quarta-feira, 30 de junho de 2010

«Rogaram-Lhe que Se retirasse daquela região»


A propósito de: Evangelho segundo S. Mateus 8,28-34

"O mundo actual apresenta-se, assim, simultaneamente poderoso e débil, capaz do melhor e do pior, tendo patente diante de si o caminho da liberdade ou da servidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio. E o homem torna-se consciente de que a ele compete dirigir as forças que suscitou, e que tanto o podem esmagar como servir. Por isso se interroga a si mesmo.

Na verdade, os desequilíbrios de que sofre o mundo actual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem. Porque no íntimo do próprio homem muitos elementos se combatem. Enquanto, por uma parte, ele se experimenta, como criatura que é, multiplamente limitado, por outra sente-se ilimitado nos seus desejos, e chamado a uma vida superior. Atraído por muitas solicitações, vê-se obrigado a escolher entre elas e a renunciar a algumas. Mais ainda, fraco e pecador, faz muitas vezes aquilo que não quer e não realiza o que desejaria fazer (Rom 7, 15). Sofre assim em si mesmo a divisão, da qual tantas e tão grandes discórdias se originam para a sociedade. [...]

Perante a evolução actual do mundo, cada dia são mais numerosos os que põem ou sentem com nova acuidade as questões fundamentais: Que é o homem? Qual o sentido da dor, do mal, e da morte, que, apesar do enorme progresso alcançado, continuam a existir? Para que servem essas vitórias, ganhas a tão grande preço? Que pode o homem dar à sociedade, e que coisas pode dela receber? Que há para além desta vida terrena?"

Concílio Vaticano II
Constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo (Gaudium et spes), §§ 9-10

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A importância do encontro



No Sábado passado, por volta das 11 da noite, ainda sob o efeito das palavras intensas do Livro das Revelações, evocadas pela belíssima voz de Luís Miguel Cintra, ergui-me para abandonar a Capela do Rato e apercebi-me de uma jovem que, mais à frente, olhava para mim.
Embora o seu rosto não me fosse estranho, não consegui identificar a que lugar ou situação o ligava.
Eis quando ela me diz: "Foi meu professor de literatura americana!"
Ora, aí estava a resposta!
Contas feitas, havia sido há mais de doze anos que os nossos caminhos se cruzaram.
Reparei que a singela presença de uma gravidez nela se insinuava.
E foi assim que me despedi... desejando-lhe felicidades!
Que bela forma de encerrar a noite!
Que versão leu Luís Miguel Cintra, perguntareis: a (da tradução setecentista da autoria) de João Ferreira Annes d'Almeida; a primeira elaborada directamente do hebraico para português.
Ilda David ilustrou-a.
Mas disso já falei noutra altura.
Para hoje fica, para além da Palavra, a memória daquele rosto e de um encontro significativo (anglicismo, claro!)!

"Cinema ao contrário"


Em Outubro do ano passado inseri este comentário acerca de Shirin.
Reproduzo-o agora numa altura em que, finalmente, podereis ver este filme em exibição no circuito comercial.

"E se, em vez de assistirmos ao desenvolvimento de um filme, à narrativa, aos movimentos da personagens, seus gestos, expressões, silêncios mesmo, assistíssemos às reacções de quem assiste, e do filme percepcionássemos apenas sons, vozes das personagens? Se tivéssemos de o reconstruir através dessas reacções e da oralidade narrativa?
Abbas Kiarostami propõe-nos esse exercício em Shirin.
Nele vemos desfilar os (belos) rostos de 115 actrizes (iranianas, com a excepção de Juliette Binoche), somos confrontados com as suas emoções, expressões de alegria, empatia e lágrimas, perante a história de Shirin - uma princesa persa do século XII - e dos seus amores com o nobre Khosrow.
E não há homens na assistência? Há, sim. No entanto, à semelhança da mulher com marcas de violência no rosto (índice de uma brutalidade masculina?), eles persistem em planos mais recuados. Afinal, esta é uma história que nelas reconhece uma empatia primeira.
Para já o filme foi exibido no Doclisboa.
Regressa às salas no início do próximo ano.
Não se esqueçam e não o percam!
Bons filmes!"

