segunda-feira, 19 de setembro de 2016

The Light of the World (1851–3), de William Holman Hunt

Evangelho segundo S. Lucas 8,16-18: Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «Ninguém acende uma lâmpada para a cobrir com uma vasilha ou a colocar debaixo da cama, mas coloca-a num candelabro, para que os que entram vejam a luz. Não há nada oculto que não se torne manifesto, nem secreto que não seja conhecido à luz do dia. Portanto, tende cuidado com a maneira como ouvis. Pois àquele que tem, dar-se-á; mas àquele que não tem, até o que julga ter lhe será tirado». Comentário de São Cromácio de Aquileia (?-407): "O Senhor chama aos seus discípulos «luz do mundo» (Mt 5, 4) porque, iluminados por Ele, que é a luz eterna e verdadeira (Jo 1,9), eles próprios se tornam uma luz no meio das trevas. Porque Ele é o «Sol da justiça» (Mal 3,20), o Senhor pode chamar aos seus discípulos «luz do mundo»: é por meio deles que irradia sobre o mundo inteiro a luz da sua própria ciência. [...] Iluminados por eles, também nós passámos das trevas à luz, como diz o Apóstolo: «Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; vivei como filhos da luz» (Ef 3,8). E noutro passo: «Não sois filhos da noite nem das trevas, mas sois filhos da luz e filhos do dia» (1Tess 5,5). Com razão diz também S. João na sua primeira epístola: «Deus é luz» (1,5); e «quem permanece em Deus está na luz» (1,7). [...] Portanto, uma vez que temos a felicidade de estar libertos das trevas do erro, devemos andar sempre na luz, como filhos da luz que somos. [...] Por isso diz o Apóstolo: «Vós brilhais entre eles como estrelas no mundo, ostentando a palavra da vida» (Tess 2,15). [...] Aquela lâmpada resplandecente, que foi acesa para nossa salvação, deve brilhar sempre em nós. [...] Por isso é nosso dever não ocultar esta lâmpada da lei e da fé, mas colocá-la sempre no candelabro da Igreja para salvação de todos, a fim de nós próprios gozarmos da luz da sua verdade, e de com ela serem iluminados todos os crentes."

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Perceber como não nos percebem (ou uma leitura de “O Nascimento de uma Nação” de Mário Avelar - sem Playmobil incluído) - parte II

Texto da autoria de Tiago Cavaco: "Não é possível querer ser um evangélico português com alguma capacidade de auto-reflexão sem perceber de puritanismo. E com isto não sugiro que temos de ter diplomas em história da religião para sermos competentes no exercício da nossa fé (o que nos torna competentes no exercício da nossa fé é o Espírito Santo). Simplesmente limito-me a reconhecer o óbvio, que é perceber um pouco do passado para termos a ideia que as coisas não caíram dos ceús aos trambolhões. Ao contrário do que hoje acontece em largas regiões do evangelicalismo, a fé reformada nunca sugeriu desligar-se da história para viver um cristianismo mais puro (como se os outros que nos antecederam fossem uns ímpios, e nós fôssemos uns iluminados). Logo, o desafio para um cristão evangélico português é assumir humildemente que viver a sua fé com profundidade pode passar por reconhecer as origens estrangeiras da tradição religiosa a que pertencemos. Frequentemente os cristãos evangélicos portugueses são como adolescentes em busca da sua personalidade, convictos de que quanto mais diferentes forem dos progenitores, melhor. Por isso mesmo, um dos sonhos teen típicos dos cristãos evangélicos portugueses é o de um cristianismo evangélico tipicamente português. Desculpem colocar as coisas de uma forma tão radical, mas no dia em que descobrirem um cristianismo evangélico português avisem-me que emigro para Espanha. Mantendo ainda as coisas em termos curtos e grossos: se queres um cristianismo tipicamente português, ele já existe há mais tempo que existe Portugal e chama-se catolicismo romano. Evangélicos adolescentes: enxerguem-se e cresçam. Ser um cristão evangélico português com uma relação saudável com a sua fé é viver em harmonia com o facto de se pertencer a uma tradição religiosa que é sobretudo de travo anglo-saxónico. Com se diz lá nas terras deles: deal with it. Isso quer dizer que somos obrigados a piorar o sentimento de estranheza que a maior parte dos portugueses tem connosco? De modo algum. Simplesmente quer dizer que estamos em paz com o factor mais importante da nossa fé não ser o conforto que sentimos com a história da nossa tradição religiosa, e quer dizer que estamos em paz com o facto da nossa tradição religiosa ter efectivamente uma história pouco ou nada portuguesa. Gente adulta tende a saber viver conciliada com a sua história. Sim, somos estrangeirados - e daí? Logo, esta minha longa queixa é apenas para vos dizer que às vezes o melhor modo de percebermos quão abençoadamente esquisitos podemos ser é ler essa esquisitice na pena de outros. Ora, ler o Mário Avelar falando sobre literatura americana é perceber que não há Estados Unidos da América sem os puritanos. Um evangélico português que lê o Mário Avelar é ajudado a perceber que aquilo que faz dele esquisito em Portugal, é o que faz com que os Estados Unidos sejam os Estados Unidos. Com isto não estou a dizer que os Estados Unidos são uma nação evangélica, mas estou a apenas (a ser mais um) a dizer que os Estados Unidos são uma nação nuclearmente influenciada pelos puritanos. Por outro lado, um português não-evangélico que lê o Mário Avelar acaba, ainda que por tabela, a receber uma lição sobre os evangélicos que também existem no seu país. Todos ficam a ganhar lendo o Mário Avelar (perdoem-me a quadrinha). (Continua.) [Ontem o Marcos Mateus comentava o meu texto alertando que outras denominações evangélicas em Portugal foram fruto do trabalho missionário de outros países, como a Escócia e a Inglaterra no caso das chamadas Igrejas dos Irmãos, e não dos Estados Unidos. Sem dúvida. Podíamos também mencionar os suecos e as Assembleias de Deus, para termos mais um exemplo (ou os suíços e a Acção Bíblica, e por aí fora). O ponto fundamental da minha argumentação não contesta as origens missionárias de outros países. O ponto fundamental da minha argumentação, e que será mais visível na terceira e última parte deste texto é que, mesmo quando a influência missionária protestante não foi directamente americana, a cultura evangélica que é recebida e desenvolvida em Portugal é decididamente influenciada pela cultura americana. Isto porque a cultura americana é nos Séculos XIX e XX (e sobretudo XX) aquela que representa o lugar onde o movimento evangélico, ainda que tendo manifestações plurais pelo mundo fora, foi mais fértil e capaz de ser exportado para outros lugares.]"

