sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Nova sugestão de leitura

Este Insólitas Afinidades - Alteridade em Albert Camus e Paul Bowles, de Fernando Gomes, produto de uma tese de doutoramento defendida há já alguns anos na Universidade de Évora. Sinalizo a postura ética que subjaz ao olhar sobre as obras destes autores.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Depois de ter acabado de ler

Fuck the Polis, lanço-me à leitura de Talvez escute Deus alguns poetas, de Karl-Josef Kuschel, o qual (confesso a ignorância) voz amiga assegura ser um dos mais prestigiados teólogos alemães. O livro, prefaciado por Steffen Dix e posfaciado por Teresa Bartolomei, foi apresentado ontem, ao final da tarde, por uma tríade de luxo: António M. Feijó, vice-reitor da Universidade de Lisboa, Peter Hanenberg e Alexandre Palma, professores, respectivamente, das Faculdades de Ciências Humanas e Teologia. Um final de tarde em cheio, posso assegurar-vos! Cito a partir do site da Pastoral da Cultura um breve excerto em torno da(s) problemática(s) suscitada(s) pela figura de Judas: "Analisando os livros cristãos primitivos, constatamos que a micronarrativa “traição de Judas” produziu quatro interpretações literárias distintas. Em cada versão podemos observar uma abordagem prospetiva a diferentes motivos para algo que parece ser abissal e para o qual não existe uma explicação plausível. A diversidade das narrativas dá a entender precisamente isso, bem como a crescente importância que lhe é atribuída a partir de Marcos, passando por Mateus e até João. Concretamente, porém, o “caso” Judas parece ser para todos um caso evidente. Houve um traidor pertencente ao círculo mais restrito que denunciou e entregou Jesus aos detentores do poder religioso. Esse traidor chama-se Judas. O motivo: a ganância. O carácter: hipócrita. Porque é que ele faz isso? Quais são os seus motivos? O mais tardar a partir de Lucas, os fiéis na comunidade cristã primitiva pensam saber que Judas se encontrava sob a influência de Satanás. Com isso, quaisquer outras explicações ou questionamentos tornam-se supérfluos. Harmonizando as diferentes fontes, obtemos uma imagem global: Judas atraiçoa o Filho de Deus por ganância sob influência satânica. A traição surge como particularmente infame porque Judas pertence ao círculo mais íntimo dos discípulos e porque esteve sentado à mesa com Jesus durante a “última ceia”. Particularmente hipócrita porque, nessa ocasião, Jesus ainda proferiu um aviso inequívoco dirigido ao traidor. “Mas ai daquele por intermédio de quem o filho da Humanidade é traído. Melhor seria para ele se não tivesse nascido esse homem” (Mt 26, 24). Mesmo assim… O beijo, o mais íntimo sinal de confiança entre duas pessoas, é aproveitado como sinal do engano, da dissimulação, da traição ao amigo. Isso irá caracterizar Judas para todo o sempre. Ele e todos os Judas da história. Não é pois de espantar que o fim de um tal homem tenha, forçosamente, de ser terrível. Em todo o caso, Mateus parece particularmente interessado em descrever ao pormenor a morte de Judas. Um caso claro do Bem contra o Mal, de Deus contra Satanás, de que outra forma podíamos interpretá-lo? De facto, durante séculos a interpretação do caso deste Judas oriundo de Iscariotes pareceu concluída. Na história da teologia e da predicação cristã ele torna-se a figura de projeção do ódio a tudo quanto surge como mentira, engano e traição; na verdade, ele torna-se a própria negação do que é cristão, mobilizando o ódio a tudo o que parece conspirar contra o que é cristão, a começar pelos “judeus”. Judas, Jeduha, literalmente “o judeu”, torna-se assim na figura simbólica do povo dos traidores per se, para toda a eternidade responsável pelo assassínio do Cristo. Na figura simbólica para todos os defeitos de carácter atribuídos ao “judeu”: ganância, hipocrisia, mentira, traição… Só no século XX os escritores questionam esta imagem, ousando formular uma leitura nova e diferente da história de Judas. Mas é a própria questionabilidade da história, evidente desde o início, que primeiro irá estimular a sua produtividade literária. Histórias demasiado evidentes são estéreis, as enigmáticas e contraditórias tornam-se literariamente férteis. E o drama Jesus-Judas não para de produzir interrogações e perplexidades. Será assim tão evidente, a história de Judas que a primitiva comunidade cristã nos lega? Ou não estará cheia de incoerências e contradições em relação a outros textos do mesmo Novo Testamento? Traição e enforcamento sabendo Jesus de tudo será isso compatível com a mensagem do Sermão da Montanha, do amor aos inimigos? Tendo constituído a ceia de despedida uma derradeira celebração do amor “em sua memória”, será possível que um dos companheiros de percurso mais íntimos possa cometer o seu ato vergonhoso, estando ele consciente de tudo? E os motivos de Judas, o seu carácter? Será plausível aquilo que nos é transmitido? Ter-nos-á sido transmitido tudo? Talvez tudo se tenha passado de uma forma completamente diferente. Poderá Judas ter atuado por outros motivos, que não esses, tão infames? E o aspeto metafísico? Se o Demónio está em jogo não é lançada também a questão da teodiceia? Ela teria de arder como uma ferida: porque é que Deus-Pai, na Sua justiça, permite que o seu Filho seja vítima da traição, da mentira, do engano? Finalmente, será possível transformar Judas de uma forma tão cruel no filho de Satanás, condenando-o ao inferno, sem interpelar Deus, o Justo? Consequência: as narrativas do Novo Testamento libertam agora, já não a nível interno, eclesiástico, mas externo, não cristão, uma nova dinâmica, capaz de produzir literatura. Aponto para dois exemplos: Walter Jens e Amos Oz." E agora, tendo cumprido a obrigação de partilhar convosco esta descoberta, fico por aqui, pois tenho este livro aqui ao lado a olhar para mim...

