa, leccionei uma cadeira designada Introdução aos Estudos Literários. Era, então, consensual no meu Departamento (Estudos Anglo-Americanos), que nesta cadeira deveríamos proporcionar a descoberta dos diferentes géneros literários através de um diálogo com a História. Nesse sentido, começávamos com a leitura de textos fundadores e formadores da nossa matriz cultural, de Odisseia a Édipo Rei, de As Nuvens a O Rei Lear, para depois desvendarmos textos cronologicamente mais próximo de nós, como Mensagem ou A Terra Devastada, ou os fascinantes ecos dos poetas provençais em Ezra Pound. Dois dos textos por nós estudados no início do ano letivo, quer pela sua dimensão literária quer pela sua relevância no âmbito de uma cultura assente no logos, eram o Génesis e o Evangelho Segundo João.

Recordo o impacto que em mim teve a análise rigorosa dessa dimensão literária feita em The Art of Biblical Narrative, um livro que descobri no já distante ano de 1985, e que naturalmente partilhei com os meus alunos. Foi com alegria que vi confirmada a importância deste ensaio quando, há alguns anos, li a tese de doutoramento do padre José Tolentino Mendonça.

Através destes e doutros textos, quem passava por aquelas aulas compreendia a complexidade e a heterogeneidade dos diálogos que se foram concebendo ao longo dos séculos nos nossos horizontes culturais, e que envolviam aspectos tão diversos como a concepção cósmica clássica grego-romana, o racionalismo cristão, os ecos neo-pitagóricos no Renascimento, as convocações neo-platónicas nos Romantismos, a alquimia, o gnosticismo e esoterismos vários revisitando instantes estéticos do século XIX como a arte pré-rafaelita, e tantos outros aspectos que dão corpo à nossa identidade presente.

Recordo, por isso, que, ao ler um dos primeiros sucessos de Dan Brown, não pude deixar de pensar que qualquer antigo aluno meu identificaria as banalidades e equívocos ali exibidas; exibidas, diga-se, com o deslumbramento natural típico de quem nunca se deteve para compreender a complexidade da sua memória cultural colectiva.

Afinal, as grandes obras da cultura ocidental revisitam e questionam esses momentos fundadores, não raro numa tentativa de melhor compreender o presente em que se inscrevem. Os exemplos seriam infindáveis, por isso recordo apenas um livro de cabeceira meu, Moby-Dick. Aqui, numa aparente caça à baleia, é toda uma tradição judaico-cristã que se convoca. Da nomeação das personagens – Acab, Ismael, Elias, Raquel – às vertentes narrativas e simbólicas, essa tradição invade o romance determinando o seu rumo e até a sua resolução. Recorde-se que nas páginas inicias do livro surgem passos do Génesis, Jó, Jonas, Salmos e Isaías, e que será com uma epígrafe colhida em Jó 1 – 15 que ele termina. Neste romance, o autor, Herman Melville, exibe uma busca estética e intelectual, sustentada por uma rara erudição e por uma profunda investigação. No entanto, é com algum sentido de humor que ele entende as suas citações iniciais da História da nossa cultura como meras incursões de um sub, sub-bibliotecário. Apesar da sua erudição, o romancista/investigador exibe uma consciência face aos limites dos seus próprios conhecimentos. "

Na íntegra, portanto, em: http://www.snpcultura.org/analise_ao_romance_o_ultimo_segredo_jose_rodrigues_santos.htm

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Eles estão de volta!



Não, não é a troika! São os Stone Roses, uma banda indie que surgiu em finais dos anos oitenta e que teve uma fugaz existência mas que nos deixou algumas pérolas como "I wanna be adored" e "I am the ressurrection and the light".
A um dos seus membros, John Squire, deve-se um cd, Marshall's House, integralmente ligado ao diálogo com a pintura de Edward Hopper. Há uns tempos surpreendi um dos meus filhos, a quem devo o constante upgrade nestes domínios, lançando-lhe para cima da cama este cd... E subi uns pontos na sua consideração, claro!
Os Stone Roses farão agora uma digressão.
Passarão por Portugal?
A ver vamos!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Estai atentos



