quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Este jovem é o meu mais recente herói!


A paródia que ele fez desta Ministra da Educação - signo evidente da decadência deste povo peninsular - é absolutamente brilhante. Mais do que podem, é forçoso que vão ao You Tube vê-lo.
Não percam!

Homem de acção, Teddy Roosevelt disse:


"I am a part of everything that I have read."
Podereis pensar que estou a expor uma dicotomia entre agir e ler (pensar). Recorde-se, porém, que, na esteira de Kant, Emerson demonstrou, entre outros, em The American Scholar, que a acção é inerente ao pensamento.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Uma cidade de sons


A propósito de uma leitura estética de Nova Iorque, escreve Andrea K. Scott em The New Yorker:

'New York is a city of sounds, not all of them soothing. An antidote to the sirens, the garbage trucks, and the unsavory cooing of pigeons has arrived on the High Line: Stephen Vitiello’s enchanting audio installation “A Bell for Every Minute,” the latest public-art offering from Creative Time. Part flâneur, part urban anthropologist, the forty-five-year-old artist—a native New Yorker, now based in Virginia—combed the five boroughs recording the ringing of bells, everywhere from Aqueduct, at the start of a race, to McSorley’s Old Ale House, at last call. Fifty-nine of them chime (or, in the case of a belly dancer’s accoutrements, jingle) at the rate of one per minute, from speakers installed in a tunnel over Fourteenth Street. (Time your trip to the top of the hour and you’ll hear all the bells ring in unison.) A map charts the sounds’ sources—Trinity Church, Gleason’s Gym, Cara’s bicycle—initiating an hour-long scavenger hunt you embark on simply by listening. Above all, the piece is a valentine; think of it as a harmonic update of E. B. White’s “Here Is New York.'

domingo, 19 de setembro de 2010

Como representar o que está para além da representação?


Uma eventual resposta para esta questão pode ser encontrada na obra do padre dominicano Kim En Joong.
Escreve-se, a propósito dos seus vitrais para a Basílica de São Julião, em Brioude (França), no site da Pastoral da Cultura:
"Estas obras de traço limpo e informal, que coabitam com vitrais tradicionais dispostos no deambulatório, iluminam e transfiguram os espaços imponentes do templo. ...
A cada hora que passa, a luz transmite sempre algo de novo – de manhã, tons de azul e de verde, à tarde uma coloração avermelhada. Podemos passar um dia na basílica e a cada hora vê-se sempre algo de diferente.E há quem refira que as cambiantes de luz são também uma oportunidade para manifestar a passagem do tempo.
O artista atribuiu a cada vitral a imagem de um profeta ou de um santo: Moisés, Elias, Isaías, Ezequiel, Jeremias, Daniel, os quatro evangelistas e os apóstolos, além, naturalmente, de São Julião.
Fugindo às representações clássicas da Bíblia e da história do cristianismo, o Fr. Kim En Joong aposta nas cores, cuja vibração, explica, deve fazer transparecer 'aquilo que nunca pôde ser representado'.
O vermelho assinala o amor trinitário, a sarça ardente, o carro de fogo de Elias, o sangue de Cristo redentor. O azul é o céu e a pureza, o convite ao infinito e à imaterialidade, além de ser a cor de Maria.
O amarelo, durante muito tempo considerado uma cor menor na história da pintura, surpreende o visitante, manifestando a alegria do Magnificat e a ascensão, ligada à ressurreição.
O verde é expressão do princípio vital, da Árvore da Vida, da natureza e do apaziguamento. E também o preto e branco, simbolizando 'o combate entre as trevas e a luz'”.

