segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mais um lugar imaginário

Torre da Barbela – Dir-se-á que o lugar efectivamente existe. Comprová-lo-ão as peregrinações dos amigos de Ruben, às quais não terão faltado as devidas e peculiares assombrações, como um dia relatou Guilherme d’Oliveira Martins. Mas nem elas puderam testemunhar os encontros que, ao cair da noite, animam o outrora próspero condado da Barbela; recorde-se que [n]a embaixada que D. Manuel mandou ao papa Leão X ia a carroça típica, carregada das especialidades do condado da Barbela… Quando emergem as personagens que, ao longo dos séculos testemunharam a nossa História, de imediato reconhecemos a nossa identidade: a nostalgia que irremediavelmente nos prende a um passado perdido e que faz com que … as pessoas fal[e]m todas da véspera…; o nosso reconhecido impulso para o improviso (Nós improvisamos e aí é que somos geniais.); a reiterada incapacidade de reconhecer a nossa verdadeira dimensão (… Notre-Dâme, um pouco maior que a da Moutosa onde havia sermões de sete horas sem interrupção.); uma sensibilidade que nos torna, reconheça-se, fascinantes e que se projecta nesses … versos simples que atravessam a história cantando um lirismo tranquilo e saudoso. Tudo isso Ruben A. viu e descreveu com superior sentido de humor nesta obra que continua a ser um dos mais belos auto-retratos deste lugar em que vivemos e daquilo que somos. (Ruben A. A Torre da Barbela, 1964)

Dicionário de Lugares Imaginários

Eis um dos lugares imaginários que referi quando, há uns anos, o Jornal de Letras me pediu uma contribuição sobre este tópico:Ecotopia – Em 1981, uma guerra de secessão leva à separação da Califórnia, de Washington e do Oregon dos Estados Unidos da América. No novo país que dá pelo nome de Ecotopia , e que, segundo Joel Barlow, faz fronteira com os loci culturais Mexamerica e Empty Quarter (por nós conhecido por Midwest), predomina uma sociedade onde ecologia, socialismo (devedor da Revolução Cultural Chinesa) e feminismo convergem para dar corpo à desejada utopia. Ernest Callenbach descreve da seguinte forma os seus habitantes: … muitos ecotopianos assemelhavam-se aos antigos habitantes do Oeste … como se fossem personagens da Corrida ao Ouro renascidas … frequentemente estranhas, mas não com um ar louco ou sórdido como o dos hippies dos anos sessenta. Por seu turno, a concepção do espaço urbano evoca alguns dos momentos mais visionários de Hundertwasser; veja-se Market Street em S. Francisco: Nesta avenida principal podem-se ver séries de pequenas e encantadoras cascatas, com água caindo, e canais com pedras, árvores bambus, sebes. Afinal, onde se poderia pensar a utopia na América, senão sempre mais a Oeste? (Ernest Callenbach, Ecotopia, 1975; Joel Barlow, The Nine Nations of North America, 1981)

Uma sugestão

Foi inaugurada há dias, na Fundação D. Luís, uma exposição que recomendo. Tem como mote "Roque Gameiro, uma família de artistas", abarca diferentes gerações e estende-se por vários andares do edifício do Centro Cultural de Cascais. Para além das nem sempre claras interacções familiares, admiro, em particular, as aguarelas do Mestre, os detalhes na representação do espaço.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Problemas do realismo

Serge Daney, arguto como sempre,desvendando o subtexto político de Stalker: And what of these prematurely aged faces, these mini-Zones where grimaces have become wrinkles? And the self-effacing violence of those who wait to receive a beating (or maybe to give a beating if they haven't forgotten how?) And what of the false calm of the dangerous monomaniac and the empty reasonings of a man who is too solitary? These do not come only from Tarkovsky's imagination. They cannot be invented, they come from elsewhere. But from where? STALKER is a metaphysical fable, a course in courage, a lesson in faith, a reflexion on the end of time, a quest, whatever one wants. STALKER is also the film in which we come across, for the first time, bodies and faces which come from a place we know about only through hear-say. A place whose traces we thought the Soviet cinema had lost completely. This place is the Gulag. The Zone is also an archipelago. STALKER is also a realist film.

The hireling shepherd

Neste quadro do pré-rafaelita William Holman Hunt persiste um subtexto,Evangelho de Mateus 18,12-14: "Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas e uma delas se tresmalhar, não deixará as noventa e nove nos montes para ir procurar a que anda tresmalhada? E se chegar a encontrá-la, em verdade vos digo que se alegra mais por causa dela do que pelas noventa e nove que não se tresmalharam." E, na denegação do que aqui se recomenda, é uma moral vitoriana que se insinua.Caroline Healey [English/History of Art 151, Pre-Raphaelites, Aesthetes, and Decadents, Brown University, 2004], desenvolve esta última dimensão, ligando-a a uma tradição pictórica: William Holman Hunt's The Hireling Shepherd epitomizes the painter's emulation of Hogarthian techniques and his quest for typological symbolism. The painting centers on a realistically rendered shepherd and shepherdess, reclining in a field beside a row of trees. Dressed in a typical field worker's attire, the shepherd leans seductively toward the young woman, his head practically resting on her shoulder. In her loose-fitting casual dress, the shepherdess reciprocates his feelings through her suggestive body language. She leans back toward him and reaches her right arm back to seemingly grasp his; however, her facial expression is less inviting, bearing a hint of excessive pride. To the right of the couple, a lamb sits, eating apples. More apples, flowers, and grass dominate the foreground of the image, while sheep graze in a shady area to the shepherd's left. although at first glance, The Hireling Shepherd appears to be a straightforward country scene, it is full of symbolic meaning. Hunt believed that to have any sort of value or vitality, art needed to possess religious significance and emotional resonance with the viewer. He rendered the The Hireling Shepherd in a highly realistic manner, however, Hunt often stressed that realism was not his primary goal in painting. Similar to Hogarth's work, Industry and Idleness, Hunt used The Hireling Shepherd to emphasize the importance of a good work ethic for all citizens and to show the potentially harmful effects of idleness. As a result of the shepherd's neglect, the land has turned marshy and the sheep are in poor health.