terça-feira, 14 de junho de 2016

Palavras finais da minha intervenção

na segunda conferência da John Dos Passos Society, a propósito da iconografia em The Portugal Story: "... the visual syncretism of this shield somehow mirrors Portuguese attitude towards the Other and the tendency to miscegenation, to immersion and assimilation of alien cultures. We may be leaving today in the legacy of these narratives, of these galleries of heroes who in their deeds and in their cruelties helped building a specific presence in the world. In this post-modern hybrid text mixing subjective perceptions and History, fact and personal insight, narrative and collage, John Dos Passos seems to be finding his own legacy. This is the reason why, I think, he stopped telling his story when the Portuguese strategic agenda decreed that we should stop leaving. We kept on leaving but then there was no design, only an escape, the search for a better living."

terça-feira, 17 de maio de 2016

Seguir o último de todos e o servo de todos

"Meu amigo, tomemos a aparência daquele que nos deu a vida. Ele, que era rico, empobreceu-Se a Si mesmo. Ele, que estava colocado no alto, desceu da sua grandeza. Ele, que habitava nas alturas, não tinha onde reclinar a cabeça. Ele, que há-de vir sobre as nuvens, montou um jumento para entrar em Jerusalém. Ele, que é Deus e Filho de Deus, tomou a aparência de servo. Ele, que é o repouso para todos os trabalhos, fatigou-Se com os incómodos do caminho. Ele, que é a fonte que estanca a sede, teve sede e pediu água para beber. Ele, que é a saciedade que satisfaz a nossa fome, teve fome quando jejuou no deserto e foi tentado. Ele, que vela e nunca dorme, deitou-Se e adormeceu num barco no meio do mar. Ele, que é servido na tenda de seu Pai, deixou-Se servir pelas mãos dos homens. Ele, que é o médico de todos os doentes, viu as suas mãos perfuradas pelos cravos. A Ele, cuja boca anunciava coisas boas, deram a beber fel. Ele, que não tinha feito mal a ninguém, foi açoitado e suportou ultrajes. Ele que tinha feito viver os mortos, entregou-Se a Si mesmo à morte na cruz. Sendo nosso vivificador, Ele próprio experimentou todos estes abaixamentos; abaixemo-nos nós também, meus amigos." Afraates (270?-c. 345), monge e bispo de Nínive, As Exposições, n.º 6