a duas séries em exibição nos canais por cabo: uma delas, Treme, sobre New Orleans, na sequência do furacão; outra, Downton Abbey, sobre uma família inglesa aristocrática, confrontada com a emergência da classe-média, com os seus hábitos estranhos, como trabalhar, e com os conceitos não menos estranhos, bizarros, até, como o de "fim de semana". "O que é isso?" pergunta Maggie Smith, habituada que estava a que, como dizia o Morrisey, "everyday is like Sunday".
Quando estive em New Orleans há vinte e tal anos, uma residente mencionou-me uma máxima que poderá ser considerada uma versão americana da nossa o país é Lisboa, o resto é paisagem; seria ela: The US is New York, San Francisco and New Orleans; all the rest is Cleveland.
Para além do French Quarter, com a sua Bourbon Street (e o inevitável Preservation Hall, na série fechado a cadeado), não se podem esquecer os inevitáveis cemitérios (a minha geração lembrará, certamente, a cena psicadélica em Easy Rider) [referi-os aquando de uma entrevista para a DN Magazine após a catástrofe (curiosamente, o jornalista usou depois uma foto de um cemitério inundado para a capa da revista)].
Todas as tensões e mutações inerentes ao tempo da reconstrução recente, estão ali presentes.
Qualidade da HBO, a não perder!
Por seu turno, Downton Abbey surge na esteira da famosa Família Bellamy (graça portuguesa de Upstairs, Downstairs). É um cliché falar-se da qualidade das séries "históricas" britânicas. Cliché, et pourtant, verdade! E depois há a já mencionada inefável Maggie Smith que, do alto dos seus oitenta e tal anos, ainda nos assusta quando olha para a câmara (e me faz lembrar senhoras de "sangue azul" que conheci na juventude). As subtilezas dos dois microcosmos em confronto - "senhores" e "criadagem", e as tensões no seio de cada um desses microcosmos!
Embora não sendo da BBC (cliché!), aplica-se outro cliché: a não perder, também!
E por hoje basta de clichés!
Boas séries!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Onde estava eu? Seria eu?


Não, não são questões metafísicas do tipo "quem somos?", "para onde vamos?", "o que estamos a fazer aqui?". De facto, estas eram questões muito prosaicas, pois, embora o Sr. Google dissesse que era eu, eu não era capaz de identificar o sítio nem o lugar. Quanto ao tempo, o Sr. Google dizia ser o ano 2007. Entretanto, uma leitura mais atenta esclareceu-me: era de facto eu, na Rutgers University, New Jersey (USA), a falar sobre... a relação da poesia e da teorização de Jorge de Sena com as artes visuais.
Mistério esclarecido, aqui fica a foto!

De Musset


vai ser representada a peça "Não se brinca com o Amor". Quem a leva à cena são os Artistas Unidos, com encenação de Jorge Silva Melo. A estreia, em Lisboa (Rua da Escola Politécnica) é no próximo dia 19, creio.
Sobre esta ( a peça, claro) pode ler-se no site do grupo:

1834. Musset tem vinte e quatro anos. Depois de uma febre tifóide de origem nervosa, depois das peripécias da aventura amorosa com George Sand, regressado de Veneza, irá publicar, três obras fundamentais; duas peças de teatro: Não se brinca com o amor e Lorenzaccio; e A Confissão de um filho do século, provavelmente inspirada em Santo Agostinho, ou, quem sabe, em Rousseau. Três obras primordiais que marcam uma busca inquieta de si-mesmo e dos outros: o que se passa com as nossas paixões, com os nossos sentimentos, com o amor, com a liberdade, com a verdade e com a mentira? Como é que chegámos a este ponto? Paradoxalmente, é no momento em que Musset se volta mais para si mesmo, para tentar reencontrar-se, e no meio da desordem dolorosa dos seus pensamentos que descobre uma realidade mais vasta, como se o seu horizonte, a sua paisagem mental se alargasse. Há aí como que o culminar da sua obra e da sua vida. Certas tendências dos seus escritos anteriores cristalizam-se até estabelecerem como que um efeito de ressonância entre o autor e a sua obra. Como o tema do adeus, que aqui regressa como um leitmotiv, uma sensação de que o autor não consegue libertar-se e sobre a qual fará mil variações: adeus à vida passada, à adolescência, à mulher amada, adeus ao amor, a si-mesmo, adeus.

Espero não perder!

