segunda-feira, 25 de março de 2019

No dia que hoje celebramos

este poema de Coreografando melodias no rumor das imagens: Ecce Ancilla Domini, Dante Gabriel Rossetti Pier Paolo reconheceu o seu/ rosto numa jovem desconhecida,/ Margherita Caruso, de seu nome./ Talvez nela tenha sentido/ a beleza moral que/ Masaccio outrora fixara./ Tu, Dante Gabriel, desvendaste-o/ em Christina, tua irmã, em seu/ tímido, recatado pudor.// Pier Paolo escolheu a nudez/ que alguém considerou desolada,/ de Sassi di Matera, como/ cenário./ Tu, Dante Gabriel, concebeste-o/ no austero conforto d’um claustro.// A Pier Paolo bastou o/ olhar expectante de Margherita./ Para ti, Dante Gabriel, habituado/ que estavas a viver na prosa/ do mundo, era inevitável/ o lírio branco.// Ambos viram, porém, o seu rosto/ em jovens como tantas outras/ que, entre nós, habitam.// Eu reconheci-o hoje pela manhã,/ ao olhar para ti/ quando dormitavas -/ come sei bella con la tua faccia/ stanca. // Não longe de nós, o/ menino e o luar, frutos teus,/ repousavam./

quarta-feira, 20 de março de 2019

Some things never change, parte II - "A cunha"

Mateus 20: "Então a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com os filhos e prostrou-se para Lhe fazer um pedido. Jesus perguntou-lhe: «Que queres?». Ela disse-Lhe: «Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu reino um à tua direita e outro à tua esquerda»."

Some things never change:

Livro de Jeremias 18,18-20 "Os inimigos de Jeremias disseram entre si: 'Vamos fazer uma conspiração contra Jeremias, pois não nos faltará a instrução de um sacerdote, nem o conselho de um sábio, nem o oráculo de um profeta. Vamos feri-lo com a difamação, sem fazermos caso do que ele disser'." [itálicos meus]

Dia da poesia

Amanhã. Apareçam... se estiverem interessados, claro.

terça-feira, 12 de março de 2019

Écfrase como alegoria da narrativa

É o caso deste passo de The Dying Animal, de Philip Roth, a partir do quadro de de Stanley Spencer, que aqui transcrevo em tradução portuguesa. Vós, mais jovens, não fiqueis perturbados pelo facto de corpos de quarenta e cinco anos serem evocados como decadentes... Está exposto no Tate um quadro de Stanley Spencer, um retrato com nu duplo de Spencer e da sua mulher aos quarenta e cinco anos, mais ou menos. É a quinta-essência da franqueza no tocante a coabitação, no tocante aos sexos viverem juntos ao longo do tempo. ... Spencer está sentado, acocorado ao lado da mulher deitada. Olha meditativamente para ela, de perto, através dos óculos de aros metálicos. Nós, por nossa vez, olhamos para ambos de perto: dois corpos nus ali à frente da nossa cara, para vermos que eles já não são jovens e atraentes. Nenhum deles parece feliz. Um passado espinhoso agarra-se ao presente. No caso da mulher, em particular, começou tudo a afrouxar, a espessar, e estão por vir rigores maiores do que carne estriada. Na beira de uma mesa, no primeiro plano imediato do quadro, encontram-se dois pedaços de carne: uma grande perna de borrego e uma única costeleta. A carne crua é apresentada com uma meticulosidade fisiológica, com a mesma sinceridade cruel dos seios pendurados e do pénis descaído e não excitado expostos a poucos centímetros apenas da comida não cozinhada. É como se olhássemos através da montra do homem do talho, não apenas para a carne, mas também para a anatomia sexual do par casado.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Com a sabedoria de Woody Allen, bom fim de semana

“In my next life I want to live my life backwards. You start out dead and get that out of the way. Then you wake up in an old people's home feeling better every day. You get kicked out for being too healthy, go collect your pension, and then when you start work, you get a gold watch and a party on your first day. You work for 40 years until you're young enough to enjoy your retirement. You party, drink alcohol, and are generally promiscuous, then you are ready for high school. You then go to primary school, you become a kid, you play. You have no responsibilities, you become a baby until you are born. And then you spend your last 9 months floating in luxurious spa-like conditions with central heating and room service on tap, larger quarters every day and then Voila! You finish off as an orgasm!”

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

"Luz e melancolia na pintura de Joaquín Sorolla"

é o título de um texto de Rita Gameiro no mais recente número da Revista Portuguesa de Psicanálise. Dele, desse texto, deixo aqui este fragmento: "[h]á algo na sua [de Joaquín Sorolla] pintura que comporta uma certa melancolia. Embora múltiplas obras suas apareçam contaminadas de vivacidade, a sua pintura faz-nos contactar com sentimentos ambíguos. Vacilamos entre a exaltação da luminosidade e o que se esconde nas sombras esbatidas. Figuras humanas aparecem sem que nos ofereça a possibilidade de perscrutar os seus traços, apresentando-se como figuras pertencentes à obra e não como seres do real. Somos levados a acreditar que talvez Sorolla não se importasse com tais pormenores, mas permanece a interrogação sobre o que procurava o pintor transmitir nas suas pinturas de luz."