terça-feira, 10 de maio de 2016

O silêncio, segundo Gianfranco Ravasi

"O silêncio é mansidão quando não respondes às ofensas e deixas a Deus a tua defesa. O silêncio é paciência quando sofres sem te lamentares, não procuras consolações humanas, esperas que a semente germine. O silêncio é humildade quando calas para deixar emergir os irmãos e deixas aos outros a glória do feito. O silêncio é fé quando não procuras compreensão e renuncias à glória pessoal porque te basta ser conhecido por Deus. Assim escrevia em 1581 S. João da Cruz, grande místico e escritor espanhol. O seu canto do silêncio conjuga-se bem com a "mística" que - como na palavra "mistério" - tem na raiz um verbo grego que significa "calar". Não é preciso acrescentar muito sobre este tema, tão marginalizado no tempo em que vivemos, marcado por um excesso de falatório, rumor e fatuidade exterior. Gostaria, em vez disso, de colocar o acento nas "cores" do silêncio que o santo consegue fazer brilhar. Há, antes de mais, a mansidão que emerge do calar as respostas amargas, sarcásticas, vingativas. Há a paciência que desponta desde o reprimir do lamento emitido para obter compreensão e para se tornar o centro da atenção do outro. Sofrer em silêncio é confiar só a Deus a própria dor, sabendo que Ele «as nossas lágrimas no seu odre recolhe, escrevendo-as depois no seu livro (Salmo 56, 9). O silêncio é também o ventre da humildade porque o prepotente tem sempre uma palavra a mais do que os outros e o soberbo faz ribombar a sua voz de maneira retumbante, de tal forma que ela domine e revele a grandeza de quem a emite. E, por fim, a fé é silenciosa porque é intimidade com Deus. E é belíssima a frase, de sabor paulino (leia-se Galátas 4, 9), com que João da Cruz conclui o seu louvor do silêncio: «Basta-nos ser conhecidos por Deus!»." P. [Card.] Gianfranco Ravasi In "Avvenire" (Trad.: Rui Jorge Martins) A imagem: Le silence de la neige, Fernand Khnopff | 1916

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Recomendo vivamente! Estará em exibição em breve...

Quando se reproduzem frases feitas sobre uma suposta indiferenciação cultural nos tempos que vivemos (leituras distorcidas da chamada aldeia global), sugiro esta meditação sobre a memória, a vida para além da morte, o passado, e as suas confluências. A par da sugestão deixo-vos, por isso, algumas palavras de Apichatpong Weersasethakul, o realizador, a propósito de Cemitério do Esplendor: "A arquitectura foi um caminho que me fez apreciar o espaço e também os filmes experimentais, os feitos nos Estados Unidos nos anos 60 e 70, que são muito estruturais, e isso é algo que vejo como arquitectura. Vejo um filme como uma linha de tempo e blocos de diferentes espaços, e a arquitectura foi muito importante para isso. O cinema experimental representa a liberdade de fazer filmes, o que para mim é muito importante, desde logo porque sou muito introvertido, e o cinema experimental é o contrário de se trabalhar com uma grande equipa, faz-se apenas numa câmara escura, é como pintura." "... no filme há muitas, muitas camadas de coisas que podem activar a memória ou a imaginação. O que está por baixo não se sabe ao certo. Uma informação é que é um cemitério. Mas podia ser outra coisa, como uma rede de fibra óptica. Mas por mim não sei realmente o que está por baixo, na terra."

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Leonídio Paulo Ferreira, no Diário de Notícias, a propósito do bardo