Até breve!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Wilfred Owen


foi um poeta inglês que, ainda jovem, perdeu a vida na I Guerra Mundial. A Wilfred Owen Association (France) está a organizar um evento junto à casa na vila de Ors onde Owen passou os últimos dias da sua vida, antes de ser morto no Canal de la Sambre a 4 de Novembro de 1918. A Associação reuniu várias traduções (entre as quais em japonês, mandarim e árabe) de um soneto seu, 'Anthem for Doomed Youth', que incluiu num panfleto que será distribuído gratuitamente durante esse evento.
A tradução para português foi feita por mim.
Ei-la, antecipando o evento:


"Hino para uma juventude condenada"

Que sinos tocam por estes que morrem como gado?
Apenas a raiva monstruosa das armas;
Apenas o soluçar rápido das espingardas
Acompanha as suas preces apressadas.
Não ouvem fingimentos; nem orações, nem sinos,
Nem vozes enlutadas, excepto os coros -
Os estridentes, dementes coros do pranto das balas,
E dos cornetins que os chamam em tristes condados.

Que velas se erguerão em seu louvor?
Não nas mãos de jovens, mas sim nos seus olhos
Cintilarão as piedosas luzes das despedidas;
A pálida tez das raparigas será a sua mortalha;
Suas flores, a ternura de resignadas memórias,
E cada lento crepúsculo, uma persiana que se fecha.

Na sequência de uma sábia sugestão, eis o texto original:


"Anthem for Doomed Youth"


What passing-bells for these who die as cattle?
Only the monstrous anger of the guns;
Only the stuttering rifles' rapid rattle
Can patter out their hasty orisons.
No mockeries now for them; no prayers nor bells,
Nor any voice of mourning save the choirs—
The shrill, demented choirs of wailing shells,
And bugles calling for them from sad shires.

What candles may be held to speed them all?
Not in the hands of boys, but in their eyes
Shall shine the holy glimmers of goodbyes;
The pallor of girls' brows shall be their pall;
Their flowers the tenderness of patient minds,
And each slow dusk a drawing-down of blinds.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ainda Tolentino


Dizia eu ontem que a energia de José Tolentino Mendonça exigiria apenas que o buscássemos noutro lugar.

Hoje já posso partilhar convosco um desses lugares.

Basta clicar em: htpp://pedraangular-livros.blogspot.com/

Boas leituras!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Deixa-me contar-te uma história


é o título da última crónica publicada por José Tolentino Mendonça publicada no Diário de Notícias da Madeira.

Porque a produtividade de Tolentino não cessa de nos impressionar, a tristeza deste percurso ter chegado ao fim é compensada por uma certeza, a de que teremos apenas de procurar as suas palavras noutro(s) lugar(es).

Eis a crónica, com os votos de boa semana:

Algumas histórias tornam-nos herdeiros de um lugar, outras de uma casa, outras de uma razão pela qual viver. Certas histórias deixam-nos o mapa depois da viagem, ou o barco em qualquer enseada, oculto ainda na folhagem, ou o azul desamparado e irresistível que lhes serviu de motivo para a demanda. Há histórias que nos pintam o rosto com terra amassada, vermelha, amarela, negra e iniciam-nos na decifração do fogo, na escuta dos silêncios da terra, no entendimento dos sonhos. Há histórias que nos conduzem ao centro impenetrável de bosques, aos segredos da penumbra do templo, à geografia de cidades, ao alarido dos mercados e à hesitação que a sabedoria por vezes dissolve, por vezes amplia.

Pelas histórias descobrimos a vastidão de um mundo interior, intacto e errante como uma paisagem do fundo dos mares, e, desse modo também, primordial e delicado, arcaico e sublime. Das histórias recebemos o socorro quando nos faltam palavras (ou outra coisa que não sabemos bem, mas que talvez nem sejam palavras) para medir a altura da alegria, porque, de repente, o amor, a poesia ou a santidade se avizinharam e, percebemos, nada antes tinha sido, para nós, tão imensamente belo e tão perigoso.

A herança dessas histórias constitui um património cultural, é certo. Mas importa não esquecer que elas são sobretudo dádiva confiada à vida, alento, sopro, energia pura. E, por isso, têm um inesgotável poder reparador. A «árvore da vida» das primeiras páginas do Génesis, «a estrela de Alva» dos hinos astecas, a «gazela» do folclore tuaregue, a «flor vermelha» duma canção mexicana, a «estrada larga» da declaração xamânica, a «raiz da vida» do poema de Madagáscar, a «planta da imortalidade» que Guilgamesh perde e procura, são-nos entregues, não só como metáforas, mas como símbolos que passam a sustentar connosco, a nosso lado, o duro e ligeiríssimo mistério da existência. As metáforas empalidecem e estilhaçam-se. Os símbolos têm capacidade de religar, a partir do fundo, as pontas decepadas e dispersas, os opostos da alma: a noite e o dia, a dor e o riso, a ação e a contemplação, a vida e a morte.

