sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Equívocos



Antes de mais, perdoai a má qualidade da imagem. O título do quadro, depositado no Museu de Belas Artes de Valência, é Caridade, e seu autor anónimo.
Trago-o porque ele me evocou as leituras sinuosas feitas em torno do final de Grapes of Wrath; leituras essas que acabaram por marcar profundamente Steinbeck.
A jovem que amamenta o velho faminto, entronca numa tradição ética e cultural, já antes indiciada ao longo da narrativa. Contrariamente ao que mentes mais sinuosas afirmaram, ocorre alí uma entrega radical ao Outro e não uma qualquer dimensão erótica como esses polícias que sempre existiram na crítica literária, na academia e nos media, pretende(ra)m fazer crer.
A arte, neste caso, ajuda-nos a ler o livro e a desmontar a ignorância.
Fascinante diálogo este!
Boas leituras!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O mesmo tópico, outra perspectiva


Também se intitula "The Dead", este poema de Jessica Powers, e, contudo, bem diferente é a percepção que ele nos transmite:

"The dead are always talking in their strange way,
At night when the winds are still, and dew grass
glistens
They are saying things that none should ever say,
And cursed is he who stands at their door and
listens.

Always they meet in a manner strange to see:
The crazy, the dead, and the myriad yet unborn.
And their words are cold as winds from eternity,
And their eyes are wise, and their faces all forlorn.

The dead are filling the young unborn with talk
Of wisdom dug from the mines of bitter years;
They are frightening crazy folk with thoughts that
walk
In the cold and dark, and nameless twisting fears.

I often join them when the lights are done,
And they see the weight of years on my foolish head;
When I am silent they think I'm a crazy one,
But when I talk they know that I am dead."

Boas leituras!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Ainda o misticismo, agora com Jones Very


Jones Very pertenceu ao círculo transcendentalista. Conheci-o (uma vez mais, metonimicamente falando) durante o curso de Mestrado. Creio que, através dele, podemos tomar contacto com uma certa vertente mística que enforma dos equívocos que Emerson detecta em "The Poet" e que distinguiria os místicos (pelo menos estes) dos épicos. Very está tão longe de todos nós que, quando nos olha, vê apenas... mortos!

Eis "The Dead":

"I see them, crowd on crowd they walk the earth,
Dry leafless trees no autumn wind laid bare;
And in their nakedness find cause for mirth,
And all unclad would winter's rudeness dare;
No sap doth through their clattering branches flow,
Whence springing leaves and blossoms bright appear;
Their hearts the living God have ceased to know,
Who gives the springtime to th' expectant year.
They mimic life, as if from him to steal
His glow of health to paint the livid cheek;
They borrow words for thoughts they cannot feel,
That with a seeming heart their tongue may speak;
And in their show of life more dead they live
Than those that to the earth with many tears they give."

Talvez por estas e por outras tenha sido internado com o diagnóstico de loucura!
Louco ou não, vale a pena ler os seus versos e o seu ensaio sobre Shakespeare.

Boas leituras!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Conheci Jessica Powers (1905-1988),


metonimicamente falando claro, ainda nos anos 90, através de um mestrando, João Banha Correia que, certo dia, me confidenciou ser seu desejo fazer a sua dissertação sobre Jessica Powers. "Jessica quê?" interroguei.
Nunca tinha ouvido falar desta poeta, freira carmelita, que nos desvenda os espaços americanos, rurais e urbanos (são intensíssimos os poemas sobre Chicago), com uma sensibilidade peculiar que entronca numa grande tradição que tem em São João da Cruz um cultor maior.
Apesar de lhe ter afirmado o meu desconhecimento acerca da poesia de Powers, e dos consequentes limites que tal implicava em termos de orientação, o João insistiu, insistiu, investigou, investigou, desvendou canais vários até alcançar bibliografia privilegiada sobre Powers.
Porque esta era uma voz que necessitava de um espírito disponível para a escutar, convidei um colega e amigo, António Botelho de Amaral, para arguir a dissertação. O António, que também nunca ouvira falar de Powers, foi entretanto aos Estados Unidos e meteu-se estrada fora em busca do convento onde a poeta vivera e morrera. Encontrou-o, falou com gente que com ela privara, e regressou para arguir a dissertação.
A discussão decorreu muito bem e, no fim, todos estávamos gratos ao João por nos ter feito descobrir Powers, e a Powers pelos seus versos.
É este o verdadeiro trabalho de investigação; ou, pelo menos, aquele que verdadeiramente nos interessa, pois, para além das funcionalidades (competências ? Ah! Ah! Ah!), abre-nos novas portas e torna-nos melhores.
O eduquês, na sua imensa ignorância, desconhece estas coisas!
E o mesmo se aplica àqueles ("you know what I mean!")que não conseguem ver nestas tradições para além daquilo que os seus limites ideológico-éticos lhes permitem...
Por tudo isto agradeço ao João por esta descoberta, e ao António por tê-la connosco partilhado.

