terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Problemas do realismo
Serge Daney, arguto como sempre,desvendando o subtexto político de Stalker: And what of these prematurely aged faces, these mini-Zones where grimaces have become wrinkles? And the self-effacing violence of those who wait to receive a beating (or maybe to give a beating if they haven't forgotten how?) And what of the false calm of the dangerous monomaniac and the empty reasonings of a man who is too solitary?
These do not come only from Tarkovsky's imagination. They cannot be invented, they come from elsewhere. But from where? STALKER is a metaphysical fable, a course in courage, a lesson in faith, a reflexion on the end of time, a quest, whatever one wants. STALKER is also the film in which we come across, for the first time, bodies and faces which come from a place we know about only through hear-say. A place whose traces we thought the Soviet cinema had lost completely. This place is the Gulag. The Zone is also an archipelago. STALKER is also a realist film.
The hireling shepherd
Neste quadro do pré-rafaelita William Holman Hunt persiste um subtexto,Evangelho de Mateus 18,12-14:
"Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas e uma delas se tresmalhar, não deixará as noventa e nove nos montes para ir procurar a que anda tresmalhada?
E se chegar a encontrá-la, em verdade vos digo que se alegra mais por causa dela do que pelas noventa e nove que não se tresmalharam." E, na denegação do que aqui se recomenda, é uma moral vitoriana que se insinua.Caroline Healey [English/History of Art 151, Pre-Raphaelites, Aesthetes, and Decadents, Brown University, 2004], desenvolve esta última dimensão, ligando-a a uma tradição pictórica: William Holman Hunt's The Hireling Shepherd epitomizes the painter's emulation of Hogarthian techniques and his quest for typological symbolism. The painting centers on a realistically rendered shepherd and shepherdess, reclining in a field beside a row of trees. Dressed in a typical field worker's attire, the shepherd leans seductively toward the young woman, his head practically resting on her shoulder. In her loose-fitting casual dress, the shepherdess reciprocates his feelings through her suggestive body language. She leans back toward him and reaches her right arm back to seemingly grasp his; however, her facial expression is less inviting, bearing a hint of excessive pride. To the right of the couple, a lamb sits, eating apples. More apples, flowers, and grass dominate the foreground of the image, while sheep graze in a shady area to the shepherd's left.
although at first glance, The Hireling Shepherd appears to be a straightforward country scene, it is full of symbolic meaning. Hunt believed that to have any sort of value or vitality, art needed to possess religious significance and emotional resonance with the viewer. He rendered the The Hireling Shepherd in a highly realistic manner, however, Hunt often stressed that realism was not his primary goal in painting. Similar to Hogarth's work, Industry and Idleness, Hunt used The Hireling Shepherd to emphasize the importance of a good work ethic for all citizens and to show the potentially harmful effects of idleness. As a result of the shepherd's neglect, the land has turned marshy and the sheep are in poor health.
domingo, 27 de novembro de 2016
A propósito de Stalker, de Andrei Tarkovsky
"STALKER is a metaphysical fable, a course in courage, a lesson in faith, a reflexion on the end of time, a quest, whatever one wants. STALKER is also the film in which we come across, for the first time, bodies and faces which come from a place we know about only through hear-say. A place whose traces we thought the Soviet cinema had lost completely. This place is the Gulag. The Zone is also an archipelago. STALKER is also a realist film." Serge Daney
Na próxima quarta-feira de manhã abordarei este filme no congresso sobre cinema que decorre na Faculdade de Letras de Lisboa.
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Há uns anos, numa das primeiras vezes que falei
com o Padre e Teólogo Alexandre Palma, mencionei-lhe uns versos de Leonard Cohen, There is a crack in everything / That"s how the light gets in. Para surpresa minha, ele sorriu e disse-me que os citara num texto seu. Kindred spirits, portanto. Agora, Alexandre Palma reflecte sobre o tópico inesperado, "Cohen, Teólogo", e vale a pena ler. O artigo foi publicado no Diário de Notícias, no passado dia 11 de Novembro. Ei-lo, na íntegra: «Leonard Cohen foi um grande teólogo deste tempo. Afirmá-lo não é a cedência fácil à comoção da sua partida. Reconhecê-lo é, antes, sublinhar um dos traços que fizeram dele, como bem anotava o seu epitáfio no Twitter, um "visionário" na música contemporânea. E não é um lapso que o considere precisamente teólogo. Porque a religiosidade da sua música vai muito para lá das referências bíblicas, espirituais e transconfessionais com que se tece a sua lírica. Porque o eco de Deus na sua obra afina-se com esse diálogo, mas nasce antes e vai mais longe. Nasce de uma inquietude perante a vida que não se sabe dizer sem Deus. E chega à hipótese de um divino ferido, amigo, portanto, do percurso acidentado de Cohen e também de todos os que têm de lutar para crer. Dir-se-ia que a gravidade do seu timbre foi feita para a gravidade do que ele canta. O casamento nele entre voz e palavra não poderia ter sido mais indissolúvel e fecundo.