***

Muitas vezes, a meio da viagem, os viajantes se perguntam pelo que persistirá, uma vez concluído o caminho. O que persistirá destas paisagens que atravessamos, em solidão e companhia; disto que já foi tão real diante de nós como nós próprios; disto pelo qual lutamos e vivemos; disto que o mundo encosta ao nosso ouvido como um segredo; disto que nos faz chorar e rir; disto que nos colocamos a amar desabaladamente? Uma vez concluído o caminho, que resta aos viajantes? Que podem eles trazer ou conservar ou repartir? Gosto de pensar nas palavras de Sophia de Mello Breyner: «Feliz aquela que efabulou o romance/depois de o ter vivido/[…] E sob o fulgor da noite constelada/ À beira da tenda partilhou o vinho e a vida».

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Mensagem de Sua Majestade


To the citizens of the United States of America from Her Sovereign Majesty Queen Elizabeth II.

In light of your immediate failure to manage yourselves financially and in recent years also your tendency to elect incompetent Presidents of the USA and therefore remain unable to govern yourselves, we hereby give notice of the revocation of your independence, effective immediately. (Look up 'revocation' in the Oxford English Dictionary.)

Her Sovereign Majesty, Queen Elizabeth II will resume monarchical duties over all states, commonwealths, and territories (except Kansas, which she does not fancy).

Your new Prime Minister, David Cameron, will appoint a Governor for America without the need for further elections.

Congress and the Senate will be disbanded. A questionnaire may be circulated sometime next year to determine whether any of you noticed.

To aid in the transition to a British Crown dependency, the following rules are introduced with immediate effect:

1. The letter 'U' will be reinstated in words such as 'colour,' 'favour,' 'labour' and 'neighbour.' Likewise, you will learn to spell 'doughnut' without skipping half the letters, and the suffix ‘-ize’ will be replaced by the suffix ‘-ise.’ Generally, you will be expected to raise your vocabulary to acceptable levels. (look up 'vocabulary').
------------------------
2. Using the same twenty-seven words interspersed with filler noises such as ‘like’ and ‘you know’ is an unacceptable and inefficient form of communication. There is no such thing as U.S. English. We will let Microsoft know on your behalf. The Microsoft spell-checker will be adjusted to take into account the reinstated letter ‘u’ and the elimination of ‘-ize.’

3. July 4th will no longer be celebrated as a holiday.

4. You will learn to resolve personal issues without using guns, lawyers, or therapists. The fact that you need so many lawyers and therapists shows that you're not quite ready to be independent. Guns should be used only for shooting grouse. If you can't sort things out without suing someone or speaking to a therapist, then you're not ready to shoot grouse.

5. Therefore, you will no longer be allowed to own or carry anything more dangerous than a vegetable peeler. Although a permit will be required if you wish to carry a vegetable peeler in public.

6. All intersections will be replaced with roundabouts, and you will start driving on the left side with immediate effect. At the same time, you will go metric with immediate effect and without the benefit of conversion tables. Both roundabouts and metrication will help you understand the British sense of humour.

7. The former USA will adopt UK prices on petrol (which you have been calling gasoline) of roughly $10/US gallon. Get used to it.

8. You will learn to make real chips. Those things you call French fries are not real chips, and those things you insist on calling potato chips are crisps. Real chips are thick cut, fried in animal fat, and dressed not with catsup but with vinegar.

9. The cold, tasteless stuff you insist on calling beer is not actually beer at all. Henceforth, only proper British Bitter will be referred to as beer, and European brews of known and accepted provenance will be referred to as Lager. New Zealand beer is also acceptable, as New Zealand is pound for pound the greatest sporting nation on earth and it can only be due to the beer. They are also part of the British Commonwealth – see what it did for them. American brands will be referred to as Near-Frozen Gnat's Urine, so that all can be sold without risk of further confusion.

10. Hollywood will be required occasionally to cast English actors as good guys. Hollywood will be required also to cast English actors to play English characters. Watching Andie Macdowell attempt English dialogue in ‘Four Weddings and a Funeral’ was an experience akin to having one's ears removed with a cheese grater.

