sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O musical do Uncle Bob

O dramaturgo e encenador irlandês Conor McPherson foi, há algum tempo, contactado por alguém próximo de Bob Dylan, inquirindo-o se estaria interessado em conceber um musical a partir dos textos do poeta. A resposta foi imediata e positiva. Passaram algumas semanas, chegou a sua casa uma caixa com todos os cds de Dylan e uma nota: "Pode utilizar as músicas que quiser, como quiser." E foi assim que nasceu o musical Girl from the North Country, um duplo revisitar do passado - o colectivo (os anos da Depressão) e o individual (o cenário de juventude de Dylan - Duluth, lá bem no norte do Minnesota, num limite dos Grandes Lagos)-, sob o signo de Steinbeck e McCullers. Diz quem viu que a escolha dos textos resultou numa continuidade coerente, sem recurso à facilidade das melodias mais conhecidas, como Like a Roling Stone que, qual fantasma, desponta apenas. Está no Old Vic e, ao que parece, o uncle Bob ainda não terá passado por lá. But... who cares?

"Daqui, deste deserto em que persisto,"

recordo, de memória, este verso de António Ramos Rosa. Talvez a propósito, aqui ficam outras palavras, as de Santo Euquério (?-c. 450), bispo de Lyon, no seu "Elogio do deserto": Será necessário acrescentar que só chegaram à terra dos seus sonhos após a permanência no deserto? Para que o povo entrasse um dia na posse da terra onde corria leite e mel, teve primeiro de passar por locais áridos e não cultivados. É sempre através do acampamento no deserto que nos encaminhamos para a verdadeira pátria. Quem quer «vir a contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos» [Sl 27,13] deve habitar uma região inabitável. Quem quer tornar-se cidadão dos céus deve fazer-se hóspede do deserto.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Está para breve

a publicação de mais um livro meu, desta feita sobre a relação entre poesia e artes visuais. Será editado pela Imprensa Nacional, e apresentado pelos Professores Isabel Pires de Lima e Vítor Serrão. Quando a data estiver acordada, aviso neste espaço. Para já, aqui fica a capa.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Este lugar, este tempo...

"Si nous vivons dans ce monde, ce n'est pas pour être libres ou heureux. L'existence humaine a un but très différent. Nous vivons pour nous battre et gagner cette bataille avec nous-mêmes. Gagner et perdre à la fois. Et comprenez-le bien, nous ne savons jamais avec certitude si nous avons gagné, même si nous en avons l'impression. Comment le saurions-nous en effet? Personne ne peut savoir une telle chose. Et c'est cela qui est absurde." Andrei Tarkovski

Histórias aos quadradinhos

Os amantes da BD não devem perder esta exposição comissariada por José de Matos-Cruz, patente na Cidadela, em Cascais. A abertura foi uma oportunidade para rever um dos meus heróis, o José Garcês (na segunda foto), que foi um dos melhores amigos do meu pai, e que me conhece desde o início desta passagem. Foi também uma oportunidade para conhecer outro dos meus heróis, o Vítor Mesquita (lembram-se da Visão?) que podem ver na foto com o Matos-Cruz. Aqui fica a informação e o registo, nomeadamente dos ecos visuais de Metropolis numa prancha.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Na edição dos Cahiers du Cinéma de

Fevereiro de 1987 surgia esta fotografia a preto e branco, com a legenda "Le três bel Adieu Portugais de Joao [sem acento, pois] Botelho, presente à Belford, qui sort le mois prochain à Paris". É, de facto, um belo filme... um dos mais belos filmes do cinema português.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Cuidado!

Impróprio para cardíacos: Domiziana Giordano e Alain Delon em "Nouvelle Vague". De quem? Jean-Luc Godard, evidentemente. O princípio do fim do século vinte: 1990. Bom fim de semana.

Para quem possa interessar

Cascais, no final do mês.

