quarta-feira, 19 de abril de 2017

"Posto avançado do progresso"

Quem ainda não viu, tem hoje uma oportunidade no Monumental. By the way, sei que não está na moda, mas que tal reler "A selva", de Ferreira de Castro?

A propósito do filme de Julien Salmani

impulsionado pelo texto homónimo de Conrad, aqui vos deixo este excerto que o filme tão bem captou:The deck was a wilderness of smashed timber, lying crosswise like trees in a wood after a hurricane; an immense curtain of soiled rags waved gently before me—it was the mainsail blown to strips. I thought, The masts will be toppling over directly; and to get out of the way bolted on all-fours towards the poop-ladder. The first person I saw was Mahon, with eyes like saucers, his mouth open, and the long white hair standing straight on end round his head like a silver halo. He was just about to go down when the sight of the main-deck stirring, heaving up, and changing into splinters before his eyes, petrified him on the top step. I stared at him in unbelief, and he stared at me with a queer kind of shocked curiosity. I did not know that I had no hair, no eyebrows, no eyelashes, that my young mustache was burnt off, that my face was black, one cheek laid open, my nose cut, and my chin bleeding. I had lost my cap, one of my slippers, and my shirt was torn to rags. Of all this I was not aware. I was amazed to see the ship still afloat, the poop-deck whole—and, most of all, to see anybody alive. Also the peace of the sky and the serenity of the sea were distinctly surprising. I suppose I expected to see them convulsed with horror. . . . Pass the bottle. Repararam na última palavra? Horror, claro. Uma antecipação das derradeiras palavras de Kurtz em Heart of Darkness. Concluindo, não percam o filme. Quanto ao texto, é de fácil acesso online.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Antes da ceia em Emaús

como Caravaggio a concebeu, houve o encontro na estrada que São Gregório Magno (c. 540-604), papa, doutor da Igreja, na Homilia 23 sobre o Evangelho, assim interpretou: Ora, a Verdade caminhava com eles; não podiam pois continuar estranhos ao amor: ofereceram-Lhe hospitalidade, propondo-Lhe que pernoitasse com eles, como se costuma fazer aos viajantes. Mas porque dizemos que Lho propuseram, quando está escrito: «Insistiram com Ele»? Este exemplo mostra-nos bem que não devemos apenas oferecer hospitalidade aos viajantes, mas fazê-lo com insistência. Os discípulos puseram a mesa, ofereceram da sua ceia; e, não tendo reconhecido a Deus quando da sua explicação da Sagrada Escritura, eis que O reconhecem agora, na fracção do pão. Não foi pois ao escutar os mandamentos de Deus que ficaram iluminados, mas ao pô-los em prática.

segunda-feira, 27 de março de 2017

And now...

The "real thing", eg, Edgar Allan Poe´s Fall of the House of Usher:

Um eco fílmico de Poe?

A casa onde habita a simpática mãe de Norman Bates em Psycho, de Alfred Hitchcock:

Um eco pictórico de Poe?

House by the Railroad, de Edward Hopper:

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A propósito da (des)estruturação, eis

os parágrafos iniciais de Fugindo de todos os fogos, de António Ferra; ou como pode haver elegância na enunciação da (aparente) banalidade: "Toda a documentação estava organizada por ordem alfabética em ficheiros. Eram gavetas metálicas enormes, com cavaleiros a indicar a respectiva letra. Se procurasse, por exemplo, inocência, ia à letra i onde,depois de incêndio e antes de inocuidade, encontrava incentivo para tudo registar numa tábua rasa que guardava num canto da sala de trabalho.// À medida que os assuntos invadiam aquele espaço de cem metros quadrados, eu tinha de arranjar lugar para as palavras que se acumulavam, dispersas pelos mais variados lugares. Esta catalogação era uma tarefa minuciosa, mas simpática, que me trazia realização pessoal, pois convivia directamente com definições e conceitos úteis para a minha vida.// Algumas entradas tinham apenas a palavra em causa, mas depois havia um vazio..."

