quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
Por favor, não percam
O Quarteto, de Heiner Müller, um belo texto que revisita outro belo texto. Chega-nos pela mão da superior inteligência estética de Jorge Silva Melo. Ivo Canelas confirma-se um dos nossos melhores actores contemporâneos. Sobre a peça referiu Silva Melo: "Isto não é uma adaptação do Laclos como é a peça do Christopher Hampton. Em termos musicais eu diria que são variações sobre o tema do Laclos. Ele pega nas personagens do Laclos que define mais ou menos no primeiro ato e depois põe-se a inventar. O próprio Heiner dizia: eu não fui reler a peça Ligações Perigosas, lembrava-me mais ou menos, porque eu gosto é de pegar num texto como os miúdos pegam numa boneca, desmontá-la toda e ver que lá dentro só há serradura e porcaria, e depois pego nisso para fazer o meu texto."
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
A minha contribuição para o debate sobre as presidenciais
Hamlet fala com os coveiros (Acto V, cena i), na versão poética de Sophia e a imagem da versão fílmica de Grigori Kozintsev, com Innokenty Smoktunovsky como príncipe da Dinamarca: "Dantes esta caveira tinha língua e sabia cantar. E agora, olha, este patife atirou-a para o chão como se fosse a queixada de Caim, o primeiro assassino! Este crânio, que esse burro agora faz rolar, pode ter sido a cabeça de um político; talvez um daqueles políticos que julgam que têm influência em Deus?"
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
"Entra no quarto mais secreto" (Mateus 6,6)
Ou quando entrar no quarto mais secreto reside no aparente paradoxo de sair ao encontro do Outro. Despertares, epifanias em A Portrait of the Artist as a Young Man, de James Joyce: "He had wandered into a maze of narrow and dirty streets. From the foul lane ways he heard bursts of hoarse riot and wrangling and the drawling of drunken singers. He walked onward, undismayed, wondering whether he had strayed into the quarter of the jews. Women and girls dressed in long vivid gowns traversed the street from house to house. They were leisurely and perfumed. A trembling seized him and his eyes grew dim. The yellow gas flames arose before his troubled vision against the vapoury sky, burning as if before an altar. Before the doors and in the lighted halls groups were gathered arrayed as from some rite. He was in another world: he had awakened from a slumber of centuries."
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
Alguns versos
de Philip Dacey sobre Edward Weston, um dos maiores fotógrafos americanos do século passado:"Let neither light nor shadow impose on these things/ To give them a spurious brilliance or romance,/ Let the mystery be the thing itself revealed/ There for us to see better than we knew we could."
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
No anoitecer da vida, entrar na luz
"O sol inclinava-se em direcção ao poente. Mas o fervor da minha irmã Macrina não decaía; quanto mais se aproximava o momento da partida, mais ela corria em direcção ao seu bem-amado. […] Já não se dirigia a nós, os que estávamos ali presentes, mas apenas Àquele de quem não desviava o olhar […]Como tinha chegado a noite, alguém colocara uma lamparina ali por cima. Macrina então abriu os olhos e dirigiu o seu olhar para aquela luz, manifestando o seu desejo de dizer a oração de acção de graças da luz. Mas faltou-lhe a voz […]; soltou um profundo suspiro e tudo cessou: tanto a oração, como a sua vida." São Gregório de Nissa (c. 335-395)
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Deixo-vos versos
de um "dos meus grandes", Eugenio Montale, com votos de um bom fim de semana; e, caso possam, passem pelo CCB à tarde para um evento da Diana Almeida; eu, porque ainda não tenho o dom da ubiquidade, estarei por Mafra, assistindo a outro evento, desta feita um concerto. Eis, então, "La memoria": "La memoria fu un genere letterario/ quando ancora non era nata la escritura./ Divenne pio cronaca e tradizione/ ma già puzzava di cadavere./ La memoria vivente è immemoriale,/ non sorge della mente, non vi si profonda./ Si aggiunge all'esistente come un'aureola/ di nebbia al capo. È già sfumata, è dubbio/ che ritorni. Non ha sempre memoria/ di sé."
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Nani Moretti, "Mia Madre"
Os Cahiers dedicam uma atenção muito especial a este filme no seu número mais recente. Entre os diferentes momentos/textos, muitos dos quais particularmente intensos, que podem cruzar-se com muitas das nossas experiências, memórias, ou até vivências actuais, destaco, não as palavras do realizador, mas esta pergunta/comentário que lhe fez Stéphane Delorme; deixo-a neste espaço porque amiúde é em breves comentários, e não em extensas e rebarbativas redacções, que a inteligência do olhar se desvenda: Ce qui frappe dane le film, c'est la perméabilité entre la vie, les rêves et le tournage. L'émotion n'est jamais là où on l'attend, elle passe sous forme de fluides, comme des infiltrations." (p. 10)
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