Breve tributo

Figura tutelar dos Estudos Americanos entre nós, com um reconhecimento internacional ímpar, Maria Irene Ramalho foi ontem objecto de homenagem na Faculdade de Letras de Coimbra. (Parabéns Isabel Caldeira, Graça Capinha e Jacinta Matos, pela iniciativa e pelo belo livro que organizaram!) A sala onde decorreu o evento, alberga cerca de dez mil livros do legado de Silva Dias. Um sinal da relevância da tradição na Universidade? Uma boa escolha, portanto. Ali estiveram discípulos e/ou colegas, da sua instituição e de muitas outras por esse país fora, jovens alunos, funcionários, para assim lhe dizerem da sua gratidão por os seus caminhos se terem cruzado com o dela. Eu, que tive o privilégio de ser interpelado pela sua inteligência e demolidor sentido de humor, desde os já remotos tempos do mestrado, em particular, na sua arguição da minha dissertação, à sua arguição do meu relatório nas provas de agregação... da sua presença no meu júri de doutoramento... do concurso para professor associado... e do concurso para catedrático... sou apenas um entre muitos que sentem essa gratidão. A ela se aplicam as suas palavras finais na cerimónia: MUITO OBRIGADO ("em letras muito grandes"), Maria Irene.

Memórias

Foi no dia 5 de Maio de 1993: o meu doutoramento. Uma aluna, clandestinamente, gravou as provas. Um amigo digitalizou agora o Vhs, e eu pude relembrar aquelas duas horas. Este é momento em que o jovem Joaquim Manuel Magalhães estava a intervir para confidenciar ter percebido por que razão não gostava de Plath: "porque ela fazia campismo." E a jovem Maria Irene Ramalho desfez-se a rir, ocultando o rosto com as mãos, como podereis ver na foto acima. Já lá vão vinte e quatro anos. À direita do vice-reitor está o jovem António M. Feijó, e, ainda mais à direita (suprema ironia!), o jovem Manuel Gusmão.

A isto chama-se "wit":

Perante a pergunta de Truffaut se a educação católica, culpabilidade e sentido de pecado tinham sido importantes para a concepção de "I confess", Hitchcock retorquiu: "Comment pouvez-vous dire une chose pareille? Mes films représentent toujours un homme innocent dans un monde coupable."

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Twins Peaks. Em Julho/Agosto de 1991

Vincent Ostria escrevia o seguinte a propósito de Twin Peaks. Com a nova série, persiste, pertinente, o olhar: ... tout le contraire d'un film d'action: les déplacements les plus notables qui s'y déroulent sont d'ordre psychique. Car le psychisme et ses aberrations sont le sujet même de Twin Peaks. Les jeux mentaux à l'oeuvre dans ce feuilleton mènent, au bout de compte, à la poésie et à l'abstraction qui le rendent si attachant. Une poésie noire, édifiée sur la dégradation morale et la perversion.

A propósito da personagem Michael Corleone

, o ponto de vista de Coppola numa entrevista aos Cahiers em Abril de 1991: ... Michael est un personnage de tragédie, condamné. Mais ce qu'il y a d'ironique c'est que son erreur tragique est la suivante: il veut être bon. S'il n'avait pas voulu rentrer dans la légalité, il aurait pu s'en sortir ... On ne peut pas devenir bon dans un monde où le pouvoir est corrompu: et c'est ce qui le condamne à ce destin tragique. C'est un peu comme une tragédie classique.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Ao reler velhos textos

para um livro "in progress", deparei-me com este comentário do realizador francês Yann Gonzalez a propósito deste plano de "Inferno", de Dario Argento. Leiam e digam lá se ele não tem razão? "Elle est sublime, un rien vulgaire. Les yeux perçants. Elle porte une robe de soirée et caresse un gris chat. Elle est étrangère au récit, au décor ... C'est le cinéma et lui seulement qui l'envoie. ...une apparition absurde, sexuée, le promesse d'un monde où je pourrais me réfugier en tremblant. Un monde de magie et de mort qui tiendrait tout entier dans le visage d'une femme."