Podereis ver exemplos do seu trabalho em:
http://www.snpcultura.org/tvb_vitrais_kim_en_jooong.html

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"A mulher canhão", ou "E con le mani amore, per le mani ti prenderò"



O número três tem as suas virtudes como ensinam a religião, a alquimia, simbologias várias. Por isso mesmo hoje é o terceiro dia, com o qual concluo, aliás, a minha cruzada sobre o Francesco De Gregori.
Para terminar, trago-vos La donna cannone, um texto de que gosto muito quer pela forma como ele toma uma imagem antipática e a subverte quer pela musicalidade dos seus versos.
Imagem antipática: donna cannone, isto é, a mulher canhão. Que raio de nome este para falar de amor?
À medida que os versos se seguem, este efeito é desconstruído, e o impacto inicial esquecido, transportados que somos para um espaço de intensa afectividade.
Por outro lado, a melodia: reparem na musicalidade de cada verso.
Aqui fica o texto que, à semelhança dos anteriores, podereis ver no You Tube.
Há quem considere esta uma das canções mais belas escritas em Itália nos últimos trinta anos. Com os meus limitados conhecimentos a este nível, não posso, nem quero, discordar.
Se a esta juntarmos Santa Lucia, aquela com que abri este capítulo sobre o De Gregori, é um feito!
Se depois disto não sentirem curiosidade em ouvi-lo, o problema é vosso, e, acima de tudo, não digam que não vos avisei.
Voilà:

"Butterò questo mio enorme cuore tra le stelle un giorno,
giuro che lo farò,
e oltre l'azzurro della tenda nell'azzurro io volerò.
Quando la donna cannone d'oro e d'argento diventerà,
senza passare dalla stazione l'ultimo treno prenderà.
E in faccia ai maligni e ai superbi il mio nome scintillerà,
dalle porte della notte il giorno si bloccherà,
un applauso del pubblico pagante lo sottolineerà
e dalla bocca del cannone una canzone suonerà.

E con le mani amore, per le mani ti prenderò
e senza dire parole nel mio cuore ti porterò
e non aver paura se non sarò come bella come dici tu
ma voleremo in cielo in carne ed ossa, non torneremo....
Più, uuu uuu uuu uuu na na na na na
E senza fame e senza sete
e senza aria e senza rete voleremo via.

Così la donna cannone, quell'enorme mistero volò,
sola verso un cielo nero s'incamminò.
Tutti chiusero gli occhi nell'attimo esatto in cui sparì,
altri giurarono e spergiurarono che non erano rimasti lì.
E con le mani amore, per le mani ti prenderò
e senza dire parole nel mio cuore ti porterò
e non aver paura se non sarò come bella come dici tu
ma voleremo in cielo in carne ed ossa, non torneremo....
Più."

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Presenças do mito americano



Para a minha geração, o imaginário do faroeste marcou os verdes anos.
Independentemente de hoje em dia ser hábito dizer que as nossas simpatias tombam sobre os índios, não me recordo de, naqueles tempos, ser fácil encontrar quem quisesse engrossar as suas hostes, excepto, claro, se houvesse algum artefacto mais singular.
Ora, é exactamente desse imaginário, misturado com uma dose de romantismo do herói vagabundo tipo anos sessenta e setenta, que fala esta canção de De Gregori, Buffalo Bill, de seu título.
Um romantismo dos vagabundos que se encontra em Piazza Grande, de Lucio Dalla, por exemplo.
Quando a canção de De Gregori surgiu, houve quem a atacasse, acusando-a de aproveitamento político de um imaginário.
Acho o argumento simplesmente estúpido, em particular quando lemos atentamente o texto.
E ao lê-lo é toda uma percepção algo idealizada do mito que, para mim, se impõe.
Haverá algum mal nisso?
Aliás, que a idealização participa da construção do mito é algo que dificilmente será contrariado.
Um dado ainda a reter, particularmente relevante para a compreensão da forma como ela revisita o mito: De Gregori escreveu Buffalo Bill após ter visto o filme The Ballad of Cable Hogue de Sam Peckinpah.
No YouTube podereis ver versões da canção em concertos dos anos setenta.
Quanto ao texto deixo-o aqui com o convite à leitura, e não se esqueçam de trazer à mente aquilo que Francis Parkman escreveu sobre a fronteira:

"Il paese era molto giovane,
i soldati a cavallo erano la sua difesa.
Il verde brillante della prateria
dimostrava in maniera lampante l'esistenza di Dio,
del Dio che progetta la frontiera e costruisce la ferrovia.
A quel tempo io ero un ragazzo
che giocava a ramino, fischiava alle donne.
Credulone e romantico, con due baffi da uomo.
Se avessi potuto scegliere fra la vita e la morte,
fra la vita e la morte, avrei scelto l'America.

