Estreia amanhã em Lisboa, no Nimas, Fausto, a versão do texto de Goethe concebida por Alexandre Sokurov. Acompanhá-lo-á uma exposição de Ilda David' a propósito da tradução de João Barrento. Já vi o filme há algum tempo em Dvd (blue ray, para ser mais preciso) e, apesar dos pesadelos que tive durante a noite, recomendo vivamente.
Sobre este realizador deixo-vos um breve excerto de um comentário publicado no The Independent:
"Over the years, Sokurov has proved a very disconcerting interviewee. He talks a lot about the Russian soul. Ask him about his influences and he'll discuss Chekhov and Dostoevsky before he even mentions anything to do with film. In preparation for his film Mother and Son (1996), about a mother dying as her devoted son tends her, he and his cinematographer went to Berlin and spent hours together sitting in front of Caspar David Friedrich's painting The Monk By the Sea. Before shooting his film Father and Son (2003), he studied JMW Turner's watercolours. He calls many of his films "elegies," as if he is a composer or a poet, not a director. Although he reveres Ingmar Bergman and Alexander Dovzhenko, he is contemptuous about 3D and James Cameron. In short, he takes an utterly uncompromising and sacral approach to his art."
Bons filmes!
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Fausto, de Sokurov
Estreia amanhã em Lisboa, no Nimas, Fausto, a versão do texto de Goethe concebida por Alexandre Sokurov. Acompanhá-lo-á uma exposição de Ilda David' a propósito da tradução de João Barrento. Já vi o filme há algum tempo em Dvd (blue ray, para ser mais preciso) e, apesar dos pesadelos que tive durante a noite, recomendo vivamente.
Sobre este realizador deixo-vos um breve excerto de um comentário publicado no The Independent:
"Over the years, Sokurov has proved a very disconcerting interviewee. He talks a lot about the Russian soul. Ask him about his influences and he'll discuss Chekhov and Dostoevsky before he even mentions anything to do with film. In preparation for his film Mother and Son (1996), about a mother dying as her devoted son tends her, he and his cinematographer went to Berlin and spent hours together sitting in front of Caspar David Friedrich's painting The Monk By the Sea. Before shooting his film Father and Son (2003), he studied JMW Turner's watercolours. He calls many of his films "elegies," as if he is a composer or a poet, not a director. Although he reveres Ingmar Bergman and Alexander Dovzhenko, he is contemptuous about 3D and James Cameron. In short, he takes an utterly uncompromising and sacral approach to his art."
Bons filmes!
segunda-feira, 8 de abril de 2013
A ouvir
Começo por uma reflexão que nada tem de científica... que não tem, aliás, qualquer base sociológica ou histórica, e todavia... Porque é que o jazz não podia ter nascido em Portugal? Já repararam na alegria que todo o músico de jazz experimenta quando outro membro do grupo "divaga" no seu solo? Ora, nós, que temos uma épica nacional que culmina na palavra inveja, jamais poderíamos experimentar esse prazer da "vitória" de um parceiro nosso. O mais provável seria fazer um esgar como quem interroga: "So what?"
Já passaram dois anos que neste espaço fiz alusão ao cd de Mário Laginha, Mongrel. Com uma festa do jazz no São Luís de permeio, e depois de ter assistido a um belo concerto deste mesmo Mário Laginha com a notável Maria João, acompanhados de músicos de talento reconhecido, quero deixar-vos hoje nota de um músico de que já ouvira falar mas que não ouvira ainda. Chama-se ele Massimo Cavalli e foi ontem uma agradável surpresa enquanto o Benfica derrotava o Olhanense sem que eu (mea culpa) disso me apercebesse.
O seu cd (não percam!) tem por título Varandas do Chiado. Sobre ele escreveu Laurent Filipe: So here is Massimo's personal story, from the "Intro" to "Marce Blues". A story that speaks of lyrical italian imbued emotions in "Sogno 37" to a strong cinematic feel in "Il lungo viaggio" to the somewhat odd bolero of the album title piece "Varandas do Chiado". The melodic and harmonic lines are often windy and unpredictable, the way a bass player likes them to be, taking you to unexpected places.
Não percam!
quinta-feira, 21 de março de 2013
Looking for Richard
Como enquadrar este objecto num género fílmico? Eis algumas sugestões possíveis: Documentary, Mockumentary, Docufiction ou Docudrama. Tomo um exemplo apenas para sabotar a primeira possibilidade, o da presença de um actor simulando Shakespeare no início e no final do filme. O facto de o filme não ser ancorado numa estratégia de simulacro, inviabiliza a segunda. O facto de não criar uma ficção paralela ou mesmo uma meta-ficção, inviabiliza a terceira. Ficamos, por isso, pela quarta hipótese, docudrama, enunciada, aliás, pelo próprio Al Pacino. Subscrevo esta porque, na minha opinião, ela implica um registo autobiográfico, justificado pela obsessão (no bom sentido) do actor - representar Shakespeare para uma audiência americana - e pelas citações visuais e textuais de O Padrinho.
Recomendo vivamente que vejam ou revejam este filme. No caso de serem professores, então devereis dá-lo a conhecer aos vossos alunos.
Até breve!
sexta-feira, 15 de março de 2013
terça-feira, 12 de março de 2013
A propósito do soneto de Rossetti
sobre "Our Lady of the Rocks", de Leonardo. Estas notas esclarecem alguns aspectos relevantes, nomeadamente o facto de Rossetti ter escrito este poema a propósito do quadro da National Gallery e não do do Louvre.
Aqui ficam as notas:
"Behind this sonnet stands the famous Pauline text ( 1 Corinthians 13:12): “For now we see through a glass, darkly, but then face to face”. DGR uses this text to construct a statement about art as a “glass” through which one may attempt to represent, and view, the “occult” order of things that are the ground of a religious experience. In DGR's reading, the picture is an occult construction, all of its representational forms “dark” and “difficult”.
It is important to see how obliquely DGR represents the Virgin's face, which focuses the energies of Leonardo's painting. Not that she is scanted by DGR, but his poem concentrates its attention on the other elements. The paradoxical result is to heighten our sense of the Virgin's importance, as if to draw out our imaginations to an effort to understand her place in this ominous scene.
...
Textual History: Composition
In 1869 DGR said that he wrote the sonnet “in front of the picture in Brit: Inst: many years ago” (Fredeman, Correspondence 69.139 ); WMR dates the work 1848 (1911).
Pictorial
The picture is not the one in the Louvre, but in the National Gallery in London, as DGR's reference to “that outer sea” makes clear (in the Louvre version that compelling moment in the London painting is hardly discernible). Needless to say, DGR's interpretation of the work is highly idiosyncratic, but quite in line with his general inclination, especially in the years 1848-1850, to give a programmatic turn to much of what he wrote and painted.
Subjective as is DGR's response, however, it follows Vasari more closely than one might expect: in the Lives of the Painters Vasari comments that Leonardo's genius culminated in paintings “so dark, that [...] his pictures had rather the character of things made to represent an effect of night, than the clear quality of daylight” (Vasari, Lives [1996], vol. I, p. 630 ). That Leonardesque gloom is recaptured as DGR's “darkness of the end” and given an explicit symbolic resonance.
DGR's reading of Leonardo also has much in common with Pater's famous essay in The Renaissance. This connection underscores the importance of Pater's seminal essay on DGR's work (Pater, "DGR," Appreciations )."
terça-feira, 5 de março de 2013
Podiam ser sobre estes tempos,
estes versos de Leonard Cohen: "I'm sentimental, if you know what I mean /
I love the country but I can't stand the scene./
And I'm neither left or right/
I'm just staying home tonight,/
getting lost in that hopeless little screen./
But I'm stubborn as those garbage bags/
that Time cannot decay,/
I'm junk but I'm still holding up/
this little wild bouquet..."
Boa semana!
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Legado de Bento XVI
Aqui vos deixo o depoimento que prestei à Pastoral da Cultura:
a) Como avalia o papel de Bento XVI no que diz respeito à relação que procurou manter com o mundo do pensamento e das artes, nomeadamente com artistas e tendências que se situam fora da Igreja Católica?
A minha avaliação não pretende fazer uma súmula do seu magistério neste âmbito; outros estarão muito mais habilitados para o fazer. A minha avaliação, melhor seria dizer, a minha percepção confina-se à forma como, enquanto universitário e, também, criador, esse seu magistério me impressionou. Daí a escolha, profundamente subjectiva, de instantes ou aspectos que correspondem a um processo de descoberta pessoal do seu perfil: as suas palavras durante a visita ao campo da morte de Auschwitz, em Maio de 2006; o encontro com os artistas na Capela Sistina, em Novembro de 2009; o seu discurso no CCB durante a visita a Lisboa no ano seguinte.
Porque se pode objectar que o primeiro destes aspectos não aparenta estar directamente relacionado com o mundo do pensamento e das artes, começo pelo seu discurso no CCB para melhor me explicar.
Num tempo em que, segundo as palavras de um artista contemporâneo, Rui Chafes [Entre o céu e a terra], a arte cede à “frivolidade” de uma “linguagem apenas de efeitos”, Bento XVI defendeu a experiência estética enquanto busca do belo e da verdade; enquanto solo, indissociável de “uma 'sabedoria', isto é, um sentido da vida e da história”. Esta declaração, fundada no exercício da razão, surgia na linha do apelo feito no encontro com os artistas na capela Sistina: “... não tenhais medo de vos confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história rumo à Beleza infinita...” A estética e a ética encontravam-se, portanto.
Esta abertura à alteridade significou uma disponibilidade para entender e acolher os discursos estéticos que têm emergido noutros horizontes culturais, ideológicos mesmo, e de neles identificar inquietações e sintomas que são passíveis de funcionar como, ainda que ténues e pouco perceptíveis, pontes de diálogo e compreensão mútua.
Escusado será lembrar a forma como esta postura tem ecoado entre nós, desde a experiência do Átrio dos Gentios, aos encontros entre crentes e não-crentes na Capela do Rato, por exemplo.
Face a estes diferentes momentos, qual então o lugar das palavras de Bento XVI em Auschwitz?
A um homem de uma inteligência superior, como ele, não seria obviamente difícil articular meia-dúzia de clichés sobre a intensidade daquela experiência. No entanto, e podereis estranhar a analogia, a sua reacção trouxe-me de imediato à mente a do Presidente Lincoln após ter visitado o campo de batalha de Gettysburg. Também Lincoln poderia ter verbalizado meia-dúzia de lugares comuns; no entanto, perante aquela experiência esmagadora, não receou afirmar que lhe faltavam as palavras.
Igualmente perante o peso esmagador do campo da morte, Bento XVI teve a coragem de declarar: “Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto?” É impossível não lembrar o Diário de Etty Hillesum.
Ora, a experiência contemplativa e meditativa do silêncio perante o inesperado e o que nos transcende em absoluto, pode constituir uma parte do processo de aprendizagem e da própria fruição estética. Pense-se no olhar perante as telas de Rothko.
Concluindo, os caminhos por ele abertos desbravaram novas dimensões de diálogo estético e, ético, e, também, de entendimento de quão relevante pode ser, hoje em dia, a arte na nossa relação com Deus.
b) Quais devem ser as orientações e prioridades que, no seu entender, o próximo Papa deve assumir nesse mesmo campo do pensamento e das artes?
Sendo tão positiva a apreciação que faço da acção de Bento XVI a este nível, não será de estranhar que ache que as orientações e prioridades do novo papa deverão ser no sentido de prosseguir o seu legado.
No entanto, independentemente de eventuais acções que venham a ser desencadeadas pelo futuro papa, é importante não esquecer uma dinâmica própria da Igreja que, entre nós, tem vindo a ser objecto de crescente atenção por parte das autoridades eclesiásticas. Penso, em particular, no Átrio dos Gentios e na Pastoral da Cultura. O átrio dos gentios deverá prosseguir na sua promoção do diálogo entre crentes e não-crentes, e entre crentes de diferentes confissões. Por seu turno, a Pastoral da Cultura, que tem revelado um imenso dinamismo, deverá chegar ao maior número possível de pessoas. Mas isso é algo que cabe, também, a cada um de nós.
Afinal, importa que o novo papa tenha uma percepção lúcida dos chamados sinais dos tempos. Quando refiro sinais dos tempos não estou a pensar nos sound bytes, nas modas, em síntomas efémeros, ainda que ruidosos, mas sim naquilo que de mais profundo se insinua nas nossas sociedades. Algo a que o pensamento e a cultura não são, obviamente, alheios. Afinal, como defendia Bento XVI, urge prosseguir o concílio, pois aí “a Igreja acolhia e recriava por si mesma, o melhor das instâncias da modernidade, por um lado, superando-as e, por outro, evitando os seus erros e becos sem saída. O evento conciliar colocou as premissas de uma autêntica renovação católica e de uma nova civilização – a 'civilização do amor' - como serviço evangélico ao homem e à sociedade.”
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