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Ainda o silêncio

Muito se falou e se disse a propósito do Silêncio e do seu significado a partir do filme de Scorcese. Deixo-vos aqui este breve apontamento sobre este tópico, colhido em Encounters with Silence, do teólogo jesuíta Karl Rahner: "Every time I try to pray, I am doomed to wander in the barren wastes of my own emptines, since I have left the world behind, and still cannot find my way into the true sanctuary of my inner self, the only place where You can be found and adored. (...) This awful quiet is the sole result of my futile efforts at prayer, since I deliberately shut out the noises of the world, and yet I an still hopelessly deaf to the eloquent sounds of Your silence."

Rua da Vergonha

é o nome do filme de Mizoguchi que acabo de ver no Nimas. Recordo que, nesta fase, até ao final de Maio, para além de Rua da Vergonha, poderemos ver A senhora Oyu e A imperatriz Yang Kwei-Fei. A propósito de Rua da Vergonha, volto a citar Bénard da Costa: "Neste filme em que não há uma cena de amor físico (apenas aquele reflexo de corpo nu naquele assombroso décor da casa de banho) tudo é erótico, porque é mortal. Ficamos-nos dele os corpos verticais das mulheres mais profundamente amadas - nunca houve 'cineasta de mulheres' como Mizoguchi - e a posição rasteira ou titubeaste dos homens mais mal tratados da história do cinema." Não percam!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Ciclo Mizoguchi no Nimas - A não perder

Sobre este filme escreveu João Bénard da Costa: “Pessoalmente, sustento que Os amantes crucificados é a obra-prima de Mizoguchi e um dos cinco ou seis maiores filmes da história do cinema, talvez até uma das cinco ou seis obras maiores da história da criação artística... Em metáforas ocidentais, Os amantes crucificados começa em comédias de engano e acaba em Tristão e Isolda. Passa pela luz de Vermeer, atinge a de Rembrandt (quem, senão ele, 'pintou' as sequências na cabana ao pé da casa do pai, os fenos e a luz dessa última aurora?) e termina numa das grandes Paixões renascentistas, quando nada mais se sublinha que o insublinhável.” De assinalar o catálogo que acompanha este ciclo, no qual pontua o olhar atento e culto de Bénard da Costa, como este breve passo tão bem identifica.

Uma reflexão fascinante sobre o exercício da crítica

Refiro-me a Uma aproximação à estranheza, de Frederico Pedreira, obra que recebu o prémio de ensaio Vasco Graça Moura, da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Com as devidas adaptações, talvez a este autor se possa aplicar aquilo que ele escreve a propósito de Mathew Arnold: "Arnold apresenta esta ideia como algo muito distante daquilo que é a crítica inglesa da sua época, uma crítica que assume propósitos e motivações exteriores aos objectos da sua atenção, com fins práticos delimitados por necessidades também elas práticas, não sendo assim fruto de uma vontade de se aproximar do melhor que é conhecido e pensado no mundo, 'independentemente de costumes, políticas e de tudo o que pertence a essas categorias.'" (p. 48)

A não perder

Paraíso, uma abordagem de profunda intensidade estética dos horrores do nazismo por parte do realizador russo Andrei Konchalóvskii. A não perder!

Caminhos

Precisamos de alimento para o caminho. Os nossos dias são abreviados com os ritmos rápidos e frenéticos em que vivemos. E só quando paramos, só quando nos detemos somos capazes de contemplar, com a largueza do nosso olhar, a beleza, a imensidão e a exigência que a nossa vida representa. Detém-te, hoje, neste olhar, e pede o único pão que te alimenta para o teu longo caminhar.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

"Posto avançado do progresso"

Quem ainda não viu, tem hoje uma oportunidade no Monumental. By the way, sei que não está na moda, mas que tal reler "A selva", de Ferreira de Castro?

