sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Deixo-vos versos
de um "dos meus grandes", Eugenio Montale, com votos de um bom fim de semana; e, caso possam, passem pelo CCB à tarde para um evento da Diana Almeida; eu, porque ainda não tenho o dom da ubiquidade, estarei por Mafra, assistindo a outro evento, desta feita um concerto. Eis, então, "La memoria": "La memoria fu un genere letterario/ quando ancora non era nata la escritura./ Divenne pio cronaca e tradizione/ ma già puzzava di cadavere./ La memoria vivente è immemoriale,/ non sorge della mente, non vi si profonda./ Si aggiunge all'esistente come un'aureola/ di nebbia al capo. È già sfumata, è dubbio/ che ritorni. Non ha sempre memoria/ di sé."
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Nani Moretti, "Mia Madre"
Os Cahiers dedicam uma atenção muito especial a este filme no seu número mais recente. Entre os diferentes momentos/textos, muitos dos quais particularmente intensos, que podem cruzar-se com muitas das nossas experiências, memórias, ou até vivências actuais, destaco, não as palavras do realizador, mas esta pergunta/comentário que lhe fez Stéphane Delorme; deixo-a neste espaço porque amiúde é em breves comentários, e não em extensas e rebarbativas redacções, que a inteligência do olhar se desvenda: Ce qui frappe dane le film, c'est la perméabilité entre la vie, les rêves et le tournage. L'émotion n'est jamais là où on l'attend, elle passe sous forme de fluides, comme des infiltrations." (p. 10)
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
A suspensão de Keats?
Derradeiros versos de "Navidad según Giotto", de El arte de la fuga – Antología del autor, de Narcís Comadira (Madrid: Catedra Letras Hispánicas, 2015): "Todo está detenido/ en un momento eterno./ Lo miran nuestros ojos/ pasmados, y una lágrima/ se va formando, cálida,/ aquí, en el corazón de nuestro invierno." Boa semana!
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
“Habitación de hotel (Edward Hopper)”, de Martín López-Vega
Uma ekphrasis em que um quadro interfere na leitura de outro:"Llegó al hotel hace unas horas./ Dejó las maletas en una esquina/ y dio un paseo por la ciudad./ Ahora está sentada en la cama,/ casi desnuda,/ y sostiene en sus manos/ una carta que no se atreve a releer...pensando/…, en que es una pena/ no haber sido Giovanna Tornabuoni,/ y tener ese mismo rostro,/ que enamora con tan solo verlo,/ que tenía em 1488,/ cuando la pinto Ghirlandaio” (Magalhães, Joaquim Manuel. Poesia Espanhola de Agora/Poesía Española de Ahora, Lisboa: Relógio d’Água, 1997, Volume II, 984)
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Stephan Zweig, eis um escritor que recomendo
Li-o na adolescência - a ele devemos a expressão "Deu-me um Amok!" - e tenho regressado a ele nestes últimos anos, nomeadamente as biografias. Divirto-me a (re)ler, por exemplo, a que ele escreveu sobre José Fouché. Divirto-me a (re)encontrar nessa personagem que viveu no início da modernidade, tantos colegas meus universitários (e não só). Aquele tipo de fulanos(as) que, quando chega um chefe e proclama, "Agora o importante é ensino ao longo da vida!", eles de imediato gritam "Aleluia! Vimos a luz!" Depois vem outro chefe e diz, "Agora o importante é investigação!", e eles de imediato gritam "Aleluia! Finalmente, vimos a luz!" Depois vem outro chefe e diz... Estão a ver o filme, não estão? Também José Fouché foi realista, depois jacobino, depois hiper-jacobino, depois reaccionário, depois... Bom, depois caiu de amores por uma rapariga mais nova - como às vezes, raramente, claro, sucede com os homens de meia-idade, refira-se - e caiu, literalmente, em desgraça. Bom, adiante! Deixo-vos com as palavras de José María Alvarez que, muito certeiramente, constata: "... pienso en essas fotografías/ tantas veces vistas: usted y su esposa/ como dormidos. Elegantemente vestidos. No son cadáveres. Parecen dormir./.../Sabe una coisa, Zweig? Es raro ya encontrar/ escritores como usted. La especie va extinguiéndose./ Hay - me aseguran - hasta quien divulga/ que un artista es una persona como otra."
terça-feira, 17 de novembro de 2015
One of my longtime heroes
Foi no sábado que a reencontrei, desta feita no CCB, para ver Heart of a Dog. Digamos que o roteiro já tinha sido por ela delineado quando esteve no Nimas. Talvez traga as impressões que então colhi noutra altura. Para já deixo-vos três regras de vida sugeridas por Laurie Anderson numa entrevista: 1. Don't be afraid of anyone; 2. Get a good bulshit detector and learn how to use it; Be really tender. Bom final de dia!
Evangelho segundo S. Lucas 19,1-10, o episódio de Zaqueu
Sobre ele escreveu Jean Tauler (c. 1300-1361), dominicano de Estrasburgo:
Lemos no evangelho que Zaqueu quis ver Nosso Senhor, mas era muito pequeno. Que fez ele? Subiu a uma figueira seca. Assim faz o homem: deseja ver Aquele que opera maravilhas e causa um tumulto nele; mas, como não tem estatura suficiente para isso, tem de subir a uma figueira seca. A figueira morta simboliza a morte dos sentidos e da natureza e a vida do homem interior, sobre a qual Deus é levado.
Que disse Nosso Senhor a Zaqueu? «Desce depressa.» Tens de descer, não podes reter uma única gota de consolação de todas as tuas impressões na oração, antes deves descer ao teu puro nada, à tua pobreza, à tua impotência. [...] Se te resta algum apego à natureza, é porque ainda não possuis a verdade, é porque ela ainda não se tornou um bem teu; natureza e graça trabalham ainda juntas, e não chegaste ao abandono perfeito [...]; esse estado ainda não é a pureza plena. É por isso que Deus convida esse homem a descer, quer dizer que o chama a uma renúncia plena, a um pleno desprendimento da natureza. «Hoje tenho de ficar em tua casa; hoje veio a salvação a esta casa.» Que este hoje nos aconteça para sempre!
Os jesuítas do site Pray as you go colocam, todavia, uma questão algo perturbante: sendo Zaqueu uma figura pouco popular - cobrador de impostos -, por que razão foi ele escolhido? Se estivéssemos entre a multidão, o que pensaríamos nós por ter sido escolhido aquele fulano e não eu, que até tenho uma profissão mais simpática; pelo menos não chateio os outros por causa dos impostos! Afinal, what stops me from seeing beyond the obvious?
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