segunda-feira, 29 de março de 2010

"Aquele grande rio eufrates"




E o sexto anjo derramou a sua taça
sobre aquele grande rio Eufrates
Apocalipse XVI, 12

"Somos verdadeiramente pessoas seguras de si
Longe de nós — que fará ele aqui? — o pensamento
de um dia deixarmos atrás de nós um corpo
lembranças nossas em alguém vazios os lugares onde estivemos
Quem nos dirá a nós que lá no mar as ondas
não venham ainda a precisar de serem vistas
para continuar a nascer e a rebentar?
Vamos ao ponto de dar nomes de mortos às ruas
como se os mortos não pudessem voltar a morrer
o que afinal a gente vê todos os dias
Escondemos-lhes os ossos. Algum de nós era digno
de saber o que resta do seu grande segredo?"

Uma boa semana com as sensatas palavras de Ruy Belo!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Questões de identidade: o road runner somos nós?



Ou seremos nós o coiote?
Na minha infância, o road runner era uma presença habitual na televisão. O road runner, ou, como lhe chamava a tradução, o bip bip, ganhava sempre, com uma eficência tipicamente wasp; algo inodora e sensaborona até, diria.
Já o pobre do coiote, por mais artimanhas que concebesse, era um derrotado sistemático.
E, todavia, a nossa empatia era nele que recaía!
Embora, como em todos os processos heteronímicos, houvesse um bip bip dentro de nós; um bip bip que sonhasse voar estrada fora para além dos limites previsíveis.
Tenho para mim que nós, portugueses, somos como o coiote, sempre-engenhosos-eternos-derrotados que, no entanto, sonham ser velozes como o bip bip.
Sonham mas não conseguem!
Veja-se o exemplo do chefe das polícias que, qual bip bip, percorre a Avenida da Liberdade acima de toda velocidade legal e imaginariamente prevista, para acabar, qual coiote, feito em cacos junto aos Restauradores (ironia este nome na situação em causa).
Veja-se também a notícia que um jornal ontem transmitia: Costa e Portas apanhados a 160.
Não sei se estavam juntos ou se cada um tentou, por si só, bater um recorde. Quero acreditar que o tenham feito isoladamente.
Afianço, porém, que a notícia não estava bem redigida, já que deveria ter sido referido que Paulo e Portas tentaram ser bip bips e acabaram coiotes.
Esta notícia revela ainda uma profunda viurtude colectiva, visto esta (que a partir deste momento fica baptizada "síndrome do bip bip) não se confinar ao partido do governo mas ser também atributo da oposição. Quero, aliás, acreditar que, seja quem for que hoje saia vencedor das eleições no Psd, persistirá nesta nobre tentativa de tudo superar, embora se avizinhe que em coiote se transfigurará.
E assim se mostra como Camões estava equivocado, já que seu verso deveria rezar: "Erros nossos, má fortuna, quimera ardente!"

quinta-feira, 25 de março de 2010

Ils sont fous ces


romans...? Non, ces portugais!
Conclui-se de um estudo divulgado ontem.
Para a sintomatologia geral contribuirá, também, a acção de muitos gauleiters que por aí pululam, estimulados que têm sido por tantas práticas aberrantes superiormente instaladas; ou, como escreve Paquete de Oliveira na sua crónica no JN:

"Nos sinais visíveis deslumbra-se um clima social de depressão, manifesto na conflitualidade das relações humanas ao nível da praça pública no uso de uma rispidez de trato, dentro de portas pelo crispação de comportamentos domésticos que elevam as cifras dos maus-tratos e de práticas aberrantes..." (itálico meu)

E por aqui me fico!

Perplexidade


é aquilo que naturalmente experimentamos perante as obras de escritores como Donald Barthelme ou Thomas Pynchon (cuja imagem aqui reproduzo aquando da sua aparição nos Simpsons); autores que a crítica encerrou numa gaveta designada meta-ficção.
Muita dessa perplexidade decorre dos insistentes diálogos que esses autores exibem com diferentes campos do saber.
No caso de Pynchon, em particular de The Crying of Lot 49, emergem conceitos como entropia.
Anindita Dutta analisa-os em The Paradox of Truth, the Truth of Entropia.
Deste ensaio que podereis ler na íntegra em
http://www.themodernword.com/pynchon/papers_dutta.html
deixo-vos o passo seguinte:

