quinta-feira, 4 de maio de 2017

Ciclo Mizoguchi no Nimas - A não perder

Sobre este filme escreveu João Bénard da Costa: “Pessoalmente, sustento que Os amantes crucificados é a obra-prima de Mizoguchi e um dos cinco ou seis maiores filmes da história do cinema, talvez até uma das cinco ou seis obras maiores da história da criação artística... Em metáforas ocidentais, Os amantes crucificados começa em comédias de engano e acaba em Tristão e Isolda. Passa pela luz de Vermeer, atinge a de Rembrandt (quem, senão ele, 'pintou' as sequências na cabana ao pé da casa do pai, os fenos e a luz dessa última aurora?) e termina numa das grandes Paixões renascentistas, quando nada mais se sublinha que o insublinhável.” De assinalar o catálogo que acompanha este ciclo, no qual pontua o olhar atento e culto de Bénard da Costa, como este breve passo tão bem identifica.

Uma reflexão fascinante sobre o exercício da crítica

Refiro-me a Uma aproximação à estranheza, de Frederico Pedreira, obra que recebu o prémio de ensaio Vasco Graça Moura, da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Com as devidas adaptações, talvez a este autor se possa aplicar aquilo que ele escreve a propósito de Mathew Arnold: "Arnold apresenta esta ideia como algo muito distante daquilo que é a crítica inglesa da sua época, uma crítica que assume propósitos e motivações exteriores aos objectos da sua atenção, com fins práticos delimitados por necessidades também elas práticas, não sendo assim fruto de uma vontade de se aproximar do melhor que é conhecido e pensado no mundo, 'independentemente de costumes, políticas e de tudo o que pertence a essas categorias.'" (p. 48)

A não perder

Paraíso, uma abordagem de profunda intensidade estética dos horrores do nazismo por parte do realizador russo Andrei Konchalóvskii. A não perder!

Caminhos

Precisamos de alimento para o caminho. Os nossos dias são abreviados com os ritmos rápidos e frenéticos em que vivemos. E só quando paramos, só quando nos detemos somos capazes de contemplar, com a largueza do nosso olhar, a beleza, a imensidão e a exigência que a nossa vida representa. Detém-te, hoje, neste olhar, e pede o único pão que te alimenta para o teu longo caminhar.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

"Posto avançado do progresso"

Quem ainda não viu, tem hoje uma oportunidade no Monumental. By the way, sei que não está na moda, mas que tal reler "A selva", de Ferreira de Castro?

A propósito do filme de Julien Salmani

impulsionado pelo texto homónimo de Conrad, aqui vos deixo este excerto que o filme tão bem captou:The deck was a wilderness of smashed timber, lying crosswise like trees in a wood after a hurricane; an immense curtain of soiled rags waved gently before me—it was the mainsail blown to strips. I thought, The masts will be toppling over directly; and to get out of the way bolted on all-fours towards the poop-ladder. The first person I saw was Mahon, with eyes like saucers, his mouth open, and the long white hair standing straight on end round his head like a silver halo. He was just about to go down when the sight of the main-deck stirring, heaving up, and changing into splinters before his eyes, petrified him on the top step. I stared at him in unbelief, and he stared at me with a queer kind of shocked curiosity. I did not know that I had no hair, no eyebrows, no eyelashes, that my young mustache was burnt off, that my face was black, one cheek laid open, my nose cut, and my chin bleeding. I had lost my cap, one of my slippers, and my shirt was torn to rags. Of all this I was not aware. I was amazed to see the ship still afloat, the poop-deck whole—and, most of all, to see anybody alive. Also the peace of the sky and the serenity of the sea were distinctly surprising. I suppose I expected to see them convulsed with horror. . . . Pass the bottle. Repararam na última palavra? Horror, claro. Uma antecipação das derradeiras palavras de Kurtz em Heart of Darkness. Concluindo, não percam o filme. Quanto ao texto, é de fácil acesso online.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Antes da ceia em Emaús

como Caravaggio a concebeu, houve o encontro na estrada que São Gregório Magno (c. 540-604), papa, doutor da Igreja, na Homilia 23 sobre o Evangelho, assim interpretou: Ora, a Verdade caminhava com eles; não podiam pois continuar estranhos ao amor: ofereceram-Lhe hospitalidade, propondo-Lhe que pernoitasse com eles, como se costuma fazer aos viajantes. Mas porque dizemos que Lho propuseram, quando está escrito: «Insistiram com Ele»? Este exemplo mostra-nos bem que não devemos apenas oferecer hospitalidade aos viajantes, mas fazê-lo com insistência. Os discípulos puseram a mesa, ofereceram da sua ceia; e, não tendo reconhecido a Deus quando da sua explicação da Sagrada Escritura, eis que O reconhecem agora, na fracção do pão. Não foi pois ao escutar os mandamentos de Deus que ficaram iluminados, mas ao pô-los em prática.