domingo, 27 de novembro de 2016

A propósito de Stalker, de Andrei Tarkovsky

"STALKER is a metaphysical fable, a course in courage, a lesson in faith, a reflexion on the end of time, a quest, whatever one wants. STALKER is also the film in which we come across, for the first time, bodies and faces which come from a place we know about only through hear-say. A place whose traces we thought the Soviet cinema had lost completely. This place is the Gulag. The Zone is also an archipelago. STALKER is also a realist film." Serge Daney Na próxima quarta-feira de manhã abordarei este filme no congresso sobre cinema que decorre na Faculdade de Letras de Lisboa.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Há uns anos, numa das primeiras vezes que falei

com o Padre e Teólogo Alexandre Palma, mencionei-lhe uns versos de Leonard Cohen, There is a crack in everything / That"s how the light gets in. Para surpresa minha, ele sorriu e disse-me que os citara num texto seu. Kindred spirits, portanto. Agora, Alexandre Palma reflecte sobre o tópico inesperado, "Cohen, Teólogo", e vale a pena ler. O artigo foi publicado no Diário de Notícias, no passado dia 11 de Novembro. Ei-lo, na íntegra: «Leonard Cohen foi um grande teólogo deste tempo. Afirmá-lo não é a cedência fácil à comoção da sua partida. Reconhecê-lo é, antes, sublinhar um dos traços que fizeram dele, como bem anotava o seu epitáfio no Twitter, um "visionário" na música contemporânea. E não é um lapso que o considere precisamente teólogo. Porque a religiosidade da sua música vai muito para lá das referências bíblicas, espirituais e transconfessionais com que se tece a sua lírica. Porque o eco de Deus na sua obra afina-se com esse diálogo, mas nasce antes e vai mais longe. Nasce de uma inquietude perante a vida que não se sabe dizer sem Deus. E chega à hipótese de um divino ferido, amigo, portanto, do percurso acidentado de Cohen e também de todos os que têm de lutar para crer. Dir-se-ia que a gravidade do seu timbre foi feita para a gravidade do que ele canta. O casamento nele entre voz e palavra não poderia ter sido mais indissolúvel e fecundo. Talvez seja broken a palavra mais teológica do seu léxico. Estranhará que assim seja apenas quem tem de Deus uma ideia naïf e para com a religião uma atitude triunfalista. Cohen não as tinha. Para ele é na falha, na quebra, na fenda que a questão se decide. Nele cantaram todos quantos apenas podem elevar aos céus um "broken Hallelujah" (in Hallelujah). Isto Cohen percebeu como poucos: o teólogo não pode ignorar as feridas que este tempo traz no corpo. E são tantas. E a sua memória tão viva. O louvor que a humanidade pode, então, prestar a Deus está ferido e quebrado, mesmo se não impossibilitado. Porque também disto é Cohen um profeta: essas feridas não mataram o que em nós é música e Hallelujah. Nele cantou-se igualmente a falha como desbloqueio e não somente como défice: "There is a crack in everything / That"s how the light gets in" (in Anthem). Há nisto uma tal sabedoria do humano que toca o divino. O realismo de reconhecer que em tudo uma falha existe. A inteligência de perceber que essa falha não é vazio, mas habitação e estrada de uma luz que permite ver e ser visto. Teologicamente falando, de poder ver a Deus e ser por ele visto. Mas com a ousadia que se exige a todo o teologar e transportado pela narrativa bíblica, Cohen canta ainda um Deus ferido ("you showed me where you had been wounded") e com o nome broken inscrito em cada átomo (in Born in Chains). Uma tal ideia, nada desconhecida de tradições teológicas como a judaico-cristã, transborda de teologia. Cantando e escrevendo, Cohen pensou, desabafou, rezou, amou. Sempre com aquele jeito cavalheiresco cultuado noutras eras. Porque assim era, um gentleman em palco e fora dele. Honrou assim o nome que celebrizou. Foi kohen, isto é, sacerdote, fazendo das letras e da música como que um santuário. Porque a forma mais recorrente de Deus na sua obra será mesmo a da invocação. E também assim se faz e fez teologia. Não apenas falando de Deus, mas falando a Deus. Ter--lhe-á este agora manifestado a sua vontade: "If it be your will / That I speak no more / And my voice be still / As it was before" (in If It Be Your Will). Ter-lhe-á este agora respondido à sua "antiga ideia": "Show me the place where you want your slave to go" (in Old Ideas). Talvez porque tenha acreditado nele, quando Leonard Cohen lhe cantou: "I"m ready, my Lord" (in You Want it Darker).»