"Thermodynamic entropy is the measure of this disorganization in the universe. In a closed, isolated system, the total quantity of energy remains the same, but irreversible transformations or chemical reactions within this system cause a loss in the grade or quality of the energy. In The Crying of Lot 49, Oedipa Maas realizes that she is within "the confinement of [a] tower"(pg.20), similar to the closed system in which entropy thrives. If she does not open her system, her energy will slowly degrade, till she is nothing more than a body of random disorder. Towards the end of the first chapter, Oedipa goes into the bathroom, and "[tries] to find her image in the mirror and couldn't. She had a moment of nearly pure terror"(pg.41). An image is created when light or other radiation falls upon an object of different densities, causing light scattering that is reflected in the mirror. If there were no differences in density, and only random, disordered motion, there would not be a projected image to project."

quarta-feira, 24 de março de 2010

Um poema que eu não conhecia



de um poeta que conhecia, Craig Raine.

A sugestão foi de um aluno atento:

"'A martian sends a postcard home'

Caxtons are mechanical birds with many wings
and some are treasured for their markings --

they cause the eyes to melt
or the body to shriek without pain.

I have never seen one fly, but
sometimes they perch on the hand.

Mist is when the sky is tired of flight
and rests its soft machine on ground:

then the world is dim and bookish
like engravings under tissue paper.

Rain is when the earth is television.
It has the property of making colours darker.

Model T is a room with the lock inside --
a key is turned to free the world

for movement, so quick there is a film
to watch for anything missed.

But time is tied to the wrist
or kept in a box, ticking with impatience.

In homes, a haunted apparatus sleeps,
that snores when you pick it up.

If the ghost cries, they carry it
to their lips and soothe it to sleep

with sounds. And yet they wake it up
deliberately, by tickling with a finger.

Only the young are allowed to suffer
openly. Adults go to a punishment room

with water but nothing to eat.
They lock the door and suffer the noises

alone. No one is exempt
and everyone's pain has a different smell.

At night when all the colours die,
they hide in pairs

and read about themselves -"

Boas descobertas e melhores leituras!

terça-feira, 23 de março de 2010

Inveja é a derradeira palavra de "Os Lusíadas"


e também um dos 7 pecados mortais.
Sobre ela escreveu Dante na Divina Comédia: "superbia, invidia e avarizia sono / le tre faville c'hanno i cuori accesi" (vv. 74-75).

Intertextualidades?





Com Donald Barthelme imergimos em plena pó-modernidade.
Em seus clichés e em suas idiossincrasias.
Para o compreendermos temos de recorrer às vanguardas, sejam estas aquelas que se enunciam na reflexão filosófica, como Walter Benjamin (essencial para ler "At the end of the Mechanical Age"), sejam as que absorvem discursos habitualmente considerados menos canónicos, como o dos cartoons.
E aqui emergem dois nomes: James Thurber e Saul Steinberg.
Recorde-se que, também neste último aspecto, o diálogo entre vanguardas é fundamental.
Por exemplo, nos Estados Unidos Steinberg está próximo de gente como Alexander Calder e Le Corbusier. Por outro lado, em Paris, conhece Henri Cartier Bresson que o aproxima de Simone de Beauvoir e de Sartre.
Integrará a exposição no Moma, conhecida como "Fourteen Americans", na qual participam artistas de vanguarda como Arshile Gorky e Mark Tobey.
É através da assimilação de discursos estranhos que temos, afinal, de entender aquela vertente da narrativa americana do pós-guerra, conhecida como meta-ficção.
Boas aberturas de horizontes e, consequentemene, boas leituras!

segunda-feira, 22 de março de 2010

Natureza versus Cidade?


Escreve Emerson no início do primeiro capítulo do ensaio intitulado Nature:

"To go into solitude, a man needs to retire as much from his chamber as from society. I am not solitary whilst I read and write, though nobody is with me. But if a man would be alone, let him look at the stars. The rays that come from those heavenly worlds, will separate between him and what he touches. One might think the atmosphere was made transparent with this design, to give man, in the heavenly bodies, the perpetual presence of the sublime. Seen in the streets of cities, how great they are! If the stars should appear one night in a thousand years, how would men believe and adore; and preserve for many generations the remembrance of the city of God which had been shown! But every night come out these envoys of beauty, and light the universe with their admonishing smile.