Porque Hugo Williams é um dos poetas

aos quais regresso amiúde, partilho convosco a intensidade dos sentidos e da memória de "Siren Song": "I phone from time to time, to see if she’s/ Changed the music on her answerphone./ 'Tell me in two words,' goes the recording,/ 'what you were going to tell in a thousand.'// I peer into that thought, like peering out/ To sea at night, hearing the sound of waves/ Breaking on rocks, knowing she is there,/ Listening, waiting for me to speak.// Once in a while she’ll pick up the phone/ And her voice sings to me out of the past./ The hair on the back of my neck stands up/ As I catch her smell for a second."

Felicidade e procura, segundo Santo Agostinho:

Todos os homens querem ser felizes; não há ninguém que não o queira, e com tanta intensidade que o deseja acima de tudo. Melhor ainda: tudo o que querem para além disso querem-no para isso. Os homens perseguem paixões diferentes, um esta, outro aquela; também existem muitas maneiras de ganhar a vida neste mundo: cada um escolhe a sua profissão e exerce-a. Mas quer adotem este ou aquele género de vida, todos os homens agem para serem felizes. [...] O que há então nesta vida capaz de nos fazer felizes, que todos desejam mas que nem todos alcançam? Procuremo-lo. [...]

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mais um lugar imaginário

Torre da Barbela – Dir-se-á que o lugar efectivamente existe. Comprová-lo-ão as peregrinações dos amigos de Ruben, às quais não terão faltado as devidas e peculiares assombrações, como um dia relatou Guilherme d’Oliveira Martins. Mas nem elas puderam testemunhar os encontros que, ao cair da noite, animam o outrora próspero condado da Barbela; recorde-se que [n]a embaixada que D. Manuel mandou ao papa Leão X ia a carroça típica, carregada das especialidades do condado da Barbela… Quando emergem as personagens que, ao longo dos séculos testemunharam a nossa História, de imediato reconhecemos a nossa identidade: a nostalgia que irremediavelmente nos prende a um passado perdido e que faz com que … as pessoas fal[e]m todas da véspera…; o nosso reconhecido impulso para o improviso (Nós improvisamos e aí é que somos geniais.); a reiterada incapacidade de reconhecer a nossa verdadeira dimensão (… Notre-Dâme, um pouco maior que a da Moutosa onde havia sermões de sete horas sem interrupção.); uma sensibilidade que nos torna, reconheça-se, fascinantes e que se projecta nesses … versos simples que atravessam a história cantando um lirismo tranquilo e saudoso. Tudo isso Ruben A. viu e descreveu com superior sentido de humor nesta obra que continua a ser um dos mais belos auto-retratos deste lugar em que vivemos e daquilo que somos. (Ruben A. A Torre da Barbela, 1964)

Dicionário de Lugares Imaginários

Eis um dos lugares imaginários que referi quando, há uns anos, o Jornal de Letras me pediu uma contribuição sobre este tópico:Ecotopia – Em 1981, uma guerra de secessão leva à separação da Califórnia, de Washington e do Oregon dos Estados Unidos da América. No novo país que dá pelo nome de Ecotopia , e que, segundo Joel Barlow, faz fronteira com os loci culturais Mexamerica e Empty Quarter (por nós conhecido por Midwest), predomina uma sociedade onde ecologia, socialismo (devedor da Revolução Cultural Chinesa) e feminismo convergem para dar corpo à desejada utopia. Ernest Callenbach descreve da seguinte forma os seus habitantes: … muitos ecotopianos assemelhavam-se aos antigos habitantes do Oeste … como se fossem personagens da Corrida ao Ouro renascidas … frequentemente estranhas, mas não com um ar louco ou sórdido como o dos hippies dos anos sessenta. Por seu turno, a concepção do espaço urbano evoca alguns dos momentos mais visionários de Hundertwasser; veja-se Market Street em S. Francisco: Nesta avenida principal podem-se ver séries de pequenas e encantadoras cascatas, com água caindo, e canais com pedras, árvores bambus, sebes. Afinal, onde se poderia pensar a utopia na América, senão sempre mais a Oeste? (Ernest Callenbach, Ecotopia, 1975; Joel Barlow, The Nine Nations of North America, 1981)

Uma sugestão

Foi inaugurada há dias, na Fundação D. Luís, uma exposição que recomendo. Tem como mote "Roque Gameiro, uma família de artistas", abarca diferentes gerações e estende-se por vários andares do edifício do Centro Cultural de Cascais. Para além das nem sempre claras interacções familiares, admiro, em particular, as aguarelas do Mestre, os detalhes na representação do espaço.