Aqui vos deixo "Dreams of you", um belo poema sobre... enfim, para quê prefácios? Leiam-no and enjoy!

"My dreams of you are like the fallen leaves,
colored with brilliance, nomad rustling things,
tossed by winds of olden memories--
they prate of golden summertimes and springs.

When skies were gray you flung them all away--
but I, who loved them, hoard such gifts as these.
By day I revel in their golden lights;
at night they whisper tender sympathies."

Boas leituras!

Santo Ambrósio (c. 340-397), Bispo de Milão


e Doutor da Igreja, escreveu a propósito de um versículo do Salmo 118: "O Verbo sacode o preguiçoso e desperta o dorminhoco".
Infelizmente, nem sempre consegue produzir esse efeito, como se pode ver através da polémica (marketing!?!) mais recente.
De facto, ainda abundam por aí os preguiçosos (porque não querem evoluir da cartilha estalinista) e os dorminhocos (porque, afinal, ainda sonham viver nos tempos dos gulags; ou será que eles não existiram?).
Ou será um problema de inteligência?
Breve digressão:
há uns bons anos atrás dizia-me o Professor Joaquim Manuel Magalhães a propósito de um colega (que não era do nosso Departamento, esclareça-se!): "Inteligente? Até o meu gato é inteligente!"
Concluindo, porque não há nada como a leitura para combater o atrevimento da ignorância, deixo-vos uma sugestão, Koba - The Dread, de Martin Amis, uma narrativa onde a dimensão autobiográfica (edipiana?) e um dos momentos mais tenebrosos da História do século XX se confundem.
Afinal, a ignorância não é apenas atrevida; ela é, também, perigosa!
A propósito, o livro de Amis já foi traduzido para português!
Boas leituras!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Intimidade(s)


