segunda-feira, 29 de março de 2010

"Aquele grande rio eufrates"




E o sexto anjo derramou a sua taça
sobre aquele grande rio Eufrates
Apocalipse XVI, 12

"Somos verdadeiramente pessoas seguras de si
Longe de nós — que fará ele aqui? — o pensamento
de um dia deixarmos atrás de nós um corpo
lembranças nossas em alguém vazios os lugares onde estivemos
Quem nos dirá a nós que lá no mar as ondas
não venham ainda a precisar de serem vistas
para continuar a nascer e a rebentar?
Vamos ao ponto de dar nomes de mortos às ruas
como se os mortos não pudessem voltar a morrer
o que afinal a gente vê todos os dias
Escondemos-lhes os ossos. Algum de nós era digno
de saber o que resta do seu grande segredo?"

Uma boa semana com as sensatas palavras de Ruy Belo!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Questões de identidade: o road runner somos nós?



Ou seremos nós o coiote?
Na minha infância, o road runner era uma presença habitual na televisão. O road runner, ou, como lhe chamava a tradução, o bip bip, ganhava sempre, com uma eficência tipicamente wasp; algo inodora e sensaborona até, diria.
Já o pobre do coiote, por mais artimanhas que concebesse, era um derrotado sistemático.
E, todavia, a nossa empatia era nele que recaía!
Embora, como em todos os processos heteronímicos, houvesse um bip bip dentro de nós; um bip bip que sonhasse voar estrada fora para além dos limites previsíveis.
Tenho para mim que nós, portugueses, somos como o coiote, sempre-engenhosos-eternos-derrotados que, no entanto, sonham ser velozes como o bip bip.
Sonham mas não conseguem!
Veja-se o exemplo do chefe das polícias que, qual bip bip, percorre a Avenida da Liberdade acima de toda velocidade legal e imaginariamente prevista, para acabar, qual coiote, feito em cacos junto aos Restauradores (ironia este nome na situação em causa).
Veja-se também a notícia que um jornal ontem transmitia: Costa e Portas apanhados a 160.
Não sei se estavam juntos ou se cada um tentou, por si só, bater um recorde. Quero acreditar que o tenham feito isoladamente.
Afianço, porém, que a notícia não estava bem redigida, já que deveria ter sido referido que Paulo e Portas tentaram ser bip bips e acabaram coiotes.
Esta notícia revela ainda uma profunda viurtude colectiva, visto esta (que a partir deste momento fica baptizada "síndrome do bip bip) não se confinar ao partido do governo mas ser também atributo da oposição. Quero, aliás, acreditar que, seja quem for que hoje saia vencedor das eleições no Psd, persistirá nesta nobre tentativa de tudo superar, embora se avizinhe que em coiote se transfigurará.
E assim se mostra como Camões estava equivocado, já que seu verso deveria rezar: "Erros nossos, má fortuna, quimera ardente!"

quinta-feira, 25 de março de 2010

Ils sont fous ces


romans...? Non, ces portugais!
Conclui-se de um estudo divulgado ontem.
Para a sintomatologia geral contribuirá, também, a acção de muitos gauleiters que por aí pululam, estimulados que têm sido por tantas práticas aberrantes superiormente instaladas; ou, como escreve Paquete de Oliveira na sua crónica no JN:

"Nos sinais visíveis deslumbra-se um clima social de depressão, manifesto na conflitualidade das relações humanas ao nível da praça pública no uso de uma rispidez de trato, dentro de portas pelo crispação de comportamentos domésticos que elevam as cifras dos maus-tratos e de práticas aberrantes..." (itálico meu)

E por aqui me fico!