The stars awaken a certain reverence, because though always present, they are inaccessible; but all natural objects make a kindred impression, when the mind is open to their influence."

À primeira vista, Emerson parece enunciar uma dicotomia. Contudo, aquilo que ele evidencia é uma urgência, a de reencontrar, a de reconhecer o comum, o banal, o que, connosco, partilha um (nosso) quotidiano; a evidência do nosso quotidiano. Uma evidência que a insistência de tarefas várias nos torna estranhas.

Amante que sou da cidade, da grande urbe (tenhamos a hubris de considerar que Lisboa o é), dos seus sons, volumes, linhas, subtilezas cromáticas (quão bela a cidade à noite!), estou certo de que aquilo que Emerson nos propõe pode ser encontrado neste lugar.

Quando há dias incluía a imagem de um deserto num apelo à introspecção, não era o deserto em si que pretendia sinalizar, mas sim a necessidade de reencontrar um despojamento interior que crie condições de hospitalidade a uma avaliação da forma como vivemos o nosso quotidiano.

E isso pode ser feito no seio da cidade.

Com um mp3, por exemplo.

Um mp3? Interrogareis.

Sim. Vejam este site
http://dn1.passo-a-rezar.net/passo_22mar2010.mp3,
e compreendereis como essa suspensão pode ser realizada na azáfama do dia a dia.

Para nos ajudar a vivê-lo melhor!

Até com a ajuda do mp3!

Boa semana!

quinta-feira, 18 de março de 2010

Caminhos, veredas



«Se Eu testemunhasse a favor de mim próprio, o meu testemunho não teria valor; há outro que testemunha em favor de mim, e Eu sei que o seu testemunho,favorável a mim, é verdadeiro.» (Evangelho Segundo João, 5, 31)

Bom dia!

quarta-feira, 17 de março de 2010

Apetências


Na juventude, algures nos finais dos anos setenta, fui, durante três anos consecutivos, dirigente da associação de estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa.
Lembro-me de, um dia, ter tido uma reunião com o Reitor, na altura o Professor Rosado Fernandes.
Durante uma conversa, aparentemente, de mera circunstância, o Professor considerou que os políticos deviam ficar fora dos muros da Universidade, o que não significaria, obviamente, que aos universitários estivesse vedada a acção política.
De facto, para além da delimitação de campos, há também que ter em conta a entrada em áreas que lhe são estranhas por parte de pessoas que para isso não foram preparadas. E, provavelmente, pior ainda, não "têm mesmo queda" para isso.
E, refira-se, o bichinho da política pode ser muito sedutor!
Lembrei-me deste argumento ao ver a recém-deputada Inês de Medeiros!
A câmara marota da tv mostrava como ela sofria perante os argumentos políticos das outras barricadas. Sim, disse barricadas, e não bancadas, já que ela se sentia particularmente ameaçada pelos tais argumentos. E nem a actriz que ela é, conseguia dissimular o sofrimento!
Minutos depois foi a vez de um deputado da mesma "barricada", cujo nome desconheço, mas que tem aquela patusca pronúncia açoreana (nós, alfacinhas, como diria Whitman, "born here of parents born here, of parents born here the same", somos tramados, não somos?), não conseguir disfarçar o seu sofrimento!
O pobre de Cristo tinha tantos tiques faciais que mais parecia estar prestes a ter um acidente vascular cerebral!
Porque não arranja ele uma profissão menos stressante?
Entretanto, João Semedo, numa bancada em que eu só votaria in my wildest dreams, mostrava o que era exercer a função de deputado.
João Semedo está no lugar certo, enquanto a pobre Inês não consegue estar em sossego em seu assento!
Porque é que ela não volta aos (outros) palcos?
Afinal, se querem ganhar votos com um rosto feminino, jovem (e bonito), não se esqueçam que na bancada socialista há uma outra jovem deputada, Djamila Madeira, certamente mais brilhante nesta função parlamentar (e que em beleza não fica nada a dever à actriz - perdoai este heterossexual comentário!).
Por que razão estará ela, depois de uma passagem competente pelo parlamento europeu, relegada para um lugar menor na lista por Faro?
Entretanto, resta-nos ver a Inês, e o tal açoreano, a sofrer no canal do parlamento!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Estratégias de superação



