quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Sabedoria, segundo Livro de Sabedoria 7

Com o precioso auxílio de Veronese.
Na Sabedoria há um espírito inteligente, santo, único, multiforme, subtil, veloz, perspicaz, sem mancha; um espírito lúcido, inalterável, amigo do bem; penetrante, irreprimível, benfazejo, amigo dos homens; firme, seguro, sereno; ele tudo pode, tudo abrange e penetra todos os espíritos, os mais inteligentes, mais puros e mais subtis. A Sabedoria é mais ágil que todo o movimento, atravessa e penetra tudo, graças à sua pureza.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Uma obra acabada de sair

Refere Woody Allen num filme (não me lembro qual) que o seu psicanalista era um freudiano ortodoxo. Significava isto que, mesmo que ele se suicidasse, tinha que continuar a pagar as sessões. Ainda que radicado em Freud, Orlando Fialho, um dos mais reputados psicanalistas da nossa praça, está bem longe do analista de Allen. A sua obra acabada de vir a lume, com a chancela da Colibri, tem por título Psicanálise - Sujeito e objecto na cura analítica, e foi apresentada em Lisboa no sábado passado ao final da tarde (uma alegria rever Orlando Fialho trinta e tal anos depois!). A obra reúne um conjunto de conferências realizadas ao longo do tempo, o que não significa uma ausência de coerência e de unidade no percurso analítico, com continuados regressos a Ogden, Bion e a Winnnicott (e a Freud, claro), passando por Alberto Caeiro e Monet. Aprecio, entre outras coisas, o modo como o analista se revela na sua fragilidade do encontro com o outro, e a consequente convocação de conceitos como "entre" e "inter-subjectividade", "resto", "caos" e "vestígio". Porque já o li, recomendo a quem reconhece que pode aplicar-se a si próprio o comentário de Bion: Eu esforço-me por ver outra coisa, por me abrir a outra coisa - aos vestígios, aos vestígios mentais. (...) O que é evidente, é evidente, não há nada mais a dizer. O analista deve libertar-se das suas recordações e dos seus desejos, de forma a poder abrir-se ao presente. A psicanálise dá a impressão - correndo o risco de nos induzir em erro - que o que importa é o passado, na medida em que nos faz acreditar que o importante em psicanálise é o passado. No entanto, o passado não é importante, porque relativamente a ele não podemos fazer nada. As únicas coisas às quais podemos ter acesso são os restos, os vestígios do passado, os vestígios de estados de espírito do passado ou de componentes arcaicas do nosso físico... (Fialho, 2017: 59-60) Enfim, uma reflexão que pode ajudar-nos a compreender(-nos)... a nós que "vivemos permanentemente num caos psíquico" (idem, 59).

«No meio da noite»

Escreve Santo Agostinho (354-430) no Sermão 93, a propósito de Evangelho de Mateus 25,1-13: As dez virgens quiseram, todas elas, ir ao encontro do esposo. Que significa ir ao encontro do esposo? É ir com o coração, é viver na expetativa da sua chegada. Mas ele tardava a vir e elas adormeceram. [...] Que significa isto? Há um sono a que ninguém pode escapar. Recordai aquelas palavras do apóstolo Paulo: «Não queremos, irmão, que ignoreis o que o que diz respeito aos que dormem» (1Tes 4,12), isto é, aos que morreram. [...] Elas adormeceram todas. Pensais que a virgem prudente pode escapar à morte? Não, sejam elas prudentes ou insensatas, todas têm de passar pelo sono da morte. [...] «No meio da noite ouviu-se um brado». Que quer isto dizer? Que é quando ninguém pensa, quando ninguém espera... Ele virá quando menos pensarmos nisso. Porque vem Ele assim? Porque «não vos compete conhecer o tempo ou a hora que o Pai fixou na sua autoridade» (At 1,7). «O dia do Senhor», diz o apóstolo Paulo, «virá como um ladrão em plena noite» (1Tes 5,3). Vigiai, pois, durante a noite, para não serdes surpreendidos pelo ladrão. Porque, que queirais quer não, o sono da morte virá necessariamente. [...] E, no entanto, isso só acontecerá quando se ouvir um grito no meio da noite. Que grito é este? É aquele de que o apóstolo Paulo diz: «Num instante, num piscar de olhos, ao som da última trombeta. Porque a trombeta soará e os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados» (1Cor 15,52). Após aquele grito que ressoou no meio da noite: «Aí vem o esposo», que acontecerá? «Levantaram-se todas».

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Pessoa nos caminhos de Belas

para visitar a mãe do padrasto, internada numa casa de saúde local: "Sunday, 27th May, 1906 A horrible warm day. Had to go to Belas. Awful in the train, especially in the tunnel on returning. I thought I should die of suffocation. Read nothing: absolutely impossible."

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A fadiga dos passos

"Da abertura escura do interior deformado do calçado, a fadiga dos passos do trabalho olha-nos fixamente. No peso sólido, maciço, dos sapatos está retida a dureza da marcha lenta pelos sulcos que longamente se estendem, sempre iguais, pelo campo, sobre o qual perdura um vento agreste, No couro está [a marca] da humidade e da saturação do solo. Sob as solas, insinua-se a solidão do carreiro pelo cair da tarde. O grito mudo da terra vibra nos sapatos, o seu presentear silencioso do trigo que amadurece e o seu recusar-se inexplorado no puis desolado do campo de Inverno. Passa por este utensílio a inquietação sem queixume pela segurança do pão, a alegria sem palavras do acabar por vencer de novo a carestia, o estremecimento da chegada do nascimento e o tremor na ameaça da morte." Martin Heidegger

quarta-feira, 25 de outubro de 2017