Perplexidade


é aquilo que naturalmente experimentamos perante as obras de escritores como Donald Barthelme ou Thomas Pynchon (cuja imagem aqui reproduzo aquando da sua aparição nos Simpsons); autores que a crítica encerrou numa gaveta designada meta-ficção.
Muita dessa perplexidade decorre dos insistentes diálogos que esses autores exibem com diferentes campos do saber.
No caso de Pynchon, em particular de The Crying of Lot 49, emergem conceitos como entropia.
Anindita Dutta analisa-os em The Paradox of Truth, the Truth of Entropia.
Deste ensaio que podereis ler na íntegra em
http://www.themodernword.com/pynchon/papers_dutta.html
deixo-vos o passo seguinte:

"Thermodynamic entropy is the measure of this disorganization in the universe. In a closed, isolated system, the total quantity of energy remains the same, but irreversible transformations or chemical reactions within this system cause a loss in the grade or quality of the energy. In The Crying of Lot 49, Oedipa Maas realizes that she is within "the confinement of [a] tower"(pg.20), similar to the closed system in which entropy thrives. If she does not open her system, her energy will slowly degrade, till she is nothing more than a body of random disorder. Towards the end of the first chapter, Oedipa goes into the bathroom, and "[tries] to find her image in the mirror and couldn't. She had a moment of nearly pure terror"(pg.41). An image is created when light or other radiation falls upon an object of different densities, causing light scattering that is reflected in the mirror. If there were no differences in density, and only random, disordered motion, there would not be a projected image to project."

quarta-feira, 24 de março de 2010

Um poema que eu não conhecia



de um poeta que conhecia, Craig Raine.

A sugestão foi de um aluno atento:

"'A martian sends a postcard home'

Caxtons are mechanical birds with many wings
and some are treasured for their markings --

they cause the eyes to melt
or the body to shriek without pain.

I have never seen one fly, but
sometimes they perch on the hand.

Mist is when the sky is tired of flight
and rests its soft machine on ground:

then the world is dim and bookish
like engravings under tissue paper.

Rain is when the earth is television.
It has the property of making colours darker.

Model T is a room with the lock inside --
a key is turned to free the world

for movement, so quick there is a film
to watch for anything missed.

But time is tied to the wrist
or kept in a box, ticking with impatience.

In homes, a haunted apparatus sleeps,
that snores when you pick it up.

If the ghost cries, they carry it
to their lips and soothe it to sleep

with sounds. And yet they wake it up
deliberately, by tickling with a finger.

Only the young are allowed to suffer
openly. Adults go to a punishment room

with water but nothing to eat.
They lock the door and suffer the noises

alone. No one is exempt
and everyone's pain has a different smell.

At night when all the colours die,
they hide in pairs

and read about themselves -"

Boas descobertas e melhores leituras!

terça-feira, 23 de março de 2010

Inveja é a derradeira palavra de "Os Lusíadas"


e também um dos 7 pecados mortais.
Sobre ela escreveu Dante na Divina Comédia: "superbia, invidia e avarizia sono / le tre faville c'hanno i cuori accesi" (vv. 74-75).

Intertextualidades?





Com Donald Barthelme imergimos em plena pó-modernidade.
Em seus clichés e em suas idiossincrasias.
Para o compreendermos temos de recorrer às vanguardas, sejam estas aquelas que se enunciam na reflexão filosófica, como Walter Benjamin (essencial para ler "At the end of the Mechanical Age"), sejam as que absorvem discursos habitualmente considerados menos canónicos, como o dos cartoons.
E aqui emergem dois nomes: James Thurber e Saul Steinberg.
Recorde-se que, também neste último aspecto, o diálogo entre vanguardas é fundamental.
Por exemplo, nos Estados Unidos Steinberg está próximo de gente como Alexander Calder e Le Corbusier. Por outro lado, em Paris, conhece Henri Cartier Bresson que o aproxima de Simone de Beauvoir e de Sartre.
Integrará a exposição no Moma, conhecida como "Fourteen Americans", na qual participam artistas de vanguarda como Arshile Gorky e Mark Tobey.
É através da assimilação de discursos estranhos que temos, afinal, de entender aquela vertente da narrativa americana do pós-guerra, conhecida como meta-ficção.
Boas aberturas de horizontes e, consequentemene, boas leituras!