Como mudam as noções de intimidade e como o diálogo com os textos sagrados podem delas participar!
Numa altura em que Saramago proclama mais um sonoro e bilioso disparate, e em que, por isso mesmo, urge reflectir com ponderação, conhecimento e bom senso sobre o papel dos textos sagrados cristãos (e não só, obviamente) na nossa História, na nossa cultura e no nosso quotidiano, deixo-vos este excerto do meu livro "O Nascimento de uma Nação - Nas origens da literatura americana", sobre a relação entre a Bíblia e a intimidade.
Porque para reflectir é necessário atentar às subtilezas, escolhi, hoje, um exemplo protestante, numa modulação puritana.
Isto é, deixo-vos o exemplo de Edward Taylor, " aquele que é por muitos considerado o maior poeta puritano da época colonial. Trinta anos mais novo do que Bradstreet, Taylor (c. 1642-1729) cresceu durante a ascensão do puritanismo ao poder em Inglaterra, a qual abandonaria por se recusar a aceitar o Act of Uniformity, imposto com a subida ao trono de Carlos II. Em 1668 partiu para o Novo Mundo levando consigo cartas de recomendação para uma acima referida proeminente figura do puritanismo colonial, Increase Mather. Após algum tempo de estudo em Harvard, aceitou um lugar como pastor em Westfield, uma comunidade no Massachusetts, a cerca de cento e cinquenta quilómetros a sudoeste de Boston.
Em 1671, após oito dias de viagem a cavalo, Taylor chegou à sua nova morada, onde ficaria até à data da sua morte. As contingências históricas (a Guerra do Rei Filipe), as circunstâncias geográficas (uma comunidade de fronteira) e a sua formação académica levaram-no a desempenhar ali funções destacadas, de estratega militar a lavrador, de guia espiritual a professor, e médico, até.
Ao longo dos anos Taylor seria responsável pelo Lord’s Supper. Na teologia puritana esta cerimónia desempenhava uma função de destaque, a par do baptismo, enquanto manifestação da Aliança da Graça (Covenant of Grace) entre Deus e os Homem.
A preparação dos sermões por parte de Taylor exigia, naturalmente, uma leitura atenta dos passos bíblicos, os quais funcionavam como leitmotif, independentemente das várias horas de estudo diárias às quais os pastores puritanos estavam obrigados (Meserole 119-23).
Semelhante leitura atenta exigia uma meditação em torno do eventual efeito especular desse passo na sua própria experiência; o tal escrutínio de si próprio acima referido. Seriam essas meditações regulares que dariam origem a um conjunto de poemas significativamente intitulados Preparatory Meditations que Taylor foi compondo durante esses anos.
Antes de morrer, deu instruções para que esses textos fossem destruídos. Apesar de essas instruções não terem sido respeitadas, os seus poemas (quatrocentas páginas manuscritas) só seriam identificados em 1937, na Biblioteca da Universidade de Yale. Não deixa de ser irónico que o maior poeta puritano só tenha vindo a ser conhecido mais de duzentos anos após a sua morte.
Por que razão terá Taylor determinado que estes poemas deveriam ser destruídos? Creio que o motivo fundamental reside no facto de eles revelarem uma excessiva intimidade.
Esta afirmação pode ser motivo de perplexidade perante uma primeira leitura desses poemas, nomeadamente devido ao ser carácter alusivo e barroco. Com efeito, em tempos como os nossos, em que a comunicação simula um radical literalismo e a tentativa de rasura da mais banal ressonância metafórica e em que os media exibem os, outrora, mais resguardados aspectos do quotidiano de políticos, artistas, será particularmente difícil compreender onde reside a intimidade das Meditações?

Para melhor a desvendar, proponho-lhe a leitura deste excerto de Meditation 2. 4. Gal 4. 24. Which things are an Allegorie

My Gracious Lord, I would thee gIory doe
But finde my Garden over grown with weeds:
My Soile is sandy; brambles o're it grow;
My Stock is stunted; branch no good Fruits breeds.
My Garden weed: Fatten my Soile, and prune
My Stock, and make it with thy gIory bloome.

Though I desire so much. I can't o're doe.
AlI that my Can contains, to nothing comes
When summed up, it onely Cyphers grows
Unless thou set thy Figures to my Sums.
Lord set thy Figure 'fore them, greate, or small.


... a revelação dos medos, das inseguranças do sujeito ... ocup[a]m [aqui] um lugar destacado. Recorde-se que o puritano vive sob a tensão inerente à dúvida de ter ou não sido tocado pela Graça divina (o tal Covenant of Grace). Acresce a este aspecto, no caso de Taylor, o facto de ele ser um membro destacado da comunidade, alguém que tem a seu cargo a condução do seu rebanho, tanto no óbvio plano espiritual, como nos aspectos práticos do dia-a-dia (a gestão dos assuntos da comunidade, as estratégias e funcionalidades inerentes à defesa, os cuidados com a saúde, a escola). O autor sente, assim, sobre si o peso de uma dupla responsabilidade.
No plano privado, íntimo, sente-se inseguro, mas, em público, perante a comunidade, durante o Lord Supper, ele surge como dirigente, e deverá estar confiante de si, para que os outros se reconheçam nessa sua segurança.
O sermão baseado na Epístola aos Gálatas 4. 24. deverá projectá-la. Mas e se Deus não o escolheu? E se na sua voz for Satanás quem se manifesta? Então, ele será uma fraude ética. Significa isso que, para além de estar destinado à Queda, poderá provocar a Queda dos membros da comunidade.
É esta tensão, esta dúvida interior, ausente do Sermão, que ele expressa nesta meditação (neste poema/oração)"

Boas leituras!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

As fotos premiadas de Ana Gaiaz







Espero que gostem delas como eu gosto!