sábado, 8 de agosto de 2009

Natália Correia e o pc


De tão politicamente incorrecto, não resisto a transcrever este passo da narrativa de viagens ontem mencionada e citada:
'Neste «night-club» [The Village Barn] observei uma coisa que só vi nos «cabarets» de Marrocos e do Egipto, mas em circunstâncias bastante diferentes: mulheres dançando com mulheres. ... Compreendo que as diversões e a alegria que delas advém, não são monopólio da juventude nem da beleza. Mas a dança é um acto virtualmente sexual. Só a admito entre um homem e uma mulher. Duas mulheres dançando não fazem sentido. É uma aberração estética. As únicas combinações sexuais que se suportam vestidas são as do homem e da mulher. Só a completa nudez permite a rebusca da emoção estética na heterogeneidade sexual. Cobertas, as pessoas têm o dever de serem coerentes com o traje que envergam.' (pp. 130-131)
Voltarei a outros passos nos próximos dias.
Bom Sábado e boas leituras... ou boas músicas (não esquecer os derradeiros dias do Jazz em Agosto na Gulbenkian!)!
A propósito, o quadro de Natália Correia acima reproduzido, é da autoria de Artur Bual.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Natália Correia e os Estados Unidos


Sabia da existência deste livro mas nunca o lera. Seu título é Descobri que era europeia - Impressões duma viagem à América, e foi publicado pela Portugália em 1951; Natália Correia escreveu-o no ano anterior.
Quis o destino que o encontrasse num alfarrabista há uma semana atrás.
É uma narrativa de viagens, escrita, como referi, logo após a II Guerra Mundial, aquando dos primeiros vestígios do macartismo. E, como qualquer narrativa de viagens, revela mais acerca de quem escreve do que dos lugares visitados.

A primeira coisa que, por processos ínvios, me veio à memória, quando comecei a lê-las, foi um outro livro, I like it here, de Kingsley Amis, um romance escrito sensivelmente na mesma altura mas que decorre em Portugal. Curiosamente, "isto aqui" não se refere a Portugal, mas sim à Inglaterra.
Ora, Natália Correia descobre a sua "europeidade" (esta palavra existe?) no Novo Mundo ao aperceber-se das radicais diferenças culturais entre este e o Velho.
Vejam este passo no qual a escritora regista a sua perplexidade:
"Onde é possível encontrar na culta Europa, numa pequena e longínqua cidade sem tradições de cultura, um museu apetrechado das melhores expressões da rate moderna; e crianças interessadas pela pintura?
Este país confunde as pessoas com melhores ou piores intenções a seu respeito. Felizmente não passo de simples espectadora." (p. 111)
Como se vê neste passo, não é apenas uma questão cultural, mas também política que nesse exemplo se exibe. E, no seu centro, persiste uma noção de comunidade. Democrática, claro!
Se encontrarem este livro, agarrem-no, visto tratar-se de um interessante documento de época que exibe a infinita capacidade que o Novo Mundo tem de nos levar a pensar para além dos clichés.
Boas leituras!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O sentido de comunidade, numa acepção anglo-saxónica,

tal como a tenho entendido no diálogo com aqueles que me têm acompanhado ao longo dos anos, constrói-se livremente e significa comunhão, jogo de simpatias, e não hierarquia, imposição de poder(es).

Um resto de bom dia!

Preencher uma ausência

não será por certo, mas esta iniciativa da Assírio & Alvim ajudará a divulgar um nome que, desde o início dos anos sessenta, tem permanecido nas margens dos discursos dominantes.
Aqui fica a informação: a obra poético-literária reunida de M. S. Lourenço será lançada no Outono deste ano, com o título O Caminho dos Pisões.
Até lá podemos ir relendo alguma da sua obra ensaística.
Boas leituras!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Brave New World

Podemos ler hoje no Diário de Notícias:

'O nível de segurança da Internet no sector estatal é considerado "perigoso", sendo que pelo menos um em cada cinco computadores está vulnerável e no máximo um em cada dois, segundo um estudo que é hoje apresentado.

O sistema informático NONIUS, desenvolvido pela Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra e Instituto Pedro Nunes, analisou cerca de 4,5 milhões de endereços da internet (IP) e domínios ".pt" do sector público e privado, desde universidades, empresas, bancos e ministérios, entre outros, representando assim toda a internet portuguesa.

Em declarações à Agência Lusa, o investigador Francisco Rente indicou que nos endereços e sites testados do sector público, o nível de segurança passou de "aceitável" para "perigoso" entre Junho de 2008 e Julho de 2009, o que significa que "pelo menos um em cada cinco computadores encontra-se vulnerável e no máximo um em cada dois".'


Infelizmente quem nos governa não leu as grandes distopias do século XX
. Tivessem lido, e não ficariam deslumbrados pelas "novas tecnologias".
Entretanto, a vigilância sobre os cidadãos e as cidadãs acentua-se perigosamente.
E sem razões para nos sentirmos protegidos/as, claro!
Porque não regressar a Orwell, a Huxley e a Bradbury?
Boas leituras!

Leitura de férias é uma expressão particularmente

perigosa, visto habitualmente significar "leitura light"; isto é, chegadas as férias, simplesmente podemos desperdiçar o nosso tempo.
Ora, porque o tempo é sempre precioso, nomeadamente quando se trata de o desfrutar, deixo-vos a indicação de um livro apaixonante que, estou certo, vos abrirá várias portas (pelo menos, a mim, abriu!).
O seu título é Translocal Modernisms - International Perspectives, foi organizado por Maria Irene Ramalho e António Sousa Ribeiro (Bern: Peter Lang, 2008), e está dividido em quatro secções: Times and Spaces of Modernism, The Color of Modernism, Theories and Practices of Modernism e Modernism Otherwise.
A qualidade das colaborações (envolvendo várias gerações de investigadores) demonstra a vitalidade desta área científica.
Boas leiuras!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Subscrevo João César das Neves quando escreve:

"Os blogs, mensagens em massa, redes sociais, mundos virtuais e outros sites de interacção tornaram-se subitamente muito populares. Aí multidões gastam o tempo livre (e boa fatia do que devia estar ocupado) a participar naquilo que dizem ser relação social. Mas, ..., estes contactos não constituem verdadeira conversação humana. Se podem evoluir para algo com significado, em geral não passam de dissipação e ociosidade.

Um colóquio tem certas exigências particulares. Não é possível entabular contactos relevantes e válidos com desconhecidos ou passantes eventuais. Isso é verdade na rua como na Net, por muito que isso frustre as certezas dos fanáticos da novidade. Podem fazer-se novas amizades no mundo virtual, mas à custa das antigas e verdadeiras amizades." (Diário de Notícias, 03/07/09)

Daí que este meu espaço seja dedicado à comunidade que partilha de uma sensibilidade cultural muito específica.

Daí que este espaço seja referenciado como: "Um lugar de encontro sobre a literatura e as artes no(s) espaço(s) anglo-americano(s), com alguns envios para outras cumplicidades."

Daí que, quando as aulas de mestrado começavam (por circunstâncias que me escapam, não sei quando voltarão a começar), eu tivesse por hábito dizer aos/às mestrandos/as que, a partir daquele instante, passavam a integrar uma comunidade.

Um resto de bom dia, e aproveitem-no para ler o artigo do professor César das Neves... como sempre, vale a pena!