11. You will cease playing American football. There are only two kinds of proper football; one you call soccer, and rugby (dominated by the New Zealanders). Those of you brave enough will, in time, be allowed to play rugby which has some similarities to American football, but does not involve stopping for a rest every twenty seconds or wearing full Kevlar body armour like a bunch of nancies.

12. Further, you shall stop playing baseball. It is not reasonable to host an event called the World Series for a game which is hardly played outside of America. As only 2.1% of you are aware there is a world beyond your borders, your error is understandable. You shall learn cricket, and we will let you face the Australian world dominators first to take the sting out of their deliveries.

13. You must tell us who killed JFK. It's been driving us mad.

14. A tax collector (i.e. internal revenue agent) from Her Majesty's Government will be with you shortly to ensure the acquisition of all monies due (backdated to 1776).

15. Daily Tea Time begins promptly at 3.30 p.m. with proper cups and saucers, and never mugs, and with high quality biscuits (cookies) and cakes; plus strawberries (with cream) when in season.


God Save the Queen!


PS: Share this only with friends who have a good sense of humour (NOT humor)!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Recordar o perdão para compreender "Measure for Measure"





é o que propõe o Professor R. W. Chambers num ensaio escrito no já distante ano de 1937, contrapondo à asserção de Coleridge (na qual o nosso ethos se pode rever, diga-se), uma outra do Padre Brown, personagem de Chesterton.
Deixo-vos as palavras do Professor, acompanhadas de duas "leituras" visuais de Mariana:

"... Isabel is conscious that, however innocently, she herself has been the cause of Angelo's fall:
'I partly think
A due sincerity govern'd his deeds,
Till he did look on me; since it is so,
Let him not die.'
And Angelo is penitent. There can be no doubt what the words of the Sermon on the Mount demand: 'Judge not, and ye shall not be judged.' That had been Isabel's plea for Claudio. It is a test for her sincerity, if she can put forward a plea for mercy for her dearest foe, as well as for him whom she dearly loves.
Criticism of Measure for Measure, from Coleridge downwards, has amounted to this: 'There is a limit to human charity.' 'There is,' says Chesterton's Father Brown, 'and that is the real difference between human charity and Christian charity,' Isabel had said the same:
'O, think on that;
And mercy then will breathe within your lips
Like man new made.'
Shakespeare has so manipulated the story as to make it en in Isabel showing more than human charity to Angelo, whilst at the same time he has avoided, by the introduction of Mariana, the error, which he found in his crude original, of wedding Isabel to Angelo."
A meditar...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ler Shakespeare para melhor compreender "o hoje"



é a inevitabilidade que sinto ao reler (treler, quadriler, talvez, devido a um projecto - como hoje se diz - em que estou a trabalhar desde há algum tempo) Shakespeare, The Thinker, the Tony Nuttall [não confundir com narrativas dos Joy Division].
Ei-lo a propósito do absolutismo, de Charles I e de Richard II, com a devida convocação de Margaret Thatcher e de Tony Blair (podeis também ter em mente gente mais próxima de nós no espaço e no tempo):
"... in the sixteenth century monarchies increasingly freed themselves of ultimate dependence on the consenting will of the people in the great drift towards absolutism (an absolutism that was perhaps anticipated, momentarily and freakishly, by the real Richard II). This movement reached its climax after Shakespeare's death in the divine right of kings asserted by Charles I. The string gradually until it snapped; Charles died on the scaffold. In my lifetime I have watched the governments of Margaret Thatcher and Tony Blair edge, inch by inch, away from parliamentary democracy towards a less fettered exercise of power. Sometimes the people themselves seem simply to lose interest; the day may yet come when hardly anyone will want to vote any more. One Karl Popper's "paradoxes of democracy" was conveyed by the question, "What is one to do when the demos, the people, freely decides to resign its power to a despot?" When I first encountered this question I saw it as the bizarre thought-experiment of a closeted theoretician, despite Popper's insistence that such things had really happened. Then, on a day when I was wandering round the Reichstag in Berlin it dawned on me that there was a day in the twentieth-century European society history when a society did exactly this."
Para quem, como eu, se delicia a reler Shakespeare com a ajuda de Harold Bloom, então não deve perder este livro que há quatro anos tanta polémica gerou, e que levou o próprio Bloom a exclamar: "Tony Nuttall is my hero!"
Mine too!
Boa semana!
Boas leituras!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