Talvez seja broken a palavra mais teológica do seu léxico. Estranhará que assim seja apenas quem tem de Deus uma ideia naïf e para com a religião uma atitude triunfalista. Cohen não as tinha. Para ele é na falha, na quebra, na fenda que a questão se decide. Nele cantaram todos quantos apenas podem elevar aos céus um "broken Hallelujah" (in Hallelujah). Isto Cohen percebeu como poucos: o teólogo não pode ignorar as feridas que este tempo traz no corpo. E são tantas. E a sua memória tão viva. O louvor que a humanidade pode, então, prestar a Deus está ferido e quebrado, mesmo se não impossibilitado. Porque também disto é Cohen um profeta: essas feridas não mataram o que em nós é música e Hallelujah. Nele cantou-se igualmente a falha como desbloqueio e não somente como défice: "There is a crack in everything / That"s how the light gets in" (in Anthem). Há nisto uma tal sabedoria do humano que toca o divino. O realismo de reconhecer que em tudo uma falha existe. A inteligência de perceber que essa falha não é vazio, mas habitação e estrada de uma luz que permite ver e ser visto. Teologicamente falando, de poder ver a Deus e ser por ele visto. Mas com a ousadia que se exige a todo o teologar e transportado pela narrativa bíblica, Cohen canta ainda um Deus ferido ("you showed me where you had been wounded") e com o nome broken inscrito em cada átomo (in Born in Chains). Uma tal ideia, nada desconhecida de tradições teológicas como a judaico-cristã, transborda de teologia.
Cantando e escrevendo, Cohen pensou, desabafou, rezou, amou. Sempre com aquele jeito cavalheiresco cultuado noutras eras. Porque assim era, um gentleman em palco e fora dele. Honrou assim o nome que celebrizou. Foi kohen, isto é, sacerdote, fazendo das letras e da música como que um santuário. Porque a forma mais recorrente de Deus na sua obra será mesmo a da invocação. E também assim se faz e fez teologia. Não apenas falando de Deus, mas falando a Deus. Ter--lhe-á este agora manifestado a sua vontade: "If it be your will / That I speak no more / And my voice be still / As it was before" (in If It Be Your Will). Ter-lhe-á este agora respondido à sua "antiga ideia": "Show me the place where you want your slave to go" (in Old Ideas). Talvez porque tenha acreditado nele, quando Leonard Cohen lhe cantou: "I"m ready, my Lord" (in You Want it Darker).»
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Conferência em Budapeste - Instituto Confúcio
Aqui vos deixo as irreverentes linhas iniciais da minha intervenção de encerramento neste colóquio na Universidade de Budapeste, sob os auspícios do Confúcio (o Instituto, claro) e do Camões (igualmente o Instituto).«:
No início do século XX, o poeta modernista Fernando Pessoa leu um artigo de jornal onde se referia a história de alguém que, num passeio pelas Alleghenies , encontrou uma inscrição numa rocha. Devido ao facto de não estar familiarizado com a estranha língua desta inscrição, decidiu copiá-la para que alguém a pudesse eventualmente traduzir. Ao regressar a casa, alguém lhe disse que era português e que dizia o seguinte: "O Noronha esteve aqui!" Fernando Pessoa chega à seguinte conclusão. Onde quer que se vá, percebemos que um inglês ou um português já ali estiveram. Os ingleses porque são muitos, os portugueses porque... é o destino. Irresistível este impulso de partir. Além disso, quem gravou o nome na pedra, não teve a preocupação de se identificar explicitamente, de deixar o nome próprio, de onde vinha. Fê-lo apenas pelo prazer de o fazer. Sem agenda política, pessoal, ou outra. Apenas pelo prazer de o fazer.
Cuidado com o alemão
Um livro muito interessante do Pastor Tiago Cavaco para ajudar a entender a distinção entre um enfoque católico e um protestante, e para melhor compreender a identidade cultural americana!
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
António Ernesto de Brito Botelho de Amaral (1945-2016)
Eis o António, na primeira fila, ao lado da Cristina Abreu Matos - atrás estão o António M. Feijó, a Margarida Bettencourt e a Emília Pedro, do outro lado, a Teresa Cid, o Filipe Furtado, a Maria de Jesus Relvas, e outros colegas e alunas -, há dezasseis anos nas minhas provas de agregação. Há sempre algo que desejamos guardar de alguém, um episódio, um comentário, um timbre (era o caso da saudosa Albertina Matos). Esta é a expressão que eu quero guardar dele. Apesar de não sermos da mesma geração etária (o António era onze anos mais velho), éramos da mesma geração académica: licenciámo-nos no mesmo ano, ingressámos no mesmo ano no curso de mestrado, começámos a trabalhar na Faculdade sensivelmente na mesma altura, leccionando ambos literatura americana, fizemos o doutoramento no mesmo ano, fomos ambos orientados pelo mesmo Professor – Joaquim Manuel Magalhães. No meu primeiro livro de poemas dediquei-lhe (a ele e à Mareike, companheira de percurso) um poema. Quando coordenei uma colecção de literatura na Cosmos, em finais dos anos 90, publiquei uma versão da sua tese de doutoramento – Ezra Pound – Escrita inovadora em The Cantos. Creio que a última vez que o vi (embora a memória me possa atraiçoar) foi nas suas provas de agregação. Mais alguém que parte; alguém que deixa saudade e a alegria pela fortuna de o termos conhecido, de termos privado com ele e de o termos incluído naquele grupo de pessoas que considerámos nosso amigo.
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