segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Uma reflexão sobre a Universidade

elaborada por António M. Feijó e Miguel Tamen, a partir de uma experiência concreta, a da criação da licenciatura em Estudos Gerais na Faculdade de Letras de Lisboa. Recomendo vivamente! Só uma nota (aparentemente) à margem mas que, se lerem o livro, verão ser pertinente. Em conversa, há dias,com um amigo que é professor no Instituto Superior Técnico, soube que ele se licenciou no Canadá em Química, com um minor em... Filosofia. Se tivermos igualmente presentes as experiências anglo-saxónicas, constataremos que as propostas feitas por estes colegas, não são tão insólitas quanto podem à partida parecer. Boas leituras!

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Dois olhares, pela imagem e pela palavra

ou como dois grandes vultos da nossa tradição cultural viram Lucas 10,38-42 («Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada».): Velásquez e Santo Agostinho. Eis Velásquez:
E agora, algumas linhas do Sermão 104, de Santo Agostinho:Creio que compreendeis que estas duas mulheres, ambas diletas do Senhor, dignas do seu amor e suas discípulas, [...] são a imagem de duas formas de vida: a vida deste mundo e a vida do mundo futuro, a vida de trabalho e a vida de repouso, a vida das preocupações e a vida da bem-aventurança, a vida no tempo e a vida eterna. [...]A vida de Marta é o nosso mundo; a vida de Maria é o mundo que esperamos. Vivamos neste mundo com retidão, para obtermos o outro em plenitude. Que possuímos já dessa vida? [...] Precisamente, neste momento, vivemos de certa maneira essa vida: afastando o trabalho, pondo de parte as preocupações familiares, reuni-vos e escutais. Comportando-vos assim, assemelhais-vos a Maria. Isso torna-se-vos mais fácil do que a mim, que tenho de tomar a palavra. No entanto, o que digo é a Cristo que vou buscá-lo, e este alimento é de Cristo. Porque é o pão comum a todos, e é para isso que vivo em comunhão convosco.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Os anjos são os nossos pastores

Sob o signo de Wim Wenders, em As asas do desejo, eis o olhar de São João da Cruz sobre os anjos: Os anjos são os nossos pastores; não só levam a Deus as nossas mensagens, como também trazem até nós as mensagens que Deus nos envia. Eles alimentam-nos a alma com doces inspirações e comunicações divinas; sendo bons pastores, protegem-nos e defendem-nos dos lobos, isto é, dos demónios. Com as suas inspirações secretas, os anjos proporcionam à alma um conhecimento mais elevado de Deus; inflamando-a de uma chama mais viva de amor a Ele, chegam até a deixá-la ferida de amor [...]. A luz de Deus ilumina o anjo, penetrando-o com o seu esplendor e inflamando-o com o seu amor, porque o anjo é um espírito puro, completamente disponível para essa participação divina. Ao homem, porém, ilumina-o habitualmente de maneira obscura, dolorosa e penosa, porque o homem é impuro e fraco [...]. Mas quando o homem se torna verdadeiramente espiritual e se deixa transformar pelo amor divino que o purifica, recebe a união e a amorosa iluminação de Deus com uma suavidade semelhante à dos anjos [...]. Lembrai-vos de que é vão, perigoso e funesto exultarmos com algo que não seja um serviço a Deus, e considerai a infelicidade dos anjos que exultaram e se comprazeram com a sua própria beleza e seus próprios dons naturais; pois foi esse o motivo por que alguns deles caíram, privados de toda a beleza, no fundo dos abismos. Boa semana!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Herb Ritts

Exposição do artista americano no Centro Cultural de Cascais, a não perder. Um único defeito na organização, a ausência de um aparelho para medir a tensão arterial a pessoas de meia-idade após ser(mos) confrontado(s) com tantos corpos tão bonitos. Como anti-climax, aqui fica uma foto minha junto ao nosso colega William Burroughs, com o fantasma do Salvato Telles de Menezes a tirar a dita.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Saiu mais um número da revista

