segunda-feira, 6 de junho de 2011

Antecipando o ano que vem


uns versos de W. H. Auden, retirados do poema intitulado "On the circuit", na fraternidade das idiossincrasias.
O bom velho humor anglo-saxónico (seja lá o que isso for!):


"A sulky fifty-six, he finds
A change of mealtime utter hell,
Grown far too crotchety to like
A luxury hotel.

The Bible is a goodly book
I always can peruse with zest,
But really cannot say the same
For Hilton's Be My Guest.

Nor bear with equanimity
The radio in students' cars,
Muzak at breakfast, or-dear God!-
Girl-organists in bars."

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Inveja no Porto


Retirados do Twitter, eis alguns fragmentos da conversa, a propósito de Inveja, que tivemos na Feira do Livro do Porto.
Na foto, à esquerda, Teolinda Gersão, claro, ao centro, António Costa que organizou o encontro:

Imaginemos que há uma câmara e vai penetrando no intimo das pessoas e no que estão a pensar. Este livro é um único plano sequência. 175 páginas e um só parágrafo. É como se fosse um filme que nunca tem montagem. A ideia é, por um lado, pegar num determinado tipo de universo e partir daí, fazer uma sátira da sociedade portuguesa, a partir da Universidade.

Chamei-lhe novela, apenas pela extensão.

Há pessoas que seguem a via académica por outros motivos. Porque adoram falar na televisão, ascender à carreira política. A universidade é apenas o trampolim para qualquer coisa. Eu queria escrever e comecei a ir para as reuniões de caderno na mão. Tinha um caderno só para as reuniões e apontava lá tudo o que ia vendo e assistindo. Mas depois quis fazer um romance universitário mas que não se passasse lá. Sobre as nossas idiossincrasias.

Quis criar uma espécie de painéis de São Vicente. Nós olhamos para lá e vemos o “Mourinho”, o “Salazar”. As pessoas reconhecem os rostos. E eu tentei fazer exactamente isso no livro. Reconhecer rostos que, todavia, não identificamos. Pegar na sociedade portuguesa e satirizá-la. Mais do que uma coisa sobre a universidade, é algo sobre aquilo que somos em Portugal.

Comunicação virtual e partilha


Eis um excerto de um texto que me parece particularmente arguto em torno deste utópico.
Foi revelado no Dia Mundial das Comunicações e seu autor é Bento XVI.
Voilà e boas leituras:

Vai-se tornando cada vez mais comum a convicção de que, tal como a revolução industrial produziu uma mudança profunda na sociedade através das novidades inseridas no ciclo de produção e na vida dos trabalhadores, também hoje a profunda transformação operada no campo das comunicações guia o fluxo de grandes mudanças culturais e sociais. As novas tecnologias estão a mudar não só o modo de comunicar, mas a própria comunicação em si mesma, podendo-se afirmar que estamos perante uma ampla transformação cultural. Com este modo de difundir informações e conhecimentos, está a nascer uma nova maneira de aprender e pensar, com oportunidades inéditas de estabelecer relações e de construir comunhão.

Aparecem em perspectiva metas até há pouco tempo impensáveis, que nos deixam maravilhados com as possibilidades oferecidas pelos novos meios e, ao mesmo tempo, impõem de modo cada vez mais premente uma reflexão séria acerca do sentido da comunicação na era digital. Isto é particularmente evidente quando nos confrontamos com as extraordinárias potencialidades da rede internet e a complexidade das suas aplicações. Como qualquer outro fruto do engenho humano, as novas tecnologias da comunicação pedem para ser postas ao serviço do bem integral da pessoa e da humanidade inteira. Usadas sabiamente, podem contribuir para satisfazer o desejo de sentido, verdade e unidade que permanece a aspiração mais profunda do ser humano.

No mundo digital, transmitir informações significa com frequência sempre maior inseri-las numa rede social, onde o conhecimento é partilhado no âmbito de intercâmbios pessoais. A distinção clara entre o produtor e o consumidor da informação aparece relativizada, pretendendo a comunicação ser não só uma troca de dados, mas também e cada vez mais uma partilha. Esta dinâmica contribuiu para uma renovada avaliação da comunicação, considerada primariamente como diálogo, intercâmbio, solidariedade e criação de relações positivas. Por outro lado, isto colide com alguns limites típicos da comunicação digital: a parcialidade da interacção, a tendência a comunicar só algumas partes do próprio mundo interior, o risco de cair numa espécie de construção da auto-imagem que pode favorecer o narcisismo.