Adepto que sou, desde a adolescência, de corridas de motas (chamemos-lhe assim sem grande preocupação pelo rigor semântico), fui um admirador incondicional do australiano Michael Doohan (na imagem com o inevitável número 1), da sua lucidez, frieza e coragem com que atacava cada prova fazendo parecer que os seus êxitos eram a coisa mais simples desta vida.
Foi-se Doohan e, algum tempo depois, veio Valentino Rossi, conhecido como O Doutor, devido ao facto de ser licenciado (em gestão, creio).
Rossi é muito diferente de Doohan e, todavia, um génio (extrovertido)!
Uma das coisas que mais me fascina em Rossi é a forma como ele lida com as suas próprias asneiras, já que, em vez de se ficar a lamentar, Rossi de imediato interioriza o disparate e faz tudo para não o repetir.
Nomeadamente exibindo algo que convoque esse mesmo disparate.
Por exemplo, neste último campeonato do mundo, o piloto italiano poderia ter alcançado o título mais cedo, mas fez uma asneira, caiu e deixou a revalidação para mais tarde.
No entanto, ao cair, logo concluiu que tinha sido um burro e que a melhor forma de o assumir era mandar pintar o focinho do burro do Shrek no capacete.
Assim o fez e foi com a imagem do burro, perante todo o mundo, que voltou às vitórias.
Ou seja, uma versão pós-moderna do escravo que, em Roma, seguia o vencedor, lembrando-lhe que era mortal.
E viva Rossi, pela sua arte e pela atitude!
Afinal, a mortalidade é algo a que nem o mais genial pode escapar.

Dizia-me há dias um amigo


que se as capas concebidas por Manuel Rosa para os livros da Assírio fossem para editoras americanas, inglesas, espanholas ou mesmo francesas, seriam hoje admiradas pelo mundo inteiro. Hélas, não me parece que o Acordo, dito ortográfico vá contribuir sequer para que elas se projectem muito mais para além deste jardim.
Há, todavia, um espaço novo onde elas podem ser admiradas, no conjunto que formam em torno de colecções, como as dos livros de poesia reunida de António Osório, Ruy Belo ou Herberto Helder.
É no Chiado, junto à FNAC. Na sexta-feira foram muitas as centenas de pessoas que por lá passaram.
Eis um registo dessa passagem.
Boa semana!

sexta-feira, 12 de março de 2010

uma pausa para


"lavar os olhos do excesso de imagens em que nos afoga o mundo..."
Bom dia!

terça-feira, 9 de março de 2010

O problemático tópico do perdão


Num dos muitos textos que escreveu sobre a identidade do catolicismo e o problema da conversão, G. K. Chesterton refere que um dos aspectos que mais o seduz nesta sensibilidade cristã é a atitude face ao perdão.
Ora, com a parábola do fiho pródigo, aqui revisitada por Rembrandt, deixo-vos o comentário sobre o tópico do perdão feito por São João Crisóstomo (v. 345-407), presbítero em Antioquia e Bispo de Constantinopla.

O mote é, obviamente, Mateus, 6, 12:

«Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido»

Ei-lo:

"Cristo pede-nos duas coisas: que condenemos os nossos pecados e perdoemos os dos outros, e que façamos a primeira coisa por causa da segunda, que será então mais fácil, pois aquele que pensa nos seus pecados será menos severo para com o seu companheiro de miséria. E perdoar não apenas por palavras mas «do fundo do coração», para que não se vire contra nós o ferro com que cremos trespassar os outros. Que mal te pode fazer o teu inimigo, que se possa comparar com aquele que fazes a ti próprio? [...] Se te deixas levar pela indignação e pela cólera, serás ferido, não pela injúria que ele te fez, mas pelo ressentimento com que ficas.

Não digas: «Ele ultrajou-me, ele caluniou-me, ele causou-me inúmeros males.» Quanto mais disseres que ele te fez mal, mais demonstras que ele te fez bem, pois deu-te oportunidade de te purificares dos teus pecados. Deste modo, quando mais ele te ofende, mais hipóteses te dá de obteres de Deus o perdão dos teus pecados. Porque, se quisermos, ninguém poderá prejudicar-nos; até os nossos inimigos nos prestam um grande serviço. [...] Reflecte portanto nas vantagens que obténs de uma injúria suportada com humildade e doçura."