A propósito do filme de Julien Salmani

impulsionado pelo texto homónimo de Conrad, aqui vos deixo este excerto que o filme tão bem captou:The deck was a wilderness of smashed timber, lying crosswise like trees in a wood after a hurricane; an immense curtain of soiled rags waved gently before me—it was the mainsail blown to strips. I thought, The masts will be toppling over directly; and to get out of the way bolted on all-fours towards the poop-ladder. The first person I saw was Mahon, with eyes like saucers, his mouth open, and the long white hair standing straight on end round his head like a silver halo. He was just about to go down when the sight of the main-deck stirring, heaving up, and changing into splinters before his eyes, petrified him on the top step. I stared at him in unbelief, and he stared at me with a queer kind of shocked curiosity. I did not know that I had no hair, no eyebrows, no eyelashes, that my young mustache was burnt off, that my face was black, one cheek laid open, my nose cut, and my chin bleeding. I had lost my cap, one of my slippers, and my shirt was torn to rags. Of all this I was not aware. I was amazed to see the ship still afloat, the poop-deck whole—and, most of all, to see anybody alive. Also the peace of the sky and the serenity of the sea were distinctly surprising. I suppose I expected to see them convulsed with horror. . . . Pass the bottle. Repararam na última palavra? Horror, claro. Uma antecipação das derradeiras palavras de Kurtz em Heart of Darkness. Concluindo, não percam o filme. Quanto ao texto, é de fácil acesso online.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Antes da ceia em Emaús

como Caravaggio a concebeu, houve o encontro na estrada que São Gregório Magno (c. 540-604), papa, doutor da Igreja, na Homilia 23 sobre o Evangelho, assim interpretou: Ora, a Verdade caminhava com eles; não podiam pois continuar estranhos ao amor: ofereceram-Lhe hospitalidade, propondo-Lhe que pernoitasse com eles, como se costuma fazer aos viajantes. Mas porque dizemos que Lho propuseram, quando está escrito: «Insistiram com Ele»? Este exemplo mostra-nos bem que não devemos apenas oferecer hospitalidade aos viajantes, mas fazê-lo com insistência. Os discípulos puseram a mesa, ofereceram da sua ceia; e, não tendo reconhecido a Deus quando da sua explicação da Sagrada Escritura, eis que O reconhecem agora, na fracção do pão. Não foi pois ao escutar os mandamentos de Deus que ficaram iluminados, mas ao pô-los em prática.

segunda-feira, 27 de março de 2017

And now...

The "real thing", eg, Edgar Allan Poe´s Fall of the House of Usher:

Um eco fílmico de Poe?

A casa onde habita a simpática mãe de Norman Bates em Psycho, de Alfred Hitchcock:

Um eco pictórico de Poe?

House by the Railroad, de Edward Hopper:

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A propósito da (des)estruturação, eis

os parágrafos iniciais de Fugindo de todos os fogos, de António Ferra; ou como pode haver elegância na enunciação da (aparente) banalidade: "Toda a documentação estava organizada por ordem alfabética em ficheiros. Eram gavetas metálicas enormes, com cavaleiros a indicar a respectiva letra. Se procurasse, por exemplo, inocência, ia à letra i onde,depois de incêndio e antes de inocuidade, encontrava incentivo para tudo registar numa tábua rasa que guardava num canto da sala de trabalho.// À medida que os assuntos invadiam aquele espaço de cem metros quadrados, eu tinha de arranjar lugar para as palavras que se acumulavam, dispersas pelos mais variados lugares. Esta catalogação era uma tarefa minuciosa, mas simpática, que me trazia realização pessoal, pois convivia directamente com definições e conceitos úteis para a minha vida.// Algumas entradas tinham apenas a palavra em causa, mas depois havia um vazio..."

Porque Hugo Williams é um dos poetas

aos quais regresso amiúde, partilho convosco a intensidade dos sentidos e da memória de "Siren Song": "I phone from time to time, to see if she’s/ Changed the music on her answerphone./ 'Tell me in two words,' goes the recording,/ 'what you were going to tell in a thousand.'// I peer into that thought, like peering out/ To sea at night, hearing the sound of waves/ Breaking on rocks, knowing she is there,/ Listening, waiting for me to speak.// Once in a while she’ll pick up the phone/ And her voice sings to me out of the past./ The hair on the back of my neck stands up/ As I catch her smell for a second."