Sobretudo os jovens estão a viver esta mudança da comunicação, com todas as ansiedades, as contradições e a criatividade própria de quantos se abrem com entusiasmo e curiosidade às novas experiências da vida. O envolvimento cada vez maior no público areópago digital dos chamados social network, leva a estabelecer novas formas de relação interpessoal, influi sobre a percepção de si próprio e por conseguinte, inevitavelmente, coloca a questão não só da justeza do próprio agir, mas também da autenticidade do próprio ser. A presença nestes espaços virtuais pode ser o sinal de uma busca autêntica de encontro pessoal com o outro, se se estiver atento para evitar os seus perigos, como refugiar-se numa espécie de mundo paralelo ou expor-se excessivamente ao mundo virtual. Na busca de partilha, de «amizades», confrontamo-nos com o desafio de ser autênticos, fiéis a si mesmos, sem ceder à ilusão de construir artificialmente o próprio «perfil» público.

As novas tecnologias permitem que as pessoas se encontrem para além dos confins do espaço e das próprias culturas, inaugurando deste modo todo um novo mundo de potenciais amizades. Esta é uma grande oportunidade, mas exige também uma maior atenção e uma tomada de consciência quanto aos possíveis riscos. Quem é o meu «próximo» neste novo mundo? Existe o perigo de estar menos presente a quantos encontramos na nossa vida diária? Existe o risco de estarmos mais distraídos, porque a nossa atenção é fragmentada e absorvida por um mundo «diferente» daquele onde vivemos? Temos tempo para reflectir criticamente sobre as nossas opções e alimentar relações humanas que sejam verdadeiramente profundas e duradouras? É importante nunca esquecer que o contacto virtual não pode nem deve substituir o contacto humano directo com as pessoas, em todos os níveis da nossa vida.

Também na era digital, cada um vê-se confrontado com a necessidade de ser pessoa autêntica e reflexiva. Aliás, as dinâmicas próprias dos social network mostram que uma pessoa acaba sempre envolvida naquilo que comunica. Quando as pessoas trocam informações, estão já a partilhar-se a si mesmas, a sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais. Segue-se daqui que existe um estilo cristão de presença também no mundo digital: traduz-se numa forma de comunicação honesta e aberta, responsável e respeitadora do outro.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"A Susie 4 e os pratos invertidos"


Com um abraço aos velhos amigos do Liceu de Queluz, deixo este passo do meu romance sobre aqueles tempos. Acima está o título do capítulo, e, por favor... não se assustem com o título do romance.
"As sessões de espiritismo eram o mais recente passatempo da rapaziada e raparigada lá do liceu. Como este passatempo surgira, ao certo, ninguém o sabia, mas rapidamente alastrara, tornando-se objecto de culto deles e delas. Os tradicionais grupos de amigos dissolviam-se para dar lugar aos novos grupos formados por um novo tipo de afinidades, consoante a medium em questão; a e não o, pois as raparigas mostravam ser senhoras de mais dotes neste esfera do que eles.
Havia várias medium, umas com mais poderes do que outras. Não se tratava apenas de chegar com mais velocidade, com banda larga, à fala com o Além, era também fundamental o tipo de interlocutor ou interlocutora que, do Lado de Lá, conseguia impressionar, ou não, o Lado de Cá, ou seja, os participantes nas sessões. Estes participantes variavam consoante a qualidade da medium e dos interlocutores envolvidos. Deste modo, a medium mais eficiente conseguia reunir à sua volta, eventualmente em sua casa, a elite do liceu. Das sessões transitar-se-ia para outros encontros sociais, lanches, convívios, porventura, voilà, namoros.
Por seu turno, os menos eficientes, ou pobrezinhos, como então eram designados pelas elites espíritas, podiam, muitas vezes, passar horas a olhar para o pratinho que este nem uma sacudidela dava.
Concluindo, o diálogo com o Além transformara profundamente a vida na escola.
Com o andar da carruagem, os avisos passaram a determinar o dia-a-dia dos mais assíduos; ora havia uma viagem que urgia evitar; ora havia uma festa que não se deveria realizar; ora havia alguém cuja presença poderia ser malévola; ora havia uma miúda endemoinhada... e que, geralmente, era a mais apetecida.
...
Para os mais impressionáveis, as luzes tinham passado a ficar acesas até de madrugada, pois ruídos, sopros, portas a ranger, gatos a miar, enfim, eventuais companhias do Inesperado tornavam-se muito mais tenebrosas no escuro. O antigo ditado mais vale só do que mal acompanhado, dera lugar ao posso julgar que estou só e, no fim de contas, estou mas é mal acompanhado.
Mas as coisas que não se ficavam por aqui.
Os mais ousados, que habitualmente se reuniam nas traseiras da sala de convívio para fumar uns cigarros com aroma estranho, tinham-se tornado devotos do lado negro, ou magia negra. Aí tudo era invertido..."