Complicado, não é?

sexta-feira, 5 de março de 2010

A propósito do que convite que vos fiz há dias



no sentido de irem a Santa Isabel ouvir Luís Miguel Cintra dizer o sermão de Quarta-feira de Cinzas do Padre António Vieira, deixo-vos as derradeiras palavras deste sermão, juntamente com dois planos de Palavra e Utopia: um, com o sempre sublime Luís Miguel Cintra, e outro com a sempre bela Leonor Silveira.
Pensai em "que podeis fazer nesta quaresma.
Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e connosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida.
E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora.

Primeiro: quanto tenho vivido?
Segundo: como vivi?
Terceiro: quanto posso viver?
Quarto: como é bem que viva?

Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo!"

Boas meditações!

Demolition call

video

E se os/as pobres coitados/as que sofrem nos portais para o Inferno, fizessem como esta menina de Dublin?

quinta-feira, 4 de março de 2010

Que escola é esta?!


Peter Buck, músico dos R.E.M., escreve num CD: "Nunca vi Buffy, a caçadora de vampiros, mas a ideia de que a secundária é um portal para o inferno, parece-me muito rigorosa."
Peter Buck está brincar?
Olhemos, então, em redor.
Vejamos o que escreve Manuel António Pina na sua crónica hoje no JN:

'A morte de uma criança de uma escola de Mirandela, tudo indica que vítima de bullying, trouxe à luz do dia, da pior maneira, uma das situações de violência oculta mais comuns nas escolas portuguesas, caracterizada por actos de violência física ou psicológica praticados repetidamente por um indivíduo ou grupo sobre outros. "Não apanho mais, vou atirar-me ao rio", terá dito Leandro antes de se lançar ao Tua.
Tinha 12 anos e era sistematicamente agredido por colegas. Na escola, pelos vistos, ninguém deu por nada, apesar de notícias de que, há já um ano, Leandro recebera assistência hospitalar após mais uma agressão e de outras queixas de bullying entre alunos que agora a tragédia trouxe a público. Sem poder disciplinar, sem pessoal, sem meios (ao contrário dos colégios privados para onde o ME canaliza os recursos que "poupa" no ensino público), as escolas pouco podem hoje contra a lei da selva dos recreios. Aos Tribunais de Menores raramente chegam queixas de bullying e mais raramente vindas de escolas. E continua a não haver entre nós uma lei específica que proteja as vítimas e puna os agressores.'

Quantos milhares de jovens estão a sofrer em silêncio, vítimas do chamado "bullying"? O que será necessário para introduzir medidas efectivas de controle sobre os energúmenos e as energúmenas que violentam tanta miudagem inocente?
Quais as estratégias de negociação e remediação que nos propõem os êduquêses?

"Self-portrait in a convex mirror",


de John Ashbery coloca questões particularmente interessantes em termos do diálogo entre o texto e a imagem, movendo a ekphrasis para um plano diferente daquele que a tradição a convencionou, nomeadamente ao introduzir uma dimensão, na sua aparência, confessional, (em certos instantes) quase ao estilo de Frank O'Hara.
António M. Feijó que traduziu este poema para português (a preciosa edição na Relógio d'Água encontra-se, há muito, esgotada), escreve a propósito no posfácio:
"... a sua (de "Self-Portrait in a Convex Mirror") ocorrência em The Tennis Court Oath resulta de um ímpeto mais preciso. Esse ímpeto era, aqui, libertar a literatura da 'literatura', fundi-la com a fundamental opacidade do medium, torná-la homóloga do expressionismo abstracto em pintura."

Boas leituras!

quarta-feira, 3 de março de 2010

Dizia-me há pouco uma amiga


que as grandes ditaduras novecentistas espreitam por aí.
"Foi para isto que lutámos na nossa juventude?" Inquiriu.
Referia-se ao silêncio que nos espreita no nosso quotidiano.
Por tudo isto, lamento profundamente que Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira, não esteja disponível em DVD, já que a edição existente está há muito esgotada.
Era urgente revê-lo e repensar a lição ética de liberdade que Vieira nos transmite.
Ao ver Pinto Balsemão na TV; ao observar o respeito daqueles que o ouvem, incapazes que são de lançar à-partes, na sua presença; torna-se evidente que a autoridade não pode jamais ser confundida com o autoritarismo.
Que saudades dos tempos em que tinhamos dirigentes assim!
Quanto a Vieira, poderemos ouvir as suas palavras - pelo menos aqueles que vivem em Lisboa, podem - amanhã à noite, pelas 21.30h, na paróquia de Santa Isabel, através da voz de Luís Miguel Cintra; Luís Miguel Cintra que foi o Vieira adulto em Palavra e Utopia.
A imagem que vos deixo é a do Vieira velho, encarnado por Lima Duarte.
Até amanhã... em Santa Isabel.

