sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Um passo de "The Lessons of the Masters"



A partir de Álvaro de Campos, escreve Bloom: "Campo's profession of faith entails the insight that 'the physical privilege of keeping company' with a Master-spirit is not granted to everyone. Only the privileged can journey to Rome knowing it will leave them transformed. 'Inferior people cannot have a master, since they have nothing for a master to be a master of."
É bem verdade.
Boas meditações!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Encontros


Aconselho-vos a uma visita, hoje, a http://clarices-bichocarpinteiro.blogspot.com/
Aí podereis encontrar um testemunho sobre o reconhecimento que muitos de nós temos face àqueles/as que marcaram o nosso percurso intelectual, a nossa vida. Afinal, nem todos são Mestres, nem, necessariamente, é Mestre quem quer!
Depois de ler este testemunho, senti vontade de reler The Lessons of the Masters, de George Steiner.
Kierkegaard considera que não é difícil obrigar a parar alguém com quem nos cruzamos na rua para que lhe digamos aquilo que queremos. Difícil, sim, é dizer algo a alguém com quem nos cruzamos na rua, sem que esse alguém interrompa o seu percurso, e sem que nós próprios interrompamos o nosso percurso.
Contudo, quando esse encontro se verifica, ambos ficamos mais ricos. Além disso, embora os nossos pontos de vista possam ter sido perturbados, e foram-no por certo, a nossa liberdade não foi beliscada. Antes pelo contrário, ampliou-se devido ao reconhecimento da nossa ignorância.
Ora, aí está o segredo da relação pedagógica que nos interessa.
Polícias e/ou guardas pretorianos/as já há muitos/as por aí a dizer-nos que só há um caminho, o deles/as!
Boas recordações dos/as vossos/as Mestres/as!

Elegias

Há quem se refira de forma depreciativa às lyrics de The Rising, de Bruce Springsteen, considerando-as "lamechas."
De facto aquilo que Springsteen faz é tomar numa das mais antigas tradições poéticas americanas, a elegia, e utilizá-la como instrumento de luto colectivo. Daí o facto de as canções desse Cd terem sido amiúde utilizadas em cerimónias de evocação de vítimas do 11 de Setembro.
Anne Bradstreet terá sido a primeira grande cultora do género; veja-se como a tonalidade elegíaca percorre os versos finais do poema que dedicou ao incêndio que destruiu a sua casa:

"A price so vast as is unknown,
Yet by his gift is made thine own.
There's wealth enough; I need no more.
Farewell, my pelf; farewell, my store.
The world no longer let me love;
My hope and Treasure lies above."

Há uma óbvia aceitação da desgraça, decorrente da ética puritana da qual Bradstreet participa.

É evidente que Springsteen não a subscreve; daí uma sensação de perda injustificada. Veja-se "My city in ruins":

"There is a blood red circle
On the cold dark ground
And the rain is falling down
The church door's thrown open
I can hear the organ's song
But the congregation's gone
My city of ruins
My city of ruins

Now the sweet bells of mercy
Drift through the evening trees
Young men on the corner
Like scattered leaves,
The boarded up windows,
The empty streets
While my brother's down on his knees
My city of ruins
My city of ruins

Come on, rise up! Come on, rise up!
Come on, rise up! Come on, rise up!
Come on, rise up! Come on, rise up!

Now's there's tears on the pillow
Darlin' where we slept
And you took my heart when you left
Without your sweet kiss
My soul is lost, my friend
Tell me how do I begin again?
My city's in ruins
My city's in ruins

Now with these hands,
With these hands,
With these hands,
I pray Lord
With these hands,
With these hands,
I pray for the strength, Lord
With these hands,
With these hands,
I pray for the faith, Lord
We pray for your love, Lord
We pray for the lost, Lord
We pray for this world, Lord
We pray for the strength, Lord
We pray for the strength, Lord

Come on
Come on
Come on, rise up"

Como se pode ver nesta "poetic of mourning" a esperança persiste.
Não me parece, por isso, que a expressão do luto possa ser confundida com "lamechice."