Ainda a subjectividade das ressonâncias

Recordou-me uma das vozes mais próximas de mim que Fuck the Polis, título do mais recente livro de poemas de João Miguel Fernandes Jorge, evoca Fuck Tha Police, do álbum (ainda se lhes chama assim?) de 1988 Straight Outta Compton, dos NWA. Eu devo confessar que, ao lê-lo, recordei outros versos, os de Kavafis, a melancolia dos seus encontros com a História, com os efémeros detalhes do quotidiano... e a inteligência das emoções... Vogando pela casa dos setenta, Fernandes Jorge não deixa de (me) surpreender. Uma sugestão de prenda de Natal, portanto. A começar pela oferta a si próprio.

Li Orígenes e lembrei-me daqueles versos de Emily Dickinson:

"ONE need not be a chamber to be haunted,/One need not be a house;/The brain has corridors surpassing/Material place." Agora vejam o que escreveu, há algum tempo (só quase dois mil anos...), Orígenes (c. 185-253), presbítero, teólogo, no nº 5 de Homilias sobre Josué:"Olhas em teu redor, para veres que caminho tomar, que campo de batalha escolher? Vais certamente espantar-te com as minhas palavras, que no entanto são verdadeiras: limita a procura a ti mesmo. É em ti que se encontra o combate que deves travar, é no teu interior que está o edifício do mal e do pecado que é necessário destruir; o teu inimigo está no fundo do teu coração. Não sou eu que o digo, é Cristo; escuta-O: «Do coração procedem os maus pensamentos, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias» (Mt 15,19). Tens noção do poder deste exército inimigo, que avança contra ti do fundo do teu coração? Pois esses são os teus verdadeiros inimigos."

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Recordando o aniversário

Este ano, pela primeira vez, passei o meu aniversário fora do país. Quis a ironia do destino que o celebrasse em Istambul/Constantinopla/ Bizâncio... alcançando a mesma idade com que Yeats escreveu estes versos do famoso "Sailing to Byzantium": That is no country for old men. The young/ In one another's arms, birds in the trees,/ —Those dying generations—at their song,/ The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,/ Fish, flesh, or fowl, commend all summer long/ Whatever is begotten, born, and dies./ Caught in that sensual music all neglect/ Monuments of unageing intellect.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

GREGUERÍAS

Seu autor é Ramón Gómez de la Serna. Eis alguns exemplo: A) Los que matan a una mujer y después se suicidan debían variar el sistema: suicidarse antes y matarla después. B) La muerte es hereditaria. C) Un donuts es un planeta al que aún no le han encontrado el núcleo. D) A un mentiroso sólo lo cura un sordo. De Serna que viveu no Estoril, será publicado, no próximo ano, o volume Cartas de Portugal, com o apoio da Cátedra Cascais Interartes/Fundação D. Luís I. Aqui vos deixo o alerta.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Sugestão quando o final da semana se aproxima

Recorda a semana que passou e interroga-te sobre os lugares por onde andou o teu coração.