Uma trupe de marinheiros britânicos, um público de chefes africanos e um intérprete de português. Foi assim, em setembro de 1607 num navio junto à Serra Leoa, que Hamlet foi pela primeira vez encenado fora da Europa e também pela primeira vez traduzido. Lucas Fernandez, que fontes da época dizem que falava português perfeito, foi traduzindo cada frase da peça de William Shakespeare para a assistência, onde estava o seu cunhado e rei daquela parte de África. Velho amigo dos portugueses, o povo temne enviava a elite para estudar em Lisboa com os jesuítas e nem o domínio filipino afetou a aliança. "O episódio é conhecido, embora não consiga identificar um registo coevo entre nós", explica Mário Avelar, professor catedrático de Estudos Anglo-Americanos. E acrescenta: "Parece-me que é, acima de tudo, significativo por revelar a importância que Shakespeare tinha para os seus contemporâneos, e, em particular, a sua popularidade. Resta, todavia, a questão de saber que Hamlet foi exibido? Com efeito, na altura já haviam sido editadas duas versões de Hamlet, o primeiro Quarto (assim designado devido à forma como a folha era dobrada), vindo a lume em 1603, que terá sido escrito a partir da memória, eventualmente por um ator que teria participado numa encenação, e o segundo Quarto, publicado no ano seguinte, e que já revela uma extensão considerável, idêntica àquela que vemos hoje em dia serem levadas à cena. Terá sido um destes Hamlets?" O académico, em conversa com o DN, avança ainda outra hipótese: "Ou terá sido uma modelação de uma destas versões? Uma versão truncada, por exemplo?" O navio que serviu de palco foi o Red Dragon. Ia a caminho do Oriente, com o capitão William Keeling a ancorar na foz de um rio da Serra Leoa enquanto esperava que a tripulação se curasse do escorbuto e outras maleitas. Que tenha encontrado negros a falar português não deve surpreender, como nota o historiador João Paulo Oliveira e Costa, pois "os portugueses frequentavam a região há cem anos e alguns ficaram a viver lá". Contudo, não se pode falar do português na África como língua franca, quando muito era "falado nas praias frequentadas pelos portugueses". Segundo o autor de História da Expansão e do Império Português (A Esfera dos Livros, 2012), é na Ásia que se pode afirmar tal. "Ao longo do século XVI, os portugueses foram os únicos europeus que frequentaram todos os mares da Ásia. Por isso, o português tornou-se língua franca e holandeses e ingleses celebraram os primeiros tratados com Estados asiáticos em língua portuguesa." Ora é esse domínio militar e comercial de Portugal no Índico que navios como o Red Dragon, que seguia para a Indonésia, pretendiam quebrar. Numa anterior viagem, a embarcação chegou a visitar feitorias portuguesas, assistindo a combates com os cobiçosos holandeses. Será, aliás, numa batalha com a Marinha holandesa que o Red Dragon será afundado em 1619, talvez ainda com algum marinheiro dos que tinham entrado na peça sobre o príncipe dinamarquês. Navio Red Dragon foi palco de várias peças de Shakespeare como diplomacia cultural O episódio de Hamlet em África foi pioneiro mas não único e sabe--se que outras peças de Shakespeare foram encenadas em navios, quase como diplomacia cultural. Mas traduções clássicas, essas, limitaram-se de início à Europa, como sublinha Mário Avelar: "Os textos dramáticos de Shakespeare começaram a ser divulgados na Europa continental ainda em vida do autor. As primeiras traduções em alemão datam de 1624, ou seja, no ano seguinte à publicação do Primeiro Fólio, da responsabilidade de dois atores que haviam trabalhado com Shakespeare, e que consolidaria um cânone inicial. Surgiram depois as traduções francesas, já no século XVIII, o que não significa que ele não tenha continuado a ser levado à cena por essa Europa fora." Em Portugal, foi preciso esperar mais pelas traduções do bardo de Stratford-upon-Avon. Hamlet só se popularizou em finais do século XIX graças à tradução por D. Luís, como notou em recente entrevista ao DN Joanna Burke, diretora do British Council. Sobre a representação pelos marinheiros ao largo de África, Diogo Infante, que já foi Hamlet em palco, diz achar "absolutamente credível uma encenação num navio". E sublinha que "a grande vantagem do teatro é a capacidade para se transpor no tempo e no espaço". Para o ator, basta pensar na simplicidade do Globe Theater da época de Shakespeare, reconstruído em Londres, com a estrutura em madeira. Nunca se saberá como Lucas Fernandez traduziu a primeira fala de Hamlet "Who"s there?". Pode ter sido "Quem está aí?, como fez Sophia de Mello Breyner, ou "Quem vem lá?, a opção do brasileiro Péricles Eugênio da Silva Ramos . Mas é inegável que esta encenação de "Hamlet num cenário afro-português" (assim o descreve uma History in Africa publicada por Cambridge) faz parte da história do genial inglês que viveu entre 1564 e 1616 e cujos 400 anos da morte se assinalam amanhã. Como diz Mário Avelar, autor de O Essencial sobre William Shakespeare (INCM, 2012), "nunca ninguém como Shakespeare foi tão longe na capacidade de verbalizar a complexidade do ser humano, as nossas contradições, aquilo que persiste nos espaços mais recônditos do inconsciente, aquilo que nos eleva aos atos mais heroicos e que faz de nós seres desprezíveis. Falstaff, ele sintetiza toda essa generosidade, os instintos básicos, o prazer e a melancolia, também. E não posso deixar de acentuar esta palavra, verbalizar. Nunca ninguém, como ele, levou tão longe o poder da palavra, o seu poder de nos revelar".