Aquela cara não me era estranha!


Após algum tempo consegui identificá-la: era a cara do Sr. Carriço, o empregado da mercearia do Sr. Esteves.
Há décadas que a mercearia do Sr. Esteves deu lugar a um video-clube lá da terra.
O Sr. Esteves já faleceu há muito.
Quanto ao Sr. Carriço, bom, nunca mais voltei a vê-lo.
Até ao momento em que... a câmara da televisão o exibiu enquanto estava a assistir à audição de Manuela Moura Guedes na Comissão Parlamentar que averigua you know what.
Lá estava o velho Carriço, anafadinho e rosadinho, tal como o conhecera na infância.
Havia apenas uma pequena diferença: em vez do avental do costume, ostentava fato e gravata.
O Sr. Carriço demonstrava, porém, uma atitude mais afoita daquela que lhe era habitual quando se movimentava atrás do balcão, entre os depósitos do arroz e do feijão-frade.
Era, assim, afoito, que ele mandava umas bocas à Manuela Moura Guedes.
O Presidente da Comissão Parlamentar fez-me lembrar o Sr. Esteves quando puxava as orelhas ao pobre Carriço.
Este, calou-se.
A Manuela Moura Guedes perguntou quem é que ele era, pois não o conhecia.
Ele ficou algo vermelhusco.
Então ela não o conhecia?
Ele, um notável representante do povo!
Como é que era possível que alguém não o conhecesse?!
A minha mulher também não sabia quem é que ele era.
Eu, não!
Eu sabia: era o Sr. Carriço, afianço-vos!

terça-feira, 2 de março de 2010

"Invisible Man" no olhar de Jeff Wall



Jeff Wall. (Canadian, born 1946). After “Invisible Man” by Ralph Ellison, the Prologue. 1999–2000. printed 2001. Silver dye bleach transparency (Ilfochrome); aluminum light box.. Image: 5' 8 1⁄2" x 8' 2 3⁄4" (174 x 250.8 cm); light box:. The Museum of Modern Art, New York. The Photography Council Fund, Horace W. Goldsmith Fund through Robert B. Menschel, and acquired through the generosity of Jo Carole and Ronald S. Lauder and Carol and David Appel.. 2007 Jeff Wall.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Pastiche ou diálogo apenas...


Amiúde nos debatemos no nosso quotidiano com armadilhas várias; sejam estas meros impulsos (sinais que o corpo nos envia) ou registos (narrativas) com as quais o inconsciente (as tais profundidades imemoráveis) nos confronta.

Assim emergem o sentimento de ficar sempre aquém do próprio sentido desejado, a culpabilidade, e, pior ainda, o desejo de vingança.

Neles se dissimula (denega) o impulso para a busca da verdade, do Rosto, da vida.

Talvez tenha sido o reiterado apelo dessa busca que, no final de um episódio da série Números, o irmão-agente do FBI vai ao encontro da Sinagoga.

Fá-lo, no cumprimento, enfim, da até então silenciada (sua) vocação pessoal...

Uma exposição


Abriu na passada 6.ª feira, na Capela do Rato, uma exposição/projecto designada/o Arte Contemporânea e Sagrado, com uma instalação da obra Quando o Segundo Sol Chegar, de Rui Moreira.

A iniciativa é do hiper-activo poeta e padre José Tolentino Mendonça.

O projecto promove uma abordagem do tópico a partir de diferentes perspectivas e diálogos inter-artes: um artista plástico inspirado pela poesia e pela música; um compositor a criar uma missa para uma função cívica; uma artista que trará um Anjo de Berlim e uma outra que talvez crie uma árvore da vida.

O trabalho de Rui Moreira ficará exposto até ao princípio de Maio. Suceder-lhe-á uma obra de Gabriela Albergaria.

A 23 de Maio, uma missa de Pentecostes, composta por João Madureira, estreia na capela.

No final do ano, coincidindo com o tempo litúrgico do Advento, será exposto Anjo de Berlim, de Lourdes Castro.

Até mais logo!