Felicidade e procura, segundo Santo Agostinho:

Todos os homens querem ser felizes; não há ninguém que não o queira, e com tanta intensidade que o deseja acima de tudo. Melhor ainda: tudo o que querem para além disso querem-no para isso. Os homens perseguem paixões diferentes, um esta, outro aquela; também existem muitas maneiras de ganhar a vida neste mundo: cada um escolhe a sua profissão e exerce-a. Mas quer adotem este ou aquele género de vida, todos os homens agem para serem felizes. [...] O que há então nesta vida capaz de nos fazer felizes, que todos desejam mas que nem todos alcançam? Procuremo-lo. [...]

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mais um lugar imaginário

Torre da Barbela – Dir-se-á que o lugar efectivamente existe. Comprová-lo-ão as peregrinações dos amigos de Ruben, às quais não terão faltado as devidas e peculiares assombrações, como um dia relatou Guilherme d’Oliveira Martins. Mas nem elas puderam testemunhar os encontros que, ao cair da noite, animam o outrora próspero condado da Barbela; recorde-se que [n]a embaixada que D. Manuel mandou ao papa Leão X ia a carroça típica, carregada das especialidades do condado da Barbela… Quando emergem as personagens que, ao longo dos séculos testemunharam a nossa História, de imediato reconhecemos a nossa identidade: a nostalgia que irremediavelmente nos prende a um passado perdido e que faz com que … as pessoas fal[e]m todas da véspera…; o nosso reconhecido impulso para o improviso (Nós improvisamos e aí é que somos geniais.); a reiterada incapacidade de reconhecer a nossa verdadeira dimensão (… Notre-Dâme, um pouco maior que a da Moutosa onde havia sermões de sete horas sem interrupção.); uma sensibilidade que nos torna, reconheça-se, fascinantes e que se projecta nesses … versos simples que atravessam a história cantando um lirismo tranquilo e saudoso. Tudo isso Ruben A. viu e descreveu com superior sentido de humor nesta obra que continua a ser um dos mais belos auto-retratos deste lugar em que vivemos e daquilo que somos. (Ruben A. A Torre da Barbela, 1964)

Dicionário de Lugares Imaginários

Eis um dos lugares imaginários que referi quando, há uns anos, o Jornal de Letras me pediu uma contribuição sobre este tópico:Ecotopia – Em 1981, uma guerra de secessão leva à separação da Califórnia, de Washington e do Oregon dos Estados Unidos da América. No novo país que dá pelo nome de Ecotopia , e que, segundo Joel Barlow, faz fronteira com os loci culturais Mexamerica e Empty Quarter (por nós conhecido por Midwest), predomina uma sociedade onde ecologia, socialismo (devedor da Revolução Cultural Chinesa) e feminismo convergem para dar corpo à desejada utopia. Ernest Callenbach descreve da seguinte forma os seus habitantes: … muitos ecotopianos assemelhavam-se aos antigos habitantes do Oeste … como se fossem personagens da Corrida ao Ouro renascidas … frequentemente estranhas, mas não com um ar louco ou sórdido como o dos hippies dos anos sessenta. Por seu turno, a concepção do espaço urbano evoca alguns dos momentos mais visionários de Hundertwasser; veja-se Market Street em S. Francisco: Nesta avenida principal podem-se ver séries de pequenas e encantadoras cascatas, com água caindo, e canais com pedras, árvores bambus, sebes. Afinal, onde se poderia pensar a utopia na América, senão sempre mais a Oeste? (Ernest Callenbach, Ecotopia, 1975; Joel Barlow, The Nine Nations of North America, 1981)

Uma sugestão

Foi inaugurada há dias, na Fundação D. Luís, uma exposição que recomendo. Tem como mote "Roque Gameiro, uma família de artistas", abarca diferentes gerações e estende-se por vários andares do edifício do Centro Cultural de Cascais. Para além das nem sempre claras interacções familiares, admiro, em particular, as aguarelas do Mestre, os detalhes na representação do espaço.