terça-feira, 15 de outubro de 2013
"Blue Jasmine", um apontamento
dos Cahiers a propósito de... (um pausa em busca de adjectivos, mas ela é tão singularmente bela que o melhor é ficar pelas reticências...) Cate Blanchett no mais recente Woody Allen:
"Peut-être Allen est-il devenu moins drôle que misanthrope. Mais il faut redire à quel point l'amour d'un acteur peut parfois emporter un film. La prestation de Cate Blanchett, ahurissante, en vient même à disputer au cinéaste la 'paternité' de cette belle créature brisée qu'est Jasmine. Non contente d'atteindre un débit vocal à la Katharine Hepburn, Blanchett nous offre un véritable précis de vexation, alternant l'onctuosité de toute sa personne avec de subites crispations du corps et du regard, dans un grand déraillement progressif qui dit, sans jamais tomber dans l'hystérie, toute l'horreur et l'aveuglement consenti de son personnage face aux salissures du réel. L'art de la nunace et de l'altération, la blue note des jazzmen qui donne à Jasmine sa teinte, c'est bien elle qui les tient."
Bons filmes!
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
A importância de uma matriz hoje
quando prevalece a indiferença da Europa e das suas instituições face a uma tragédia reincidente, o naufrágio em Lampedusa.
Lembre-se este passo de Evangelho segundo S. Lucas 10,25-37:
"Naquele tempo, levantou-se um doutor da Lei e perguntou a Jesus para O experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?»
Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?»
O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.»
Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.»
Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?»
Tomando a palavra, Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando o meio morto.
Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo.
Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.
Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão.
Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele.
No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: 'Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.'
Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»
Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.»"
E veja-se o comentário de Bento XVI nesse belo texto que é Deus caritas est:
A parábola do bom Samaritano (cf Lc 10,25-37) leva a dois esclarecimentos importantes. Enquanto o conceito de «próximo», até então, se referia essencialmente aos concidadãos e aos estrangeiros que se tinham estabelecido na terra de Israel, ou seja, à comunidade solidária de um país e de um povo, agora este limite é abolido. Qualquer um que necessite de mim e eu possa ajudá-lo, é o meu próximo.
O conceito de próximo fica universalizado, sem deixar todavia de ser concreto. Apesar da sua extensão a todos os homens, não se reduz à expressão de um amor genérico e abstracto, em si mesmo pouco comprometedor, mas requer o meu empenho prático aqui e agora. Continua a ser tarefa da Igreja interpretar sempre de novo esta ligação entre distante e próximo na vida prática dos seus membros.
É preciso, enfim, recordar de modo particular a grande parábola do Juízo final (cf Mt 25,31-46), onde o amor se torna o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade de uma vida humana. Jesus identifica-Se com os necessitados: famintos, sedentos, forasteiros, nus, enfermos, encarcerados. «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25,40). Amor a Deus e amor ao próximo fundem-se num todo.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Ciberteologia
foi o tema da conferência de Antonio Spadaro proferida ontem à tarde. Hélas deixei em casa o meu caderno de notas, pelo que assisti à conferência com um misto de revolta (pelo esquecimento) e de impotência (pela manifesta incapacidade de guardar na memória todas as suas reflexões pertinentes). Em contrapartida, mal ela terminou desci a comprar o livro. E foi assim que passei o resto da tarde e o serão, sem interrupções (excepto para ver o episódio sete da 2ª temporada de Newsroom) a lê-lo; algo que concluí pouco depois da meia-noite. Deixo-vos um breve passo que, obviamente, tem a ver com a literatura; ou não fosse Spadaro, também, um estudioso da literatura anglo-americana:
"Foi o poeta Gerald Manley Hopkins que me ajudou a entender o papel da inovação tecnológica; o jazz fez-me entender o papel das redes sociais; os teólogos - de Tomás de Aquino a Teilhard de Cahrdin - esclareceram-me em relação às forças que tornam o homem actuante no mundo, participando da Criação, e que o elevam a uma meta que o supera, bem além de qualquer excesso cognitivo. É a pesquisa inesgotável de sentido que me fez entender o valor do cabo usb que tenho nas mãos. E sei que o meu iPad tem a ver com o meu desejo inextinguível de conhecer o mundo, enquanto o meu Galaxy Note me diz (mesmo quando está silencioso) que eu não sou feito para ficar sozinho. Mas é a poesia de Whitman que me dá o prazer do progresso. E é Eliot que me faz estar atento, para não cair nas suas armadilhas. Mas é também Flannery O'Connor que me faz entender que 'a graça habita mesmo no território do diabo' e, pouco a pouco, o invade. E, portanto, entendo que, mesmo vendo tanto mal na Rede, não posso parar e descansar sobre os louros de um juízo negativo, se..." Bom, fico por aqui, com os points de suspension, para vos aguçar o apetite.
Boas leituras!
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
"De que lado estás?
Dos que só querem saber, como Heródes, ou dos que querem seguir e imitar, como Zaqueu?" Perguntava-se, hoje, no comentário a Lucas, 9/7-9.