Anglo-Saxonica, com uma secção dedicada a Rudiard Kipling, à qual se segue um conjunto de ensaios sobre outros tópicos, entre os quais um meu, dedicado à presença de Emerson da obra do pensador canadiano Charles Taylor. Eis o índice: ARE YOU AS ANGLO AS I AM INDIAN?, de Cristina Baptista; IMPERIALISMO E REPRESENTAÇÕES DO IMPÉRIO EM KIM, DE RUDYARD KIPLING, de Pedro Estácio; TRAVELLING BETWEEN JOURNALISM AND LITERATURE: KIPLING’S ART IN CROSSING FIXED TEXTUAL BORDERS, de Isabel Simões-Ferreira;ORWELL ON KIPLING: AN IMPERIALIST, A GENTLEMAN AND A GREAT ARTIST, de J. Carlos Viana Ferreira; A MAN OF HIS TIME: THE SCIENTIFIC AND POLITICAL GROUNDS FOR KIPLING’S IMPERIALISM, de Carla Larouco Gomes; COULD THEY HAVE BEEN “MASONIC FRIENDS”? RUDYARD KIPLING AND ANNIE BESANT, de Teresa de Ataíde Malafaia; BOARD(ING) SCHOOLS: RUDYARD KIPLING’S YOUNG HEROES, de Patrícia Rodrigues and Teresa-Cláudia Tavares. Seguem-se ESSAYS/ESTUDOS:EMERSON AMONG THE PATHS OF THE MODERN SELF: CHARLES TAYLOR AND THE CONCORD THINKER, de Mário Avelar; BETWEEN HARD COVERS AND THE “CLOUD”: IS A CANON TO BE FOUND?, de Cristina Baptista; NARRATIVE MEDICINE: WHAT DISCOURSE ADDS TO LISTENING, de Maria de Jesus Cabral, Marie-France Mamzer, Christian Hervé, Cecilia Beecher Martins and Rita Charon; e “THE MYTH IN WHICH THE GODS THEMSELVES WERE ALL DESTROYED”: READING A. S. BYATT’S RAGNARÖK: THE END OF THE GODS AND KLAS ÖSTERGREN’S THE HURRICANE PARTY, de Alexandra Cheira. Aqui fica a informação.

Recomendo vivamente

este livro de ensaios de Adam Phillips que acabo de ler, e que dá pelo nome de In Writing. Este é o olhar de um psicanalista que, dialogando com as diferentes tradições emergentes de Freud, medita sobre a singularidade do solo anglo-saxónico neste âmbito. É estimulante a revisitação que nos propõe de Emerson, de Lear e de Eliot, entre muitos outros. Confesso que não regressava há muito tempo à sensibilidade psicanalítica. Mas Phillips, com a sua irreverência teórica, pôs-me a reflectir sobre ambiguidades que, apesar de tudo, merecem ser revisitadas.

«Ele levantou-se e seguiu Jesus.». Evangelho segundo S. Mateus 9,9-13.

"Naquele tempo, Jesus ia a passar, quando viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança dos impostos, e disse-lhe: «Segue-Me». Ele levantou-se e seguiu Jesus." Reflecte sobre este passo Bento XVI na Audiência geral de 30/08/06: «Levantou-se e seguiu Jesus». A concisão da frase põe claramente em evidência a prontidão com que Mateus respondeu à chamada. Para ele, tal significava tudo abandonar, sobretudo aquilo que lhe garantia uma fonte segura de rendimentos, embora fosse desonrosa e muitas vezes injusta. Mateus compreendeu que a intimidade com Jesus o impedia de manter uma actividade desaprovada por Deus. Facilmente se tira daqui uma lição para o presente: também hoje é inadmissível o apego a coisas incompatíveis com a caminhada de seguir Jesus, como é o caso das riquezas desonestas. Ele próprio o disse sem rodeios: «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis, dá-o aos pobres e terás um tesouro nos céus. Depois vem e segue-Me» (Mt,19,21). Foi o que fez Mateus: «Levantou-se e seguiu Jesus». Neste «levantou-se», conseguimos ler um nítido repúdio pela situação de pecado e simultaneamente a adesão consciente a uma existência nova, recta, em comunhão com Jesus. Recordemos que a tradição da Igreja atribui unanimemente a Mateus a paternidade do primeiro Evangelho. Já Papias, bispo de Hierápoles, na Frígia, o tinha dito, cerca do ano 130: «Mateus verteu as palavras [do Senhor] em língua hebraica, e cada um as interpretou como podia» (Eusébio de Cesareia, «Hist. Ecl.» III, 39, 16). O historiador Eusébio acrescenta esta informação: «Mateus, que primeiro pregara entre os judeus, quando a certa altura decidiu ir também evangelizar outros povos, escreveu na língua materna o Evangelho que anunciava; procurou deste modo recompensar aqueles de quem se separava, substituindo pela escrita o que perdiam com a sua partida» (III, 24, 6). Já não possuímos o Evangelho escrito por Mateus em hebraico ou aramaico, mas no Evangelho grego que chegou até nós continuamos a ouvir, de alguma maneira, a voz persuasora do publicano Mateus, que, tornado apóstolo, continua a anunciar-nos a misericórdia salvífica de Deus, e escutamos essa mensagem, nela meditando sempre de novo, para aprendermos, também nós, a levantarmo-nos e a seguir Jesus com determinação.