Tra bufalo e locomotiva la differenza salta agli occhi:
la locomotiva ha la strada segnata,
il bufalo può scartare di lato e cadere.
Questo decise la sorte del bufalo,
l'avvenire dei miei baffi e il mio mestiere.
Ora ti voglio dire: c'è chi uccide per rubare
e c'è chi uccide per amore,
il cacciatore uccide sempre per giocare,
io uccidevo per essere il migliore.
Mio padre guardiano di mucche,
mia madre una contadina.
Io, unico figlio biondo quasi come Gesù,
avevo pochi anni e vent'anni sembran pochi,
poi ti volti a guardarli e non li trovi più.
E mi ricordo infatti di un pomeriggio triste,
io, col mio amico 'Culo di gomma', famoso meccanico,
sul ciglio di una strada a contemplare l'America,
diminuzione dei cavalli, aumento dell'ottimismo.
Mi presentarono i miei cinquant'anni
e un contratto col circo 'Pacebbeene' a girare l'Europa.
E firmai, col mio nome e firmai,
e il mio nome era Bufalo Bill."

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O príncipe poeta,




assim é conhecido Francesco De Gregori.
Tive a fortuna de um amigo, Fiorenzo Brighenti, me ter apresentado a sua música andávamos ainda os três, o De Gregori, o Francesco e eu, pelos vinte anos.
Muitos anos passaram e o De Gregori completou em Abril sessenta anos.
Desde que o conheci, através do famoso álbum Banana Republic, com o Lucio Dalla, que nunca mais deixei de o ter junto a mim.
Escolhi-o, por isso, hoje ao regressar após dois meses de silêncio.
Para regressar em grande!
A De Gregori devo uma das mais belas canções que, desde 1979, recito de cor. Dá pelo nome da Santa Lucia (não confundir com as homónimas cantadas por Pavaroti ou por Bocelli).
Num concerto, Lucio Dalla (a brincar) disse que sentia inveja por não ter escrito esta canção. Em 2007, creio, numa entrevista na televisão referiu que a ouvira na véspera em casa de um amigo e que se emocionara como quando a ouvira pela primeira vez.
Parafraseando Benard da Costa que dizia não poder ser amigo de quem não gostasse do cinema de Manoel de Oliveira, eu solenemente afirmo que não poderei sentir simpatia alguma por quem oiça Santa Lucia sem se emocionar!
Creio que a ela se aplica aquilo que Leonard Cohen disse a propósito de uma melodia sua, it is more a prayer than a song.
Tive essa percepção muito nítida há dias, ao ler uma oração à Madonna della Strada, numa capela, em Roma.
Num site que vos recomendo, nomeadamente sobre as influências na sua música da folk americana, e de Dylan em particular, escreve-se: "una splendida preghiera laica per piano-voce."
Perfeito!
O site é o seguinte: http://www.ondarock.it/italia/francescodegregori.htm
Se quiserem ouvir a música, encontrá-la-eis facilmente no You Tube em múltiplas versões e em múltiplos instantes.
Agora deixo-vos as palavras:

"Santa Lucia, per tutti quelli che hanno occhi
e
e un cuore che non basta agli occhi
e
per la tranquillità di chi va per mare

e per ogni lacrima sul tuo vestito,

per chi non ha capito.

Santa Lucia, per chi beve di notte

e di notte muore e di notte legge

e cade sul suo ultimo metro,

per gli amici che vanno e ritornano indietro

e hanno perduto l'anima e le ali.

Per chi vive all'incrocio dei venti

ed è bruciato vivo,

per le persone facili che non hanno dubbi mai,

per la nostra corona di stelle e di spine,

per la nostra paura del buio e della fantasia.

Santa Lucia, il violino dei poveri è una barca sfondata

e un ragazzino al secondo piano che canta,

ride e stona perchè vada lontano,

fa che gli sia dolce anche la pioggia delle scarpe,

anche la solitudine."