Esta pergunta levou-me a reler o prefácio de Alexandre Palma a Paciência com Deus, de Tomás Halík. Escreve ele sobre o que pode significar "ser Zaqueu" hoje, e, consequentemente, sobre o gesto "do pequeno Zaqueu, o cobrador de impostos que procurava ver Jesus"; sobre "a sua discreta curiosidade, aquela esperança muda, a timidez que o traz à distância": "Na voragem da comunicação moderna, onde o (ab)uso da imagem e da palavra vai ao limite da sua própria corrupção; na contemporânea necessidade de aparecer para sobreviver, facilmente se empurram para as franjas os tímidos, os inseguros, os discretos, os calados. Ora Halík faz destas franjas, faz do que nelas se escondem, os protagonistas. (...) Fá-lo sobretudo para que se aprenda a lição destes Zaqueus: a inquietude interior, o espírito de busca não são um opcional do itinerário da fé." É, pois, pertinente a epígrafe colhida em Santo Ambrósio que Alexandre Palma escolheu para prólogo do seu texto: "Zaqueu no sicómoro é o fruto novo da nova estação".
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
"Definir o tempo pela sua qualidade"
No termo das férias importa reflectir sobre a noção de tempo. A propósito, transcrevo o excerto do texto que li no site da Pastoral da Cultura.
"«O tempo alcançou plenitude» (peplerotai o kairòs) - lê-se na proclamação inaugural de Jesus, segundo o relato de São Marcos (Mc 1,15). Olhando para a forma verbal empregue (a forma do perfeito, peplerôtai - alcançou plenitude, completou-se), vemos um tempo onde o cumprimento começou, mas que prossegue em efeitos que o presente e o futuro prolongam. Não se trata, portanto, de um tempo meramente pontual, para ser deglutido na vertigem do que passa. Nem é, de modo algum, um mero passar. A utilização que se faz aqui do lexema kairòs revela-se iluminante. Porque se usa, para designar este tempo aberto por Jesus, o substantivo kairòs em vez de chrónos? Há uma diferença entre ambos: o kairòs exprime uma qualidade do tempo; enquanto que chrónos designa a quantidade. O significado fundamental de kairòs é o de uma expressão decisiva do tempo, o seu ponto essencial, fugindo a um entendimento estritamente cronológico. Em autores antigos tão diversos como Sófocles ou Aristóteles, ou já na tradução grega da Bíblia hebraica, kairòs ganha, não raro, um sentido religioso, a ponto de coincidir com a revelação do próprio Deus. Essa é a perspetiva do Novo Testamento, que interpreta o tempo como lugar do irromper de Deus, propício e determinante. De facto, não é o tempo quantificado que dará alma ao mundo, mas o tempo qualificado pela decisão e pela experiência da graça e do dom."
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
Lembrando Urbano...
"(...) há um aspecto que importa pôr em evidência neste momento e só os que o conheceram podem testemunhar a esse respeito: a sua generosidade infalível, o acolhimento que sempre soube dar aos mais novos, a abertura com que encarava novas propostas estéticas, o trato amabilíssimo, a tolerância e o bom gosto que o distinguiam nas relações humanas. Personalidades da cultura como a dele fazem-nos cada vez mais falta." Escreveu Vasco Graça Moura na sua crónica no DN. De facto, entre as memórias que dele guardo, tem um lugar especial aquela manhã algures entre Abril e Maio de 1978, quando, após eu ter apresentado um trabalho sobre L'espoir, de André Malraux, na sua aula de Literatura Francesa I, numa sala do "Pavilhão Novo" da Faculdade de Letras, ele me disse: "O Mário tem de ser professor!" Importa referir que, tal como o país naqueles tempos, também eu andava à deriva. Creio que essas palavras me ajudaram a reencontrar o rumo perdido... Um outro aspecto ainda, confirmando um dos tópicos abordados por Graça Moura. Urbano ensinava o cânone (lemos Breton e Sartre, por exemplo), e também outras vozes situadas mais nas margens. Nunca esquecerei a leitura de La Motocylette, de Mandiargues. Ou não fosse esta uma narrativa profundamente... erótica. Até sempre!
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
"O que é a vida?"
Responde Abbé Pierre (podem ver o contexto no site da Pastoral da Cultura [http://www.snpcultura.org/abbe_pierre_em_lisboa.html], onde colhi esta bela imagem):
'Uma vez participei num programa de televisão em que tinha como interlocutor um homem muito violento, muito agressivo, que me perguntou: «O que é a vida?». Respondi: «A vida é um bocado de tempo dado a liberdades para termos a capacidade de amar. Nós, formiguinhas, somos os únicos com uma pequena parte de liberdade, de capacidade de amar e de responder com amor ao amor. Mas porquê tantas crueldades, tantas atrocidades? Deus é bom, é amor, apesar dessas infelicidades. A vida ganha sentido se, com a minha liberdade, eu quiser aprender a amar para o encontro com o Amor eterno». Quando acabei estas palavras pouco usuais, o meu interlocutor, homem ateu, conhecido pela blasfémia, gritou: «Porque não me disseram isso quando eu era pequeno?».'
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