João Barrento, "O Género Intranquilo"



Deixo-vos estas palavras iniciais de um texto meu sobre o livro de ensaios de João Barrento que acabou de ser publicado na Colóquio Letras. Espero que vos aguce o apetite:

Numa reflexão sobre a obra de Llansol, Silvina Rodrigues Lopes menciona “o [seu] olhar errante” que “paira numa zona de penumbra”, lugar onde o sentido se insinua. 1 Errância do olhar que se justapõe ao de uma escrita que não se confina a uma circunstância textual (género) ou a uma irremediável distância face ao sujeito. Algo de idêntico ocorre na “errância da vida” de Else Lasker-Schüler 2. Também neste caso a escrita participa radicalmente de uma busca de sentido que se con-funde com a experiência criativa.
Enquanto escrevia Finisterra: paisagem e povoamento, Carlos de Oliveira foi produzindo reflexões suscitadas pelo processo de escrita. Numa delas, cita a '[p]rimeira experiência: dar o dom de fala aos grãos de areia que tenho sobre a mesa.' Do acaso do lugar, de peculiares e irrepetíveis acidentes de luz, emerge uma voz. A experiência autobiográfica con-funde-se com o processo de escrita que cria uma vida própria, na qual ele se revela.
Creio ser esta a inevitável realidade (experiência) que subjaz a O Género Intranquilo – anatomia do ensaio e do fragmento, e que levou João Barrento a designar “Geografias do acaso” o texto inicial da primeira parte do livro, onde apresenta um “Ensaio geral do ensaio.” Nele, escreve, '[a]rrumo os fragmentos segundo uma ordem possível ... tento um princípio organizativo que evidencie a progressão da experiência' (p. 15). O ensaio exibe-se enquanto processo, exercício em construção, decorrente das singularidades do(s) lugar(es) e do tempo: “geografias” denuncia quão nuclear é a circunstância do lugar, e “acaso”, quão nuclear é a circunstância do tempo (da experiência, da escrita). “Geografias” induz a singularidade – o recurso ao plural denega uma universalidade; “acaso” esclarece que este não um tempo pré-determinado mas sim acidental. Estamos, portanto, perante uma realidade determinada por uma categoria operatória moderna.
Ao intitular este livro Género Intranquilo, JB convoca, subliminarmente, essa mesma modernidade.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Atenção, os Artistas Unidos


passarão a estar sediados na Rua da Escola Politécnica Politécnica, junto ao jardim botânico, no Teatro da Politécnica. O grupo foi criado em 1995 por uma figura ímpar da nossa cultura contemporânea, Jorge de Silva Melo. A ele se devem, recorde-se, momentos inesquecíveis junto de Luís Miguel Cintra, no Teatro do Bairro Alto.
Parafraseando uma canção dos The Byrds, posso dizer que, "embora não o conheça, ele é meu amigo."
A Universidade de Lisboa – honra lhe seja feita, o Ministério da Cultura (ou Secretaria de Estado?) e a (inevitável) Fundação Gulbenkian, contribuíram para esta nova fase dos Artistas Unidos.
A primeira obra a ser levada à cena será Não se brinca com o Amor, de Alfred de Musset.
Aqui fica, portanto, a chamada de atenção para este novo espaço em Lisboa.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Annus Maribilis



Não foi aquele de que fala o Philip Larkin, pois claro. Nessa altura eu era demasiado pequenito!
O meu "Annus maribilis" terá sido o de 1985.
Entre muitas outras coisas, descobri (vendo-a ao vivo) a Suzanne Vega.
Sobre ele (ano) escrevi este poema que, inevitavelmente, encerra com essa descoberta.
Está incluído em Cidades de Refúgio, publicado seis anos mais tarde. Intitulei-o "Herba Santa", em homenagem ao meu querido amigo Herman Melville.
Ei-lo:

"Associo melodias às estações,
a instantes mais ou
menos vagos na memória. O
Verão de oitenta e cinco, por exemplo.

Regressara nesse tempo da pátria
dos heróis. Os dias fluíam entre
a viagem de um amor vindo
de longe e um almoço fora de horas
num qualquer snack em Lisboa, cracking.

Com liberdade, livros, flores e
a lua, quem não pode ser feliz?

Sim, havia ainda os livros e
a música, o frágil encanto de
Suzanne Vega."

Boa semana!