Boas músicas!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009




"Awaiting for you all", canção de All things must pass, de George Harrison, foi cantada no Concert for Bangladesh, e escolhida para abrir o cd dcoumentário sobre este concerto.
Se este foi o primeiro do género e abriu portas para muitos outros, ele foi, também, um dos primeiros onde se reuniram grandes estrelas da música popular dos anos sessenta/inícios de setenta.
Muito desses anos pode ser sentido neste evento.
"Awaiting for you all" evidencia algo de muito positivo que ali podemos sentir.
Eis alguns versos:

"You don’t need a love-in,
You don’t need a bad pan
You don’t need a horoscope or a microscope
To see the mess that you’re in
If you open up your heart,
You will see what I mean
You’ve been polluted so long
But here’s a way for you to get clean

By chanting the names of the lord
And you’ll be free
The Lord is awaiting on you all
To awaken and see
Chanting the names of the Lord
And you’ll be free
The Lord is awaiting on you all
To awaken and see

You don’t need a passport
You don’t need no visas
You don’t need to designate or to emigrate,
Before you can see Jesus
If you open your heart,
Then you will see he’s right there
He always was and will be
He’ll relieve you of all your cares

By chanting the names of the Lord
And you’ll be free..."

Boas músicas!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Há quanto tempo se exerce a Razão sobre este Livro!




Eis o que o bispo, São Máximo de Turim (aqui ao lado, visualmente falando, claro!), já no século V d.C., meditava a propósito deste passo do Evangelho de Lucas, «É semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e deitou no seu quintal». Atente-se no close reading avant new criticism:

"A propósito do que diz o Evangelho: «Um homem tomou-o e deitou-o no seu quintal», que homem é esse, em vossa opinião, que semeou o grão que recebeu, como um grão de mostarda no seu pequeno jardim? Penso que é aquele sobre o qual o Evangelho diz: «Um membro do Conselho, chamado José, natural de Arimateia [...], foi ter com Pilatos, pediu-lhe o corpo de Jesus e,descendo-O da cruz, envolveu-O num lençol e depositou-O num sepulcro preparado no seu jardim» (Lc 23, 50-53). É por essa razão que as Escrituras dizem: «Um homem tomou-o e deitou-o no seu jardim». No jardim de José misturavam-se perfumes de diversas flores, mas um grão como aquele nunca lá tinha sido deitado. O jardim espiritual da sua alma rescendia ao perfume das suas virtudes, mas Cristo ainda não tinha sido aí colocado. Ao sepultar o Salvador no monumento do seu jardim, ele acolheu-O mais profundamente no fundo do seu coração."

Os itálicos são meus.

Bons close readings!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A bicicleta de Faulkner



Na narrativa que concebeu sobre a sua vida com Iris Murdoch, Iris, A Memoir of Iris Murdoch, John Bayley descreve a decadência daquela que foi uma das mentes mais brilhantes da cena literária inglesa do século XX, devido à doença de Alzheimer. Entre outros aspectos, Bayley refere a "expressão leonina" que será característica daqueles/as que sofrem dessa doença.

Não pude deixar de me lembrar desse passo quando, em A bicicleta de Faulkner, Maria do Céu Guerra exibe essa mesma expressão em determinado instante do processo degenerativo da sua personagem, também ela, vítima de Alzheimer.

Embora, na minha opinião, o texto de Heather MacDonald fique aquém das expectativas, visto não conseguir integrar organicamente Faulkner no texto e não explorar a dimensão da memória, tão relevante na cultura do Sul dos EUA, incentivo-vos a ir à Barraca.

A interpretação é equilibrada, destacando-se naturalmente a intensidade de Maria do Céu Guerra, a quem todos aqueles que gostam de teatro (e mesmo aqueles que não gostam!) tanto, tanto devem. Além disso, houve, para mim, uma revelação: a encenação de Rita Lello.

Não percam, portanto, e boa semana!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

"Cinema ao contrário?"


E se, em vez de assistirmos ao desenvolvimento de um filme, à narrativa, aos movimentos da personagens, seus gestos, expressões, silêncios mesmo, assistíssemos às reacções de quem assiste, e do filme percepcionássemos apenas sons, vozes das personagens? Se tivéssemos de o reconstruir através dessas reacções e da oralidade narrativa?
Abbas Kiarostami propõe-nos esse exercício em Shirin.
Nele vemos desfilar os (belos) rostos de 115 actrizes (iranianas, com a excepção de Juliette Binoche), somos confrontados com as suas emoções, expressões de alegria, empatia e lágrimas, perante a história de Shirin - uma princesa persa do século XII - e dos seus amores com o nobre Khosrow.
E não há homens na assistência? Há, sim. No entanto, à semelhança da mulher com marcas de violência no rosto (índice de uma brutalidade masculina?), eles persistem em planos mais recuados. Afinal, esta é uma história que nelas reconhece uma empatia primeira.
Para já o filme foi exibido no Doclisboa.
Regressa às salas no início do próximo ano.
Não se esqueçam e não o percam!
Bons filmes!