A propósito das margens (III)



Como referi há dias, o contexto cultural/político/mental no qual os Pop Dell Arte emergiram, era ainda profundamente marcado por uma militância (político/mental)que nutria uma profunda suspeita face às margens e que era particularmente influente no seio da crítica musical (expressão demasiado elogiosa, diga-se, para quem, ontem tal como hoje, escreve sobre música sem saber ler uma pauta!).
Em particular, quando essas margens fugiam ao cânone e evocavam/invocavam as vanguardas estéticas ao mesmo tempo que criavam zonas nebulosas no campo da orientação sexual.
[É por essa razão que não posso deixar de rir às gargalhadas com as novas empatias face aos casamentos (como se diz hoje) gay.
Foram os antepassados desta gente que mandou para os gulags homossexuais e lésbicas, juntamente com judeus, recorde-se.
E para quem argumente que não houve gulags entre nós, basta lembrar o caso de Militão Ribeiro.]
Ora, os Pop Dell Arte traziam para este espaço puritano irreverências várias: o surrealismo francês, um certo cinema contemporâneo (a Fassbinder se deve, como é evidente, Querelle), e a dissonância introduzida por línguas não canónicas, como o francês (já na altura lateralizado) e o italiano.
Toda essa irreverência decorria de uma intensa capacidade indiciadora que perturbava quem estava habituado ao discurso literal de um neo-realismo tardio, à evidência do rock português e aos nacionalismos de direita.
Essa capacidade indiciadora mantém-se ainda hoje, e a ela voltarei noutro dia.
Boa semana!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Leitura integral


do livro do Apocalipse, feita por Luís Miguel Cintra.
A não perder!
Entrada livre, amanhã, pelas 21.30h, na Capela do Rato.
Bom fim de semana!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Quão importante nomear é!


Quando estranhos nomes, inspirados em exóticos e excêntricos lugares, abundam, eis um passo e um Texto a reter: Evangelho segundo S. Lucas 1,57-66.80.

"Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. Mas, tomando a palavra, a mãe disse: «Não; há-de chamar se João.» Disseram-lhe: «Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.» Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: «O seu nome é João.» E todos se admiraram. Imediatamente a sua boca abriu-se, a língua desprendeu-se-lhe e começou a falar, bendizendo a Deus. O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos, e por toda a montanha da Judeia se divulgaram aqueles factos. Quantos os ouviam retinham-nos na memória e diziam para si próprios: «Quem virá a ser este menino?» Na verdade, a mão do Senhor estava com ele. Entretanto, o menino crescia, o seu espírito robustecia-se, e vivia em lugares desertos, até ao dia da sua apresentação a Israel."

Leituras recentes


Li, de uma rajada, Este é o tempo dos assassinos - Variações sobre o assassínio encontradas e traduzidas por Aníbal Fernandes.
Este livro forma uma bilogia com o Festim da Aranha, publicado há dois anos.
São duas colectâneas impressionantes que nos desvendam alguns dos lados mais tenebrosos da nossa natureza humana, através de textos inesperados, já que Aníbal Fernandes recusou optar pelos autores e pelas narrativas mais reconhecíveis neste âmbito.
Acresce o facto de estarmos perante alguém, Anibal Fernandes, que, para além de dominar as línguas de partida e de chegada, é um profundo conhecedor dos contextos em causa. E nunca é de mais assinalar o talento com que se move na língua portuguesa.
Acho que vou abordar este livro, em breve, no JL.
Já agora, saiu um texto meu neste número do JL sobre a tradução do primeiro livro da trilogia USA, de John Dos Passos.
Boas leituras!