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Pela mão de Mussorgski numa galeria com anjos


é o título do último livro de poemas que publiquei já lá vão dez anos. Segui aqui a famosa peça de Mussorgski, Quadros de uma exposição, que depois converti através de uma escolha muito pessoal dos quadros e... do ritmo. Alguns destes poemas - os que recuperam a promenade - foram escolhidos por José Duarte e Ricardo António Alves para a antologia do jazz na poesia de língua portuguesa (antes do acordo ortográfico).
Porque hoje estive a ver e ouvir os Quadros de uma exposição, na versão dos Emerson, Lake & Palmer, tocada em 1970 no Lyceum Theatre, deixo-vos um destes poemas, o IX. A porta dos boátiros de Kiev. O quadro que escolhi foi Escada para a lua, de Georgia O'Keeffe.
Eis o poema:

Afinal, tudo parece
girar em torno de anjos,
de sopros... ténues carícias

despertando-nos p'la noite
dentro, p'ra um reencontro
com Deus, ou, talvez, se a

penumbra as ilumina,
para afagar as mãos
como se elas as d'um

anjo mais querido fossem...
para de novo reter
as lágrimas, p'ra rever

um sorriso ou um timbre...

que seria das palavras
sem o afago dos anjos?

terça-feira, 19 de abril de 2011

De que forma falaria hoje Jesus da nossa sociedade?


Responde José Tolentino Mendonça:

Jesus levar-nos-ia de novo para a beira do lago, ao deserto, ao rio Jordão. Entraria nas nossas casas e falaria uma palavra que nos tocaria e comoveria o coração.
A sua palavra é sempre alternativa. A voz de Jesus não é mais uma. Não é uma voz que nos confirma, que diz “está tudo bem”, mas é uma voz que não se conforma. Jesus é um inconformista e por isso leva-nos sempre para a margem.
A palavra e a experiência cristã deslocam-nos para fora do rebanho, para fora das nossas certezas e daquilo que está estabelecido. Ou então é uma palavra que nos leva para dentro, nos reaproxima, estabelece connosco de novo uma intimidade. E aí, Jesus é capaz de tocar por dentro o nosso coração.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Deixo-vos um poema


inédito, lido ontem à tarde na mesa-redonda.
Já agora, os versos em italiano são do Eugenio Montale.
Bom fim de semana!

Algures no silêncio, uma
palavra secreta me foi confiada.

O lugar parecia deserto, a hora adiantada,
a noite avançada. O dia aproximava-se,
e o teu sono era sinal de um mistério…

Forse non ho altra prova che Dio mi vede e che
le tue pupille d’acquamarina parlano per lui.

Em teu rosto, a variedade e a suavidade da luz
e de todas as cores.
Nele, o amplexo sem fim excedendo
teus braços,
todos os teus beijos.
O amplexo
desvendado por uma
luz mais suave que a do sol e
a das estrelas,
na língua que os anjos e as almas
falam entre si.

De novo a sombra se estendeu sobre ti.
Entrou no quarto mais secreto
por um caminho, por certo, estreito, mas real, seguro.

Não era a carne nem o sangue que te revelava
mas sim a sombra
iluminando as tuas pálpebras,
o teu rosto.

Fazia-me ver a fraqueza do meu olhar,
suavizava para os meus olhos doentes
o brilho da sua luz,
a luz que nasce da luz.

Nele procurei o silêncio e o retiro,
para sempre lugar
do